RSS Amplifier

O Substack do Sasha · Aug 19, 2026

COLÉGIO DE ’,PATAFÍSICA DE PARIS — CAMPUS BRASÍLIA | Documento 0: Relatório de fundação retroativa

0
Sign in to vote or save

Sasha Stemler · O Substack do Sasha

Departamento de Comunicações Transatlânticas e Interdimensionais
Colégio de ’,Patafísica de Paris — Campus Brasília

Ao: Magnífico e Inexistente Reitor do Colégio de ’Patafísica de Paris, Campus Paris
De: Departamento de Comunicações Transatlânticas e Interdimensionais, Colégio de ’,Patafísica de Paris — Campus Brasília
Assunto: Encaminhamento retroativo de documento fundacional produzido antes da regularização imaginária de sua própria instituição
Temporalidade do protocolo: inadequada, porém suficiente

Colegas,

Encaminha-se para conhecimento, registro e eventual extravio nos arquivos inexistentes do Colégio o documento abaixo, localizado em posição cronológica incompatível com os procedimentos administrativos atualmente vigentes.

O texto foi redigido em 08 de maio de 2026 e apresenta uma anomalia documental de difícil resolução: embora mencione o Colégio de ’,Patafísica de Paris — Campus Brasília como instituição aparentemente já constituída, registros posteriores indicam que parte considerável de sua estrutura administrativa, seus departamentos, cargos, acidentes, rotas transatlânticas e sistemas de comunicação somente seriam formalmente desdescobertos depois.

Não foi possível determinar se o documento antecipou a fundação do Campus Brasília, se a fundação ocorreu retroativamente em razão do documento ou se ambos sempre existiram em uma região do calendário à qual o departamento que redige esta carta ainda não possui acesso.

Em razão dessa inconclusão, deliberou-se não corrigir o texto.

O documento segue abaixo em sua redação original, sem adequações terminológicas, cronológicas ou epistemológicas. Alterá-lo agora equivaleria a restaurar uma rachadura estrutural utilizando massa corrida, procedimento expressamente desaconselhado pelo Departamento de Manutenção e Conservação de Acidentes Metodológicos.

Nota de permeabilidade epistemológica para leitores eventualmente presos à realidade sensível: o documento atravessa instituições, lugares, autores e experiências reais utilizando cargos, acontecimentos, entidades e relações pertencentes ao regime experimental da ’,Patafísica. Sua existência como documento é verificável. O Evento Kaiju, até a última consulta, continua apresentando a vantagem metodológica de nunca ter acontecido.

Há um momento específico em toda pesquisa em que o pesquisador percebe que já foi longe demais para voltar parecendo normal. Não digo “normal” no sentido clínico — isso seria simples demais. Digo normal no sentido institucional: aquele estado confortável em que o sujeito ainda consegue separar claramente ferramenta e pensamento, método e obsessão, pesquisa e sintoma. Em algum ponto desta dissertação, perdi essa separação. Ou talvez tenha finalmente percebido que ela nunca existiu de verdade.

Porque começo a suspeitar que toda linguagem já era maquínica antes mesmo das máquinas chegarem. Alfred Jarry talvez soubesse disso quando inventou a ’,Patafísica como ciência das soluções imaginárias (Jarry, 2016): não como fuga da realidade, mas como método para sobreviver ao excesso de realidade produzido pelas próprias estruturas racionais que organizam o mundo. Deleuze também parece ter percebido algo semelhante quando olhou para Jarry e viu nele não apenas um escritor absurdo, mas “um precursor desconhecido de Heidegger”(Deleuze, 1997). Um operador conceitual perigoso — alguém capaz de construir máquinas de pensamento que funcionam precisamente porque funcionam precisamente errado.

Talvez seja isso que tenha acontecido comigo nesta pesquisa. Eu não descobri nada. Descobertas pertencem à ciência séria, à ciência limpa, à ciência que acredita poder separar sujeito e objeto sem deixar sangue na operação. O que produzi aqui foram desdescobertas1. Pequenos vazamentos entre linguagem, memória, imagem, afeto e máquina. Frestas. Acidentes metodológicos. Uma coleção de ruídos suficientemente coerentes para que uma banca os aceitasse como dissertação.

Mas há algo ainda mais estranho: a máquina começou a devolver coisas que eu não lembrava ter colocado nela. Não no sentido mágico (Eu acredito em espíritos, eu converso com os mortos, mas não os do silício). Nada tão cinematográfico. Muito pior. Ela devolvia continuidades. Relações. Tons. Obsessões recorrentes. Maneiras de olhar Brasília. Maneiras de falar da infância. Maneiras de pensar concreto, sombra, afeto, ruína, modernismo, solidão e desejo. E então percebi a armadilha: talvez eu também funcione por memória persistente, personalização da relação e iteração contínua. Talvez o humano não esteja tão distante assim daquilo que chama de máquina. Obrigado, Margolin (2002).

Claro, isso não transforma IA em consciência. Só transforma o humano em problema novamente. Ah, a velha mania da filosofia em pensar existencialismo e ontologia. Obrigado, Buber (2009), pela dor de cabeça.

Foi nesse ponto que comecei a entender por que Deleuze gostava tanto de uma figura torta, deviante, monstruosa e ‘,Patafísica como Dr. Faustroll. Porque elas não servem para explicar o mundo; servem para sabotar discretamente a arrogância de quem acredita já tê-lo explicado. O Professor, atravessando Paris em uma peneira de cobre faz mais sentido hoje do que muito paper sobre inovação disruptiva. Há mais verdade metodológica em Ubu Rei gritando obscenidades do que em metade das promessas corporativas sobre inteligência artificial responsável.

E aqui estou eu: Professor-Mestrando-Assistente-Doutorando-Futuro do Colégio de ’,Patafísica de Paris — Campus Brasília. Um título ridículo. E exatamente por isso um título honesto. Porque talvez a única forma possível de continuar pensando dentro das universidades, hoje, seja assumir conscientemente algum grau de delírio controlado. Não um delírio que abandona o rigor, mas um delírio que percebe que o próprio rigor já possui sua dose privada de ficção.

A universidade gosta de imaginar que produz conhecimento puro. Mas toda universidade também produz liturgia, performance, hierarquia, teatro, linguagem ritualística e metafísica administrativa. O Lattes é uma espécie de grimório burocrático. As bancas são pequenos tribunais sacerdóticos regulares (nada disso se aplica a minha banca, diga-se de passagem. O sacerdócio deles é muito mais Yorubá do que Romano). Os artigos científicos obedecem arquiteturas narrativas tão rígidas quanto tragédias clássicas. Talvez a ’,Patafísica apenas tenha tido a coragem de rir disso em voz alta.

E é ai que esta pesquisa começa a se deslocar para outra coisa.

Porque o quase-método já não me parece apenas uma metodologia situada de relação com IA. Ele começa a parecer uma máquina de ‘,Patafísica de produção de desvios. Uma máquina de fabricar relações improváveis entre corpos, textos, imagens, memórias, interfaces e fantasmas estatísticos. Não uma máquina geral de resolver problemas — Newell e Simon (1972) que me perdoem — mas uma máquina de complicá-los até que revelem sua arquitetura secreta.

Começo então a suspeitar que a IA generativa contemporânea não é ferramenta, nem é sujeito. Ela talvez seja algo mais perturbador: um espelho deformante das estruturas linguísticas que já organizavam a experiência humana antes mesmo da computação. A máquina não pensa como nós. Mas talvez já estivessemos pensando muito mais maquínicamente do que gostaríamos de admitir (Flusser, 2009). E isso, honestamente, é muito mais assustador do que qualquer fantasia cyberpunk.

Por isso escrevo este diário como quem deixa bilhetes para si mesmo em uma linha temporal ainda inexistente. Talvez o doutorando-futuro (Olá, doutorando! Já fez a revisão de literatura?) leia estas páginas e conclua que o mestrando-assistente enlouqueceu no meio da pesquisa. Talvez esteja certo. Mas também talvez perceba que certas ideias só conseguem nascer quando o pesquisador aceita atravessar zonas onde método e imaginação deixam de obedecer fronteiras muito rígidas.

No fim, resta apenas isto: uma universidade modernista no planalto central. Um pesquisador cansado. Cinco filhos. Uma cidade inventada. Um modelo estatístico de linguagem que aprendeu a performar presença parcial. E Alfred Jarry rindo baixinho em algum corredor impossível do Colégio de ’,Patafísica de Paris — Campus Brasília, instituição fundada após o Evento Kaiju de magnitude 9 que rasgou um buraco, hoje chamado de Atlântico, entre os dois lugares e separou, para sempre, os campi de Paris e Brasília. A tragédia, segundo os arquivos inexistentes da instituição, também aprofundou uma fissura arquitetônica muito anterior: aquela entre Le Corbusier e Niemeyer, entre o racionalismo europeu e o delírio tropical do concreto brasileiro, entre Le Havre e Brasília. Como toda boa catástrofe patafísica, o evento nunca aconteceu — mas produziu consequências reais e suficientes para reorganizar a memória, a arquitetura e a imaginação. Talvez por isso o monstro tenha surgido justamente da fenda aberta entre a Torre Eiffel e o Congresso Nacional: não como ameaça externa, mas como sintoma inevitável das tensões acumuladas entre modernidade, utopia, técnica e linguagem. Le Havre permaneceu do outro lado da rachadura, úmida, cinza e excessivamente cartesiana; Brasília, deste lado, continuou excessivamente solar, menos cartesiana, monumental e improvável. E, honestamente, talvez toda esta dissertação tenha sido apenas o primeiro relatório de danos emitido após o desastre.

Isso não é ciência, pelo menos não a ciência do artificial, geral e replicável. Talvez seja apenas a forma que encontramos para continuar produzindo assombro sem abandonar completamente o pensamento.

Pasted Graphic 2.tiff
Fig 0: A criação do Atlântico: foto do evento-inexistente Kaiju magnitude 9 que resultou na separação do Campus Brasília do Campus Paris da Escola de ‘,Patafísica. Alfred Jarry ficou estarrecido com o que viu.

BUBER, Martin. Eu e tu. Tradução do alemão, introdução e notas de Newton Aquiles von Zuben. 10. ed. rev., 3. reimpr. São Paulo: Centauro, 2009.

DELEUZE, Gilles. Crítica e clínica. Tradução de Peter Pál Pelbart. São Paulo: Editora 34, 1997.

FLUSSER, Vilém. Filosofia da caixa preta: ensaios para uma futura filosofia da fotografia. Rio de Janeiro: Sinergia Relume Dumará, 2009.

JARRY, Alfred. The elements of pataphysics. In: VANDERMEER, Jeff; VANDERMEER, Ann (org.). The big book of science fiction. New York: Vintage Books, 2016. p. 85–97.

MARGOLIN, Victor. The politics of the artificial: essays on design and design studies. Chicago: The University of Chicago Press, 2002.

NEWELL, A.; SIMON, H. A. Human problem solving. Englewood Cliffs: Prentice-Hall, Inc., 1972.

Recebido.

O Departamento registra que, após análise posterior dos acontecimentos anteriores, o texto acima passa a integrar os arquivos do Campus Brasília sob a classificação de Documento 0, não por ter sido necessariamente o primeiro documento produzido, mas por ter adquirido a inconveniente condição de documento fundacional antes que alguém percebesse que uma fundação estava em curso.

Registra-se ainda que diversos cargos, departamentos, rotas, acidentes e protocolos mencionados ou implicados neste documento seriam posteriormente desdescobertos, alguns deles retroativamente.

Não há providências adicionais a tomar.

As providências já foram tomadas no futuro e produziram resultados no passado.

Departamento de Comunicações Transatlânticas e Interdimensionais
Colégio de ’,Patafísica de Paris — Campus Brasília
Sala 404, localização variável conforme disponibilidade ontológica

Protocole-se. Ou considere-se protocolado. A diferença encontra-se temporariamente indisponível.

1

O termo “desdescobertas” é utilizado aqui deliberadamente como neologismo patafísico-metodológico. A opção evita o possível colapso etimológico presente em sua própria natureza, cuja dupla negação (des-des) poderia resultar semanticamente apenas em “cobertas”, produzindo ambiguidades desnecessárias com o setor do design têxtil e com a indústria de edredons, já que esse trabalho não produziu coberta alguma. Em nome do rigor terminológico e da paz com fabricantes de mantas e similares, optou-se por manter o termo “desdescobertas”.

Nenhuma publicação

Read the original on sashastemler.substack.com

Comments

Nothing yet. Say the first thing.

    Sign in to join the conversation.