RSS Amplifier

Olhar de Raposa 🦊 · Aug 12, 2026

🦊 Gestos de uma escrita pequena, ruim e curiosa

0
Sign in to vote or save

Tales Gubes · Olhar de Raposa 🦊

1.

Comecei a fazer uma pós-graduação chamada Gestos de escrita como prática de risco, nA Casa Tombada, aqui em São Paulo. A explicação do curso, direto do site da instituição, é a seguinte:

Gestos de escrita como prática de risco é um curso que se propõe a discutir o fenômeno da escrita ao mesmo tempo em que aposta na escuta do desejo de escrita de cada participante, disponibilizando ferramentas para que esta prática se expanda e se materialize, independentemente do gênero ou tipologia discursiva.

Estou empolgado e curioso com o que esse percurso fomentará de reflexões e experimentações daqui pra frente. Acabamos de começar, até agora foram apenas dois encontros, um de “entrevista em grupo” e um de introdução ao curso, então ainda é cedo para dizer muito.

Ainda assim, já tenho algo para contar. 👇

2.

Resolvi aproveitar que estamos lendo o livro Palavra por Palavra, de Anne Lamott, no Clube de Leitura do Ninho de Escritores e levei dois conceitos apresentados pela autora para o encontro do Círculo (o grupo de prática e diálogo sobre escrever e viver que coordeno nas noites de terça-feira).

Esses conceitos são:

  • Pequenas tarefas: escrever pequeno, uma coisinha de cada vez, para que a gente não se perca na imensidão dos nossos projetos mais ousados ou paralise antes mesmo de começar. Uma nota importante é que pequenas tarefas não são cenas pequenas (“dois personagens conversando sobre alface”), mas um pequeno ato de escrita (uma descrição da alface, ou uma frase de diálogo).

  • Primeiros esboços ruins: respeitar o entendimento de que uma boa escrita é fruto da reescrita e que inevitavelmente vamos escrever coisas “ruins”. Dá pra dizer muito aqui sobre o que é ou deixa de ser ruim, mas no texto de hoje não vou me debruçar sobre essa ideia além de reiterar que o convite é pra aceitar a palavra como ela vier, sem a expectativa de que ela seja algo diferente do que foi capaz de ser naquele instante de escrita.

Pedi ao grupo que listasse uma série de “pequenas tarefas” sobre as quais teriam interesse em escrever, e então dedicamos cinco minutinhos para escrever uma delas.

Da minha lista, que incluía “dor na costela de manhã” e “descrição da padaria que visitei”, escolhi “texto coletivo na aula da pós” e escrevi o seguinte:

A professora nos mandou começar e nada aconteceu. O convite era escrevermos livremente em um arquivo de texto online compartilhado, todas ao mesmo tempo. Vários cursores surgiram na tela com nomes diversos – tamanduá anônimo, grilo anônimo, girafa anônima – sobre a pergunta inicial. Qual é o seu risco na escrita? E então tudo aconteceu: palavras pipocaram, parágrafos foram criados, letras entremearam outras letras, uma torrente de ideias inundou a página virtual e páginas inteiras surgiram.

Gostei do texto? Não gostei. Importa eu não ter gostado do texto? Não, porque a proposta era cumprir uma pequena tarefa sabendo que o primeiro esboço seria ruim. O texto nasceu porque, mesmo ouvindo as vozes internas que gritavam que estava tudo errado e que eu jamais poderia ser um escritor e que talvez devesse escrever outra coisa ou que quem sabe poderia fingir que acabou a luz e sair do encontro e assim nunca passar pela vergonha de admitir que escrevi um texto tão fora de eixo, mesmo ouvindo tudo isso, decidi sentar com o caos e escrever, confiando que há vida durante e depois da escrita.

3.

Há anos venho usando o livro After the end: teaching and learning creative revision, de Barry Lane, para inspirar as práticas que proponho dentro do Ninho de Escritores. Um dos conceitos básicos do livro é o das perguntas semente, perguntas que podemos fazer para o nosso texto, ou receber de outras pessoas, e que podemos utilizar para continuar ou refazer a nossa escrita.

Depois do exercício das pequenas tarefas, lemos o texto de cada participante e oferecemos perguntas. A curiosidade é, junto com a atenção e a brincadeira, um elemento fundamental na vida de uma artista, e qualquer situação, por mais cotidiana que seja, pode gerar um sem-fim de perguntas, basta olharmos com abertura e apreciação. Assim como quando fazemos um toró de ideias, ou brainstorm, o que importa no exercício da curiosidade é a quantidade, não uma pretensa qualidade.

Para o meu texto, o grupo fez as seguintes perguntas:

  • que aula era essa?

  • quantos anos têm os personagens?

  • dentro de qual contexto essa aula?

  • quem escreveu?

  • como expresso meu criativo no meio de uma multidão?

  • aconteceu algo para as pessoas começarem a escrever e deslancharem? O que causou a mudança?

  • o que nasceu? Qual o resultado final? O que acontece com ele?

  • qual será a reação desse personagem lendo depois?

  • eram várias pessoas escrevendo o mesmo texto?

As perguntas semente me indicam o que foi interessante no texto, e a partir delas posso escolher caminhos para prosseguir a escrita. Depois de escutarmos todos os textos e compartilharmos nossas perguntas, tivemos mais dez minutos para escrever uma nova versão respondendo a uma ou mais perguntas.

Eis o que escrevi:

Era a primeira aula da pós-graduação em Gestos de Escrita como Prática de Risco. Ao todo, éramos trinta e duas pessoas na sala virtual do Zoom, vinte e nove mulheres e três homens, duas professoras e trinta alunas, trinta pessoas no Brasil e duas em Portugal. Foi proposto um exercício coletivo: todas nós, no mesmo arquivo do Google Docs, deveríamos escrever, em qualquer lugar, a qualquer momento dentro dos três minutos ofertados, uma resposta à pergunta Por que não pude deixar de vir? De início, ninguém conseguia interferir no arquivo. Medo das primeiras letras, talvez? Tão logo alguém iniciou, contudo, todas as demais começaram também. Palavras e frases foram surgindo sem muita ordem, parágrafos saltando e se misturando, algumas escritas atravessando frases já postas, outras começando e apagando. Passados os três minutos, tivemos um texto de múltiplas páginas e também múltiplas perspectivas, todas elas respondendo à mesma pergunta, todas explorando aquele gesto de mostrar-se e arriscar-se anonimamente. O documento, registro de uma experiência coletiva de experimentação, agora vive na plataforma online do curso, um marco de um momento em que esta turma ainda não é, exatamente, uma turma. Daqui um ano e meio, penso que voltaremos às palavras escritas com outro olhar, o olhar de quem se reconhece como companheiras de caminhada.

Não que eu ache isso muito relevante, mas gostei bastante dessa segunda versão, reescrita à luz das perguntas que recebi e escolhi.

4.

Tenho gostado da releitura do Palavra por palavra porque a Anne é muito honesta com relação ao que é difícil na vivência da escrita. Em um dos trechos logo no início do livro, ela fala sobre como muitas vezes é frustrante sentar e escrever sabendo que pode ser que não saia nada que consideremos valioso.

Esse trecho me lembra uma outra citação, desta vez de Allan Watts, que diz: “este é o verdadeiro segredo da vida, estar completamente envolvido com o que você está fazendo no aqui e agora. E ao invés de chamar isso de trabalho, entender que é brincadeira”.

Escrevi ao lado do meu desenho de uma garrafa – que bem poderia ser um tambor esticado no espaço-tempo – como um lembrete para mim mesmo para estar na escrita (e no desenho) de corpo inteiro, aberta para o jogo, encarando tudo como um experimento! 🌿

5.

Mudando de saco pra mala: ontem fiz minha primeira aula de boxe. Eu fui pronto para o Muay Thai, mas chegando lá descobri que o professor havia quebrado o nariz de manhã e, portanto, não poderia conduzir a aula. Embora Muay Thai seja conhecido como boxe tailandês, existem diferenças significativas entre ambos, a começar pelo fato de que Muay Thai utiliza não apenas os punhos como também cotovelos, pernas e joelhos.

Um joelho, inclusive, me deixou fora dos treinos por duas semanas. No caso, o joelho do professor, que durante uma sessão de sparring (treino de combate) me atingiu na altura das costelas. Passei esse tempo em casa descansando e gemendo de dor quando me mexia do jeito errado. Joelhada na costela? Não recomendo.

Por conta do período longe da academia, só pude acompanhar de longe a fofoca da vez: o professor da joelhada saiu da academia, creio que por motivos não relacionados, e pegou pra si todo o grupo de WhatsApp que a academia vinha construindo nos últimos meses, com mais de 75 alunos, para divulgar seu novo local de trabalho.

Achei ousado, não vou mentir.

Muito obrigado pela leitura!

Com carinho,

Tales

Nenhuma publicação

Read the original on talesgubes.substack.com

Comments

Nothing yet. Say the first thing.

    Sign in to join the conversation.