Em 2024 eu resolvi descobrir de que é feito o sorvete de chocolate diet da Bacio di Latte, uma dúvida que surgiu da minha experiência como consumidora e não deveria ser difícil de resolver. Mas levei incríveis oito meses investigando, até conseguir uma resposta. E isso só aconteceu depois que expus a situação na minha então coluna do UOL.
A coluna teve grande repercussão, foi a mais lida do portal e revoltou os consumidores, mas a Bacio não parece ter aprendido nada com isso.
Depois disso, a marca pegou pesado na campanha de lançamento do sabor açaí, prometendo uma receita “autêntica e exclusiva, sem xaropes e ingredientes artificiais”. Quando vi a lista de ingredientes, quase caí da cadeira:
Ingredientes: polpa de açaí, água, açúcar, glucose, dextrose, óleo vegetal, leite, soro de leite, manteiga de cacau, amido pré-gelatinizado, proteína vegetal hidrolisada, maltodextrina, emulsificante e estabilizante, acidulante e aromatizante.
Tudo isso coberto por uma maravilhosa calda de açúcar. Francamente.
Agora a empresa embarcou na tendência da proteína e lançou sua linha de milkshakes, que alega ter zero açúcares e 30 gramas de proteína por copo. Quando solicitei a lista de ingredientes dos produtos, veio a seguinte resposta:
“Por questões de confidencialidade e propriedade industrial, nossas receitas são exclusivas e não podemos revelar a lista detalhada de todos os ingredientes usados na fabricação dos produtos”.
A negativa só não me surpreendeu porque segue o jeito Bacio de ser, sempre tentando esconder o que deveria ter orgulho de fornecer, afinal:
se o produto é “gourmet”, “artesanal” e tem “ingredientes de alta qualidade”, por que tanto mistério? Quem não deve não teme, não é mesmo?
Não ser obrigado a declarar os ingredientes não é o mesmo que estar proibido de informá-los. Falta apenas boa vontade de divulgar. Ou será que, mais uma vez, a Bacio está tentando manter a fama de “artesanal” enquanto usa um monte de aditivos na fórmula, como faz com o sorvete? O maior problema, nesse caso, não é ter aditivos, o problema é tentar esconder.
As tabelas nutricionais estão disponíveis publicamente e você pode conferir a seguir.
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A propaganda destaca os 30 g de proteína por copo, mas esquece de dizer que você leva junto 50 g de carboidratos — e quase 500 calorias.
Sem ler a lista de ingredientes, não sabemos exatamente de onde vem tanto carboidrato, mas, pela quantidade de açúcares totais, a maioria deve ser lactose, o açúcar do leite. Em seu site, a Bacio dá algumas pistas sobre a enigmática composição dos milkshakes, revelando só o que considera conveniente. Diz que os produtos são adoçados com os polióis eritritol e maltitol: o primeiro, sem impacto glicêmico e sem calorias, mas o segundo não é inerte, pelo contrário. Maltitol é um dos polióis com maior impacto glicêmico e calórico. Ele tem efeito laxativo, e, como adoça menos do que o açúcar precisa ser usado em maior quantidade para fazer efeito.
Com a antipática recusa do fabricante em responder às nossas dúvidas, não temos como saber quanto de cada poliol está presente, nem se eles são os únicos edulcorantes das fórmulas. Em se tratando de Bacio di Latte, tudo é muito misterioso. Mas algo está bem claro: cada copo de milkshake tem quase 500 calorias! Um valor maior do que o Frapuccino da Starbucks, que nem tenta ser saudável. Parabéns!
Seja de qual for a marca, milkshake é, antes de tudo, um produto de indulgência que existe para oferecer prazer, não nutrição. Acrescentar whey é apenas uma forma de atrair o consumidor que deseja o doce, e sabe que proteína faz bem. É uma estratégia de marketing que tira vantagem de um atalho mental: o cliente vê “whey”, associa imediatamente a músculos e à saúde, então sente-se autorizado a comprar, mas recebe um copo cheio de calorias — e sabe-se lá mais o quê. Uma incógnita que só a Bacio pode responder (mas não quer).
Não se iluda. Para ganhar massa muscular, também é preciso fazer exercício de força. Se optar por suplementar proteína, escolha um bom whey protein e prepare o seu shake em casa. Mas faça isso de forma consciente. Whey não é um pó mágico que conserta guloseimas. A proteína em pó tenta mascarar aquilo que deveria ser o único objetivo de consumir uma bomba calórica (com ou sem whey): comer por prazer, e não para ganhar músculos.
Uma marca que esconde informações relevantes do consumidor não merece a sua confiança. Você tem o direito de saber o que está comendo.
P.S.: Fiquei feliz com a notificação:
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