Palavras: 1742. Tempo de leitura: 9 minutos (áudio no Telegram).
Podia ter sido melhor, pelo menos se pensarmos nos interesses mais globais, que os de cada clube acabaram por ser bem defendidos. O Benfica empatou a uma bola frente ao Hearts, em Edimburgo, face aos 6-1 da primeira mão deu-se ao luxo de poupar Pavlidis, Bah e Dahl – e em parte do jogo ainda Tomás Araújo, Lenglet, Barreiro, Prestianni e Rafa – mas garantiu na mesma que vai jogar as competições europeias deste ano. O que vai estar em causa no playoff das próximas duas semanas, com os dinamarqueses do AGF Aahrus, é se o faz como cabeça-de-série da Liga Europa ou da Liga Conferência. Nesta competição, em jogo que valeu uma boa sesta de final de tarde, que ontem não houve eclipse a animar, o SC Braga empatou também, mas a zero, em Stara Zagora, na Bulgária, contra os bielorrussos do Dynamo Minsk, fazendo valer o penalti de Ricardo Horta (1-0) na primeira mão. Não foi nada empolgante, mas vale também um lugar no playoff, no caso contra os austríacos do Austria Viena, uma espécie de tudo ou nada: quem ganhar joga Conference, quem perder não volta a internacionalizar o seu futebol esta época. Portugal recuperou na época passada um lugar no ranking, passando de sétimo a sexto, apenas atrás das chamadas Big Five, o que significa que em 2027/28 já voltaremos a ter a possibilidade de meter três equipas na Liga dos Campeões – e já se sabe como isso é importante para a pacificação global do futebol nacional. Mas não só a manutenção da posição como até um eventual ataque ao quinto lugar da França dependerá da nossa capacidade para manter as cinco equipas em jogo na fase de Liga. No ano passado, por exemplo, só por lá tivemos quatro, que o Santa Clara baqueou nas preliminares da Conference. Já há certeza de FC Porto e Sporting na Champions, de Torreense na Liga Europa e de Benfica na Liga Europa ou, na pior das hipóteses, na Conference. Até porque a expectativa de o Torreense – equipa de II Liga... – pontuar bem são baixas, é importante que Benfica e SC Braga cumpram uma temporada muito acima do normal, até porque globalmente jogarão contra adversários de menor estirpe. Portugal tem para já 5.700 pontos de avanço da Bélgica e só 3.946 de atraso para a França, cujos pontos são divididos por sete e não por cinco, como os nossos, em função de ter mais equipas em jogo. Na época passada, por exemplo, o Paris Saint Germain até ganhou a Liga dos Campeões mas Portugal recuperou mais de dois pontos à França no ranking. Em causa, na luta pelo quinto lugar, estão três vagas diretas na Champions de 2028/29, mais uma na pré-eliminatória, duas diretas na Liga Europa e uma sétima no play-off da Conference. Se eu acho que vai acontecer? Não. Mas podemos animar-nos a tentar.
Menos campeão. Tive mais dificuldades do que o habitual, quando escrevi o meu Guia da Liga (a ler aqui), na escolha do meu previsível campeão. Não que nos outros anos em que venho fazendo este exercício tenha acertado sempre, mas uma coisa é certa: entrei sempre na Liga com mais convicções do que este ano, em que a cada vez que me inclinava para uma cor lá vinha a dúvida. O FC Porto é campeão, não mudou, por isso é favorito? Certo. Mas terá de jogar mais, que aquele futebol minimal dificilmente chega para um bicampeonato. O Sporting acertou na maior parte das aquisições, vem com fome de títulos? Verdade. Mas falta-lhe criatividade, na busca pela potência, e além de ter um vazio de liderança não é fácil meter uma equipa toda nova a carburar com urgência. O Benfica terá as ideias mais frescas e ofensivas de Marco Silva e volta a entrar numa Liga com imagem limpa, em vez daquelas dúvidas todas com Schmidt e com Lage? Sim. Mas dos três parece ser o que tem mais carências identificáveis no plantel. A Liga vai dizer-nos qual destas objeções é menos significativa, mas de uma coisa fiquei desde logo convencido. Seja quem for este ano o campeão, perderá seguramente mais pontos do que o FC Porto de 2026 (14) ou que o Sporting de 2024 (12). Há-de ser uma coisa mais próxima do Sporting de 2025 (20 pontos perdidos). Ou se calhar ainda pior. Nem de propósito, a primeira jornada já tirou dois pontos ao Sporting e outros dois ao Benfica, nos empates com o Estrela da Amadora e o Académico de Viseu. Safou-se o FC Porto, que ganhou por 2-0 ao FC Alverca. Porque defende melhor? Nem tanto. Se defendesse assim tão melhor não tinha permitido 15 remates ao adversário, oito dentro da área e cinco enquadrados. O Benfica, com oito-oito-quatro, e o Sporting, com oito-quatro-três, empataram. Calhou...
Centralização no parlamento. O Benfica não se conforma e submeteu à Assembleia da República uma petição para que seja suspenso a entrada em vigor e revisto o modelo adotado para a comercialização centralizada dos direitos audiovisuais da Liga de futebol. Sendo o objetivo de Rui Costa a recolha de assinaturas que a suportem, a petição vai arrasar, que se há coisa para a qual o benfiquismo parece mobilizado é para travar a centralização. As 7.500 assinaturas apontadas como alvo são irrisórias no universo do maior clube português... Se, depois, os deputados devem usar esta adesão popular em nome do emblema do coração para travar o decreto-lei já votado e publicado em Diário da República em Março de 2021 e com data de entrada em vigor marcada para 2028, com tempo suficiente, portanto, para que os clubes se posicionassem e escolhessem os moldes nos quais pudessem nele encaixar as competições, já tenho muitas dúvidas. Ou melhor, tenho certezas: não, não devem. A Liga tem muita coisa a melhorar, seja na forma de usar a comunicação dos principais agentes, de tornar a experiência no estádio atrativa para os espectadores, de usar boas práticas audiovisuais nas transmissões televisivas, até de dar às jornadas relvados em condições? Sem dúvida nenhuma. Mas uma coisa é a criação de riqueza e outra a sua distribuição. E é possível defender a intervenção na criação de riqueza, de forma urgente, para que o bolo global possa estar mais próximo dos valores projetados num mercado em recessão, e ao mesmo tempo entender que a sua distribuição deva ser equilibrada, para a defesa da competitividade, sem ceder aos interesses arrebanhadores dos mais fortes. Vai ser divertido ver de que lado desta luta social se posicionam direita e esquerda. E se a ideologia vale mais ou menos do que a clubite.
A herança de Cruijff. Xavi Hernández é o novo selecionador dos Países Baixos, pondo termo a rumores que até chegaram a apontar Roberto Martínez ao cargo. Já foram muitos os jogadores e técnicos a fazer a viagem em sentido inverso, desde que em 1971 Rinus Michels deixou o Ajax e foi liderar o FC Barcelona. Ninguém uniu as duas realidades como Johann Cruijff, que foi atrás de Michels em 1973 e, primeiro como jogador, mas depois sobretudo como técnico e guru se tornou símbolo do Barça, da Catalunha e de um futebol que os dois partilham com a Laranja Mecânica. É certo que com Guardiola as coisas conheceram alguma evolução, mas mais do que um jogar-à-Barcelona ou um jogar-à-neerlandesa há um jogar-à-Cruijff, cujos princípios básicos estiveram nos melhores momentos que tanto a equipa Blaugrana como a seleção dos Países Baixos conheceram desde que me lembro de ver futebol. Até hoje, é certo, a realidade transpôs-se muito mais facilmente de Norte para Sul. Agora, como Xavi, veremos se o Barça é mesmo “mais que um clube”. Se pode ser influência numa seleção nacional.
O mercado que vem aí. Ferrán Torres, o espanhol que marcou o golo da vitória na final do Mundial, vai deixar o FC Barcelona e assinar pelo Paris Saint-Germain. Rodri há-de ir acabar em Barcelona, mesmo que os catalães ainda não tenham chegado aos valores que quer o Manchester City. E quando isso acontecer é certinho que Enzo Fernández, esse eterno insatisfeito, fará a viagem para Norte, do Chelsea para se reencontrar com Enzo Maresca. O mercado ainda vai a meio e tem duas semanas para atingir o ponto de ebulição. Só nós mesmo, na nossa originalidade, é que já estamos a competir. Percebe-se: Portugal tem um dos Invernos mais duros da Europa e tem de ganhar avanço (e sim, para os mais literais, aqui estava a ironizar).

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É às 12h30, em direto apenas no Substack – e recomendo que usem a app, que é gratuita e podem instalar no botão aqui em cima. A gravação do programa será depois colocada no meu canal de YouTube. Todos podem ver o direto, só os subscritores Premium poderão comentar e interagir. Hoje, o programa será sobre a alienação de talento que está a ser tendência no futebol nacional. Vamos falar sobre os casos de Rodrigo Mora, Pedro Gonçalves, Bragança e até Sudakov ou Schjelderup. Apareçam!
Infantino furore has deep roots – Fifa is rotten institutionally, excelente leitura dos dez anos de Gianni Infantino à frente da FIFA, a começar pelos eventos que levaram à sua eleição. “A tentativa da FIFA superar a crise causada pelo executivo que arrendou um apartamento para os gatos na Trump Tower voltou à Trump Tower, com um presidente que tem lá um escritório”, escreve Jonathan Wilson, no The Guardian, depois de detalhar tudo o que sucedeu entre o escândalo de corrupção com Chuck Blazer e a crise atual.
EFL has defied the prophets of doom to move into golden age é uma reflexão conduzida por Tim Wigmore, no The Telegraph, em dia de início do Championship, a propósito do declínio adivinhado aquando da criação da Premier League, em 1992, mas contrariado na transformação do segundo escalão inglês num campeonato entusiasmante. Começa hoje, às 20h, com o Wolverhampton-Blackburn Rovers, o campeonato que foi o terceiro mais visto no estádio em todo o continente europeu, teve a sexta maior receita global e meteu 31 jogadores no Mundial. É verdade que isso leva tempo e que muito foi obtido a reboque da Premier League e da cultura futebolística inglesa, mas está ali uma lição.
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