O futuro é o único lugar onde todos vamos viver, mas é também o único que ninguém conhece.
Entre previsão e ilusão, entre controlo e acaso, passamos a vida a tentar antecipar o que vem a seguir, como se isso nos desse alguma vantagem.
Mas dá mesmo?
Esquecer o futuro por completo, não consigo. Nem muito do passado que me maltratou. O cérebro humano é uma máquina de antecipação. Está constantemente a projectar cenários, calcular riscos, imaginar consequências, prever perdas e procurar estratégias de continuidade. A Ansiedade, em muitos casos, é isso mesmo: uma imaginação hipertrofiada aplicada ao amanhã.
Já perdi tantos “Hoje’s” a chorar por outros “Ontem’s” e já deixei escapar tantos “Presentes” a suspirar por melhores “Amanhã’s”.
O problema não é termos Futuro dentro da cabeça.
Eu acordo todas as madrugadas, revejo o sleep cycle da noite, classifico sempre com o emoji feliz e atiro-me à efabulação do dia, que numa unidade temporal reduzida, tem a ambição de edificar o que me espera lá à frente.
O problema é quando o futuro deixa de ser horizonte e passa a ser habitação permanente. Quando montamos lá casa, estendemos a roupa da angústia e começamos a viver num corredor de hipóteses que ainda nem sequer nasceram.
Há uma frase do Heidegger que eu gosto: o ser humano é um ser projectado para a frente. Como o livro da menina inclinada que me apaixonou durante meses. Como a minha letra gótica de pontas aguçadas que um dia me disse um amigo grafólogo que era sinal de quem queria viver em direcção ao que ainda não aconteceu.
E isso tanto nos permite construir como nos condena a uma espécie de inquietação crónica. Porque o futuro tem uma característica cruel: nunca chega como o imaginámos. Quando chega, já é presente. E volta a fugir, imediatamente, como um comboio que abranda só o suficiente para nos deixar saltar para outra plataforma de reticências.
Hoje acho que está bem pior. Antigamente o futuro era mais abstracto. Uma ideia vaga. Uma neblina filosófica ao fundo da estrada. Agora é uma avalanche contínua de previsões, notificações, tendências, colapsos climáticos, inteligência artificial, produtividade, longevidade, guerras, crises, sucesso aos 30, fracasso aos 40, juventude aos 50, algoritmos a dizerem-te onde investir, como dormir e quanto tempo vais viver (se estiveres disposto a colaborar).
O futuro deixou de ser uma promessa distante para passar a ser uma ventoinha ligada sobre o cérebro. Nunca desliga. Só muda de velocidade.
E há uma consequência subtil nisto: as pessoas deixaram de viver o presente não porque sejam superficiais, mas porque estão exaustas de gerir versões possíveis da vida.
Há gente a morrer cansada de futuros que nunca chegaram a acontecer.
Byung-Chul Han fala muito disto neste livro, que recomendo: A Sociedade do cansaço. Já não vivemos sob repressão clássica. Vivemos sob excesso de possibilidade. Tudo pode acontecer, tudo pode falhar, tudo pode ser optimizado. E o cérebro humano não foi desenhado para carregar simultaneamente cinquenta futuros em aberto.
Nenhum coração aguenta ser sala de espera de tantos apocalipses.
Eu já dei para esse peditório... e a única moeda que encontrei no fundo do chapéu foi um punhado de dias que nunca cheguei a viver.
Talvez a pergunta, que escrevi para as cartas do jogo do Futuro, não deva ser “como esquecer o futuro?”, mas: Como impedir que ele colonize completamente o presente?
Uma coisa é consultar a meteorologia. Outra é começar a construir arcas todos os dias porque talvez venha dilúvio. E que quero preparar o amanhã sem e viver sequestrada pelo futuro.
Se pensarmos torna-se óbvio para nós, que as experiências humanas mais intensas suspendem temporariamente o futuro:
O amor verdadeiro, o luto, o sexo, a arte, uma conversa profunda, cozinhar lentamente, caminhar, ler um livro até perder a noção da hora, olhar o mar sem produzir pensamento útil. Nessas alturas, o cérebro deixa de operar em modo previsão. Entra em presença. O tempo deixa de ser corredor e transforma-se em água. Já não se atravessa. Habita-se. Dissolve-se no inteiro de nós.
Talvez seja isso que procurei a resposta quando dizemos que queremos “esquecer o futuro”. Não apagar o amanhã. Apenas descansar da tirania de ter sempre de o antecipar.
Porque viver permanentemente inclinado para a frente produz uma espécie de escoliose existencial. A alma fica corcunda de tanto carregar possibilidades.
O futuro chega sempre.
O problema é a quantidade de presente que desperdiçamos à espera dele.
Isabel Saldanha

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