Após a DiaTV contrariar o próprio público e convidar o deputado Kim Kataguiri, conhecido por sua intolerância a pautas culturais e um dos mais ativos articuladores do golpe da Dilma, que nos deixou no buraco de que ainda tentamos sair, uma entrevista com o criador do canal, concedida ao Exame em abril deste ano, passou a viralizar.
Contando uma história de superação, em que a mãe faz um sacrifício para que ele estude no Canadá, a matéria é uma das tantas que dão a entender que, hoje, gerir uma emissora pode ser para qualquer um: basta ter força de vontade. É o mito da garagem fazendo-se presente para uma geração de jovens que já sofrem com desemprego e falta de oportunidades, uma das tantas marcas que deixam o golpe que o entrevistado Kim nos deixou, enquanto ganha tranquilamente quase R$ 50 mil por mês – sem descontos.
Tal qual se viralizou com a CazéTV durante a Copa do Mundo, a DiaTV tentará ser vendida à mídia como uma alternativa de comunicação independente, ainda que a captação de R$ 40 milhões envolva muitos patrocinadores e a garantia de abrir mão da sua narrativa para abraçar políticos extremistas. Mas tudo vale no sensacionalismo de tentar te convencer de que a televisão tradicional acabou.
O primeiro equívoco na história é tornar comum chamar CazéTV e DiaTV de emissoras. Subtende-se que o canal em questão pertence à radiodifusão, cumpre com uma concessão pública e demais regras que a permeiam, inclusive no que diz respeito à sua estrutura de reprodução de sinal via satélite, ainda muito mais eficaz do que as transmissões pela internet. Ambas não são nada disso, nem querem chegar a ser, mas te convencer do contrário é um negócio lucrativo para as plataformas que as permitem existir.
Análises da década de 2010 previam um futuro tenebroso para as emissoras tradicionais. Alguns pesquisadores chegam a afirmar que o modelo publicitário não suportaria a chegada das transmissões online, o que, de alguma forma, levaria a TV aberta à morte por inanição e à falência. Esse cenário não só não aconteceu como dificilmente veremos algo diferente neste sentido dar certo.
As tentativas de manter uma TV online em funcionamento dependem ainda mais da estrutura publicitária do que a própria TV aberta. Parte do esforço se deve à dificuldade de fechar contratos com grandes marcas já presentes no dia a dia da televisão tradicional. É preciso provar ter uma audiência de milhões, bilhões, zilhões de visualizações para tentar convencer uma BYD a embarcar no online e, talvez, abandonar sua cota de patrocínio na novela das 9.
Daí, o que passamos a nos acostumar a ver sobre os “18 milhões de aparelhos conectados”, “as menções nas redes sociais”, etc.: qualquer métrica que não seja Ibope deu conta de criar uma audiência inventada, enquanto as mesmas plataformas se negam a contabilizá-las junto ao instituto que oferece dados realmente verificáveis há mais de 50 anos.
A falta de disputa pelo campo online por grandes marcas, a todo momento, fez com que a CazéTV se aliasse a casas de apostas, algo que discuto no texto sobre isso, postado durante a Copa do Mundo e suas “polêmicas” extracampo. Mas este é um mau sinal para quem segue apostando no negócio, e é preciso recorrer às subsidiárias para manter viva a ilusão de que o online irá ultrapassar a TV via satélite.
A abertura ao capital estrangeiro na mídia brasileira já resultou em alguns desastres recentes. Como a autorização da fusão entre a Warner e a AT&T pela Anatel, atropelando a legislação vigente, e o uso indiscriminado de programação linear, com o aval da Ancine e da própria Anatel, para responsabilizar as empresas a se enquadrarem como se deve.
No entanto, como este capital ainda não pode ser majoritário, é preciso tentar invadir a dinâmica das audiências de outros modos, e isso reside nos canais do YouTube ditos progressistas, independentes e inovadores. Aos poucos, quem manda realmente no investimento vai mandar na escolha de pautas e no jeito de comunicar, tratando de encurtar cada vez mais o espaço para uma mídia realmente imparcial, embora essa palavra nunca tenha cumprido seu sentido na prática.
A entrevista com Kim Kataguiri não é um erro editorial, uma falha no percurso, tampouco a tentativa de criar um ambiente para diversas vozes (qual diversidade, né?). Isso é um projeto e estará alinhado à própria radiodifusão.
As reais emissoras de televisão continuarão sendo barões da comunicação brasileira, sendo as primeiras a ingressar nas novas tecnologias criadas, como vem sendo o caso da TV 3.0, e para manter sua neutralidade no que diz respeito às regulamentações futuras (até hoje o marco regulatório de mídia brasileiro não as abraça), abrirão espaço para as parcerias de transmissões dos canais de YouTube que hoje são vendidos como uma grande alternativa a uma TV que supostamente morreu em 2010.
E esse é um projeto lucrativo para o streaming, mas amplamente perigoso para a continuidade de um setor audiovisual realmente independente e, ainda mais, para as próprias audiências, cujos direitos não estão assegurados.
Por Marina Rodrigues, idealizadora do Simplificando Cinema
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