Publicada postumamente por sua esposa, Marie von Clausewitz, em 1832, a obra Da Guerra (Vom Kriege), do general prussiano Carl von Clausewitz, é considerada até hoje um dos textos fundamentais sobre a natureza da guerra e da estratégia militar. Os dois primeiros capítulos do Livro Um, "O que é Guerra?" e "O Propósito e os Meios na Guerra", lançam as bases conceituais de todo o restante da obra. É a partir deles que Clausewitz constrói sua definição mais célebre, a guerra como continuação da política por outros meios.
Este artigo apresenta as ideias centrais desses dois capítulos.
A guerra, em sua forma mais elementar, pode ser entendida como um duelo em grande escala. Clausewitz recusa, já na abertura do capítulo, uma definição pedante e literária de guerra. Prefere ir direto ao essencial e imaginar dois lutadores tentando, pela força física, impor a vontade um ao outro. Dessa imagem simples resulta sua definição central. A força é o meio da guerra. Impor a própria vontade ao inimigo é o seu propósito. Tornar o inimigo incapaz de resistir, desarmá-lo, é o objetivo imediato que viabiliza esse propósito.
Um dos pontos mais importantes do capítulo é a demonstração de que a guerra, pensada em sua forma pura e abstrata, tende sempre ao extremo. Se um dos lados emprega a força sem hesitação, o outro é obrigado a fazer o mesmo, sob pena de ficar em desvantagem. Esse mecanismo de reação recíproca, que Clausewitz chama de interação, se repete em três momentos. Aparece no uso da força, no propósito de desarmar o adversário e no emprego máximo dos meios disponíveis. Em teoria pura, cada um desses três pontos empurraria os contendores a um esforço ilimitado.
Na prática, contudo, a guerra quase nunca alcança esse extremo teórico. Clausewitz aponta razões para essa distância entre o conceito abstrato e a experiência real. A guerra nunca é um ato isolado, já que cada lado conhece o outro através do que ele é e do que faz, não de uma perfeição hipotética, e essa imperfeição mútua modera o conflito. A guerra também não se resolve num único golpe, porque os meios materiais, como tropas, território e aliados, não podem ser mobilizados todos de uma vez, o que faz os combates se sucederem no tempo e permite reavaliações constantes. Mesmo o resultado de uma guerra raramente é totalmente definitivo, pois o Estado derrotado costuma ver a derrota como um mal temporário, o que reduz o ímpeto de levar tudo ao limite.
Diante disso, o cálculo abstrato cede lugar às probabilidades da vida real. A guerra deixa de ser um problema de lógica pura e passa a ser uma questão de avaliação, do caráter do inimigo, de suas instituições, de seus interesses, o que a aproxima, segundo Clausewitz, de um jogo de azar, em que acaso, sorte e coragem desempenham papel decisivo.
Clausewitz também explica por que a atividade militar frequentemente se interrompe, apesar da lógica dos extremos sugerir continuidade. Um dos motivos centrais é o que ele chama de princípio da polaridade. Ataque e defesa não são simétricos, e a defesa, para o autor, é a forma de combate mais forte. Essa assimetria, somada ao conhecimento imperfeito que cada lado tem da situação do outro, explica as pausas, hesitações e longos períodos de inatividade que marcam a história militar.
O capítulo culmina na tese que se tornaria a mais influente de toda a obra. A guerra não é um fenômeno autônomo, mas um instrumento a serviço da política. Clausewitz sintetiza essa ideia numa fórmula que atravessaria os séculos seguintes, "a guerra é meramente a continuação da política por outros meios". Para ele, o propósito político é a meta. A guerra é o meio de alcançá-la, e o meio jamais deve ser pensado isoladamente do seu fim. Quanto mais intensas forem as paixões e os motivos que levam ao conflito, mais a guerra tende a se aproximar de seu conceito absoluto de violência. Quanto mais moderados forem esses motivos, mais evidente se torna seu caráter político.
Encerrando o capítulo, Clausewitz descreve a guerra como um fenômeno complexo e mutável, composto por três tendências permanentes, ainda que variáveis em sua proporção relativa. Essa formulação ficou conhecida como a trindade paradoxal. A primeira tendência é a violência, o ódio e a inimizade primordiais, ligados sobretudo ao povo. A segunda é o jogo do acaso e da probabilidade, no qual atuam a coragem e o talento, ligados ao comandante e ao exército. A terceira é a subordinação à razão, como instrumento da política, ligada ao governo. Uma teoria da guerra que ignore qualquer uma dessas três dimensões, adverte o autor, estará em conflito com a realidade.
O segundo capítulo aprofunda a questão deixada em aberto no primeiro. Se o propósito teórico da guerra é sempre desarmar o inimigo, por que, na prática, ele tantas vezes não é plenamente alcançado, e o que, afinal, constitui o meio pelo qual a guerra se realiza?
Clausewitz distingue três alvos possíveis da ação militar, que juntos abrangem tudo o que se busca destruir ou neutralizar no inimigo. As forças armadas devem ser destruídas, colocadas numa situação em que não possam continuar lutando. O país deve ser ocupado, para que o inimigo não possa reorganizar novas forças. A determinação do inimigo precisa ser quebrada, pois a guerra só termina de fato quando o governo adversário é levado a pedir a paz.
Ainda que essa seja a sequência lógica, destruir as forças, ocupar o território, dobrar a vontade, Clausewitz reconhece que o propósito de desarmar totalmente o inimigo raramente é atingido na íntegra. Muitos tratados de paz são firmados antes que um dos lados esteja de fato impotente.
Segundo Clausewitz, dois fatores substituem, na prática, a incapacidade total de lutar como motivo para a paz. Um é a improbabilidade da vitória, quando um dos lados percebe que suas chances são pequenas. O outro é o custo inaceitável do esforço necessário para vencer, quando o preço a pagar supera o valor do propósito político em jogo. Esse raciocínio leva a uma das formulações mais práticas do autor. O desejo de paz cresce ou diminui, em cada lado, conforme a probabilidade de novos êxitos e o esforço que esses êxitos exigirão. Quando os incentivos para continuar lutando se equilibram, as partes tendem a um meio-termo.
Clausewitz observa que, quando um dos lados não pode buscar a derrota total do adversário, por ser mais fraco, por exemplo, resta-lhe a estratégia de desgastar o inimigo, usando a duração do conflito para provocar, aos poucos, a exaustão física e moral do oponente. O exemplo histórico citado é o da Guerra dos Sete Anos. Frederico, o Grande, jamais teria conseguido derrotar a Áustria em batalhas decisivas. Ao poupar suas forças durante sete anos, evitando o confronto direto, ele acabou convencendo os aliados de que continuar a guerra exigiria um esforço muito maior do que haviam previsto, o que os levou a fazer a paz. Dessa lógica decorre também a valorização da postura defensiva. O propósito puramente defensivo, a autodefesa sem intenção ofensiva, exige menos esforço relativo e aumenta as chances de um resultado favorável, ainda que renuncie à iniciativa.
Além da destruição das forças inimigas e da ocupação do território, Clausewitz lista outras vias possíveis para alcançar o propósito político da guerra. Operações com repercussões políticas diretas podem romper alianças inimigas ou conquistar novos aliados. A invasão com o objetivo de exigir tributo do território ocupado, ou de promover devastação, sem intenção de ocupação permanente, é outro caminho. Operações destinadas a aumentar o sofrimento do inimigo formam uma terceira via. O desgaste, já mencionado, é o mais frequente de todos os métodos, segundo o autor. Por fim, há os chamados argumentos ad hominem. A personalidade e as relações pessoais dos líderes políticos e militares também influenciam o resultado da guerra, e Clausewitz recomenda não subestimar esse fator.
Se os propósitos da guerra podem ser múltiplos, o mesmo não ocorre com os seus meios. Para Clausewitz, só existe um meio na guerra, o combate. Por mais variadas que sejam suas formas, e por mais distante que um combate específico possa estar do choque físico direto, tudo o que ocorre na guerra deriva, em última instância, da possibilidade do combate. Cada fragmento distinto dessa atividade combatente é chamado de engajamento. Empregar as forças armadas significa, portanto, planejar e organizar uma série de engajamentos. Mesmo quando um engajamento específico não busca diretamente destruir as forças inimigas, por exemplo, quando o objetivo é apenas ocupar uma posição, a possibilidade da destruição continua sendo o fundamento que sustenta toda a ação. A destruição da força do inimigo é a base de todas as ações militares.
Clausewitz fecha o capítulo comparando os dois grandes movimentos que orientam qualquer estratégia. A destruição das forças do inimigo tem propósito ofensivo e busca resultados positivos e decisivos, mas exige maior esforço e maior risco. A preservação das próprias forças tem propósito defensivo, frustra as intenções do inimigo e aposta no desgaste do adversário ao longo do tempo.
O autor é enfático ao advertir contra um erro comum. Uma postura defensiva não deve ser confundida com passividade ou com a preferência por uma solução sem derramamento de sangue. Ela é, antes, uma forma de adiar a decisão até que as condições se tornem mais favoráveis. Chegado o momento certo, porém, a destruição das forças inimigas ressurge como o meio mais elevado e eficaz de todos.
Nesses dois capítulos iniciais, Clausewitz constrói o alicerce conceitual sobre o qual repousa toda a sua teoria da guerra. Primeiro, define a guerra como um ato de força a serviço de um propósito político, mostrando por que sua tendência teórica ao extremo é sempre moderada pela realidade. Em seguida, distingue os múltiplos propósitos que a guerra pode perseguir do meio único pelo qual ela sempre se realiza, o combate, ancorado na possibilidade permanente da destruição das forças inimigas. É dessa combinação entre fins variáveis e meio único que nasce a flexibilidade que caracteriza Da Guerra como obra ainda hoje estudada muito além do campo militar.
Referência:
CLAUSEWITZ, Carl von. Da guerra. Tradução do inglês por Luiz Carlos Nascimento e Silva do Valle; versão inglesa de Michael Howard e Peter Paret.

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