Bom dia, leitores! Como estamos? O lançamento da última sexta-feira que é destaque da Ruído Cinza #52 de hoje (10/08) é o mais novo álbum da Papangu, banda paraíbana de música progressiva. Gosto sempre de colocar na capa artistas brasileiros para dar espaço e divulgação à música nacional e a Papangu é um ótimo exemplo de referência no seu nicho. Desde “Holoceno” de 2021, passando pelo conceitual “Lampião Rei” e agora “Celestial”, o grupo se fortalece como um importante nome do rock nacional pela sua originalidade e técnica sonora. Na Ruído #52, também falo sobre álbuns recentes de Ravyn Lenae, FLO e mais algumas recomendações que ouvi recentemente. Até semana que vem e boa leitura!
“Celestial” é mais um atestado da linda crescente dos membros da banda de rock progressivo paraibana Papangu. É o terceiro projeto que eles encarnam e subvertem os clichês do rock e metal progressivo misturado com o jazz e a vanguarda da música nordestina. É uma amalgama de referências fortalecida pela química dos integrantes que dialogam com os instrumentos de forma harmoniosa que, em alguns momentos, nem precisam de letras monumentais. O diferencial de “Celestial” está no toque cristalino dos arranjos, menos experimental e metálico que destacam uma beleza diferente das dissonâncias de “Holoceno”. — ★★★★½
Ravyn Lenae faz o ideal para uma artista após o grande holofote que sua carreira ganhou nos últimos anos. Com o sucesso de “Love Me Not” em 2024, que atingiu a 5° posição da parada da Billboard, a artista, em seu terceiro álbum, decide mudar os rumos do que poderia ser previsível na continuação de “Bird’s Eye”. Porém, a escolha certeira de Ravyn faz com que ela demonstre coragem para aprimorar seu repertório sem diversificar demais sua identidade. “Blue Island” procura referências do r&b e pop dos anos 1980, de Prince a Patrice Rushen, em um trabalho diferente do que se é feito da estética retrô oitentista. — ★★★★
A colaboração entre o célebre guitarrista neozelandês Roy Montgomery e a vocalista britânica Martha Skye Murphy em “Nebular” é uma das mais singulares registros de ambient de 2026. A combinação da guitarra psicodélica de Montgomery com os vocalises angelicais de Murphy tem um ar etéreo que está em falta na música atmosférica. É uma mistura gótica, etérea e esparsa que é reminiscente de Elizabeth Fraser e Cocteau Twins — uma comparação usada a torto e a direito de forma pretensiosa, mas, aqui, a voz de Martha tem seu timbre idêntico à vocalista de “Heaven or Las Vegas”. — ★★★★½
As talentosas meninas da FLO retornam com um segundo álbum confuso e sem um direcionamento conciso em “Therapy at the Club”. O disco tem alguns singles interessantíssimos voltados para a pista de dança, como “Leak It” que grita r&b do começo dos anos 2000 e também “Remedied” e “Touché”. O que realmente é uma falha neste segundo trabalho de estúdio, após o ótimo “Acess All Areas” de 2024, é uma curadoria mais precisa no que caberia para fazer esse outro projeto coeso das artisas. Isso se perde com a horrível interpolação de “Pump Up the Jam” em “Pose”, um electro torto que mais parece uma demo, e as bregas “Sober” e “Therapy at the Club”. — ★★★½
Hana Stretton, cantora e compositora folk dos Estados Unidos que lança seu segundo álbum de estúdio, faz música folk em que as composições não são o principal objeto de expressão. Sua música é carregada de ambiência e interferências de gravações externas da natureza em um tom quase documental. Os registros são os substitutos das palavras, postas ao segundo plano junto até mesmo da voz de Stretton que, em alguns momentos, é uma presença parecida com um pensamento. As palavras são sussurradas de um jeito que quase não há a presença do timbre da artista, o que cria uma sensação de devaneio única para o folk atual. — ★★★★½
Fiquei muito entusiasmado com a notícia de um novo álbum da cantora e compositora norueguesa Susanne Sundfør. No dia antes do anúncio de música nova, após três anos sem um novo lançamento, eu estava escutando seu último álbum “Blómi” de 2023 — um belo trabalho intimista e nostálgico dedicado à seu avô. Em “I It Am”, a artista segue algo inesperado: um álbum com enbasamento religioso inspirado nos escritos de Juliana de Norwich, uma das primeiras autoras mulheres de língua inglesa e no livro “Revelações do Amor Divino. “I It Am” é a tradução em música de um desses escritos, musicados pela própria Susanne. A canção segue o caminho dos trabalhos recentes da artista, prezando principalmente pela composição comparado à instrumentais extravagantes. O single é solitário e não transmite uma ideia clara do que está por vir, mas é uma bela faixa. — ★★★★
“After All” e “On Wires”, dois primeiros singles de “Day and Night”, próximo álbum de Carly Rae Jepsen previsto para ser lançado em setembro, foram a demonstração do que está por vir na primeira metade do disco duplo. Um pop refinado, com destaque para uma instrumentação acústica de guitarras e baterias. Agora, com seu mais novo lançamento, “Don’t Leave Me on the Dancefloor”, Jepsen retorna ao seu lugar familiar: a pista de dança, ambiente presente em seus últimos dez anos de carreira. O que diferencia essa nova faixa de seu grande repertório pop chiclete é a maturidade de suas referências —ABBA, Madonna, Donna Summer, Kylie Minogue — que já estão na manga há tanto tempo que criam uma obra deliciosa e feita sem aparente esforço. — ★★★★½
Na sexta-feira, 07, foi confirmada a morte do produtor inglês William Orbit por meio de sua conta do Instagram. O músico, na verdade, fez sua passagem no dia 23 de julho de 2026. Eu relembro, nessa sessão, dois dos principais álbuns que ele produziu em sua carreira. “13” do Blur é uma das obras-primas do grupo britânico, feito após a dissolução do movimento britpop e que incorporava elementos eletrônicos e experimentais ao universo de Damon Albarn e Graham Coxon. O intermédio de Orbit foi essencial para que Blur se desvinculasse na cena ufanista inglesa e tivesse um olho para a vanguarda. Mas o trabalho mais marcante de um disco que foi mais marcante que “13” durante a notícia da passagem de Orbit, com certeza, é “Ray of Light” de Madonna. Um álbum transcendental em que todas as músicas demonstram uma luminosidade sem igual. A partir de elementos dos anos 1990, Madonna e Orbit iriam trabalhar em canções para além do gênero — trip hop, techno, drum and bass, house — e também para além da música. “Ray of Light” é uma experiência até hoje e até hoje é um monolito na carreira da Rainha do Pop.
Vinicius Corrêa tem 25 anos, é repórter de música, crítico musical e colunista da Agência UVA. Tem gosto eclético e variado, e está sempre disposto a descobrir artistas, bandas e estilos diferentes. Nas horas vagas, gosta de comprar discos e CDs e preparar listas específicas de discos.
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