A narradora escreve movida pelo medo de que a filha pequena desconheça a história de sua vida porque em breve se submeterá a uma terapia de eletrochoques e existe o risco real de esquecer tudo o que viveu. E não viveu pouco.
Apneia, primeiro romance de Esther Faingold (Cosac), tem ótima premissa, que faz engrenar a ação e conduz nossa curiosidade às páginas seguintes. A estrutura singular da obra e o belo projeto gráfico de Flávia Castanheira também compelem à leitura: os capítulos são curtíssimos, as primeiras palavras são grafadas em caixa alta e destacadas na cor laranja, que vibra no livro todo. Um objeto de arte em si. Como se esperaria de um livro da casa, publicado por uma artista visual sofisticada, que foi o último amor de outro artista também editado por Charles Cosac — Tunga, morto em 2016.
Tais refs serão extraliterárias demais?, me pergunto. Toda vez que leio um livro de autoficção surge a dúvida: o que está fora das quatro linhas da página importa, impacta ou impede a leitura? A questão segue em aberto.
Conheci Esther Faingold pelo livro que fez em 2011 com seu parceiro na saudosa Cosac & Naify, Ethers, poemas dela com desenhos dele — um incrível projeto gráfico de Elaine Ramos em tiragem de 300 exemplares, hoje esgotados e caríssimos. Você pode espiar aqui no Issuu. Sob um título que é anagrama do nome da namorada, o artista pernambucano, então imerso em uma febre desenhística, rabiscou muitas orgias imaginárias de corpos que se fundem, se espelham, se espalham e derretem seus contornos. Em Apneia, Faingold assim descreve a paixão do casal:
“Chegou em plena luz meridiana e nos feriu a retina. A isso demos o nome de amor. E o amor — que não é pagão — não aceita em seu altar falsas divindades. Mas, como Caim e Abel, trazíamos o germe da destruição e do esfacelamento das carnes irmãs (…) Enxergávamos as mesmas camadas de luz, compartilhávamos a mesma percepção das cores e víamos o que era invisível a outros olhos. Ora éramos anfíbios ou insetos, ora vegetais ou minerais. Às vezes, o vento. Essa familiaridade nos elevava a uma irmandade cósmica. E assim, entre planetas, satélites e meteoros, a terra se partia em crateras e os impulsos que nos ligavam se tornavam incontroláveis no mesmo ritmo em que a violência crescia entre nós (….) Quanto mais nos misturávamos, mais sufocada eu ia ficando. Ele me dava muito, mas arrancava tudo. Encontrei recentemente alguns vestígios daquilo que escrevi na época e não foi queimado: Um jardim e um oceano se anunciavam. Espectro solar. Ele eclodia em mim. Dissecando o meu olhar, ele queria os meus excrementos. Ofereci-lhe um banquete. A mais fresca carniça de mim. Roeu os ossos. Queria mais.”
Refs extraliterárias demais? O livro tem fotos de Esther e sua filha, apresentação de Veronica Stigger, preparação da poeta Julia de Souza, imagens de obras de Faingold, os versos das capas reproduzem a instalação Rumination, parte da exposição Qualquer Coisa Animal, levada por Faingold à Biblioteca Brasiliana da USP em 2024 — onde apareceram pela primeira vez trechos deste romance, lidos por autores como Eliane Robert Moraes e JP Cuenca, informa a bio. Uma constelação de refs.
Às vezes o crítico ranheta que habita meu hipotálamo sente saudade dos livros de JD Salinger — sempre a mesma capa, nada de foto nem de bio do autor nem de orelha de apresentação, só texto puro.
Mas este é o zeitgeist de 2026: nenhum escritor escreve só, livros são eventos, habitados por várias pessoas fora o autor, incluem diálogos e redes de referências, vivem para além do imaginário do leitor, em perfis, booktrailers, reels, stories, eventos de lançamentos, mesas, feiras, posts de bookstagrammers e leitores performativos. Narcisistas como nosso zeitgeist, livros se querem corpos presentes.
E como adolescentes que não aguentam mais atentar ao que está passando numa tela e baixam logo a vista para o celular, os leitores mal terminamos um parágrafo e já estamos googlando uma ref, perguntando à nossa IA de plantão se aquilo que acabamos de ler aconteceu de verdade verdadeira.
Precisamos da verdade e para tê-la nos cobrimos de ficções.
Todo signo é um hipertexto e nossa mente distraída centrifuga ao primeiro piscar de olhos.
Daí a estratégia de narrar aos fragmentos emular os regulares disparos de dopamina que sentimos durante um doomscrolling - o que será que tem no próximo post, o que será que tem no próximo post, o que será que tem no próximo post? A abordagem da memória via fragmentação é uma estrutura narrativa eficaz, presente em livros tão diversos como Cascas, de Georges Didi-Huberman, quanto Diário da Queda, de Michel Laub.
Assim, fragmentariamente, percorre todo o romance de Faingold um arco reflexivo que é como uma carta dirigida à filha da narradora, então com oito anos. Escrito na segunda pessoa, este arco é responsável pela tensão do enredo, pois se situa no presente da narrativa, quando a narradora está prestes a encarar o procedimento. Este enredo é entrecortado por flashbacks que vão da infância à vida adulta, passam por muitas cidades, conflitos familiares, descobertas na arte e na literatura, lutos, doenças, o encontro com um rico industrial que lhe beija os pés antes de pedir sua mão, a gravidez complicada, a maternidade conciliada com o trabalho como designer industrial, as idas e vindas do casamento.
Neste arco reflexivo, aos poucos vamos descobrindo que ela vai enfrentar a terapia eletroconvulsiva — controversa por sua associação histórica à tortura, embora legal e regulamentada no Brasil e na maior parte do mundo. O método é indicado em casos de depressão refratária, quando o tratamento à base de muita tarja preta falhou (“I’m numb”, ela reclama nos consultórios médicos). O eletrochoque seria a chance de um restart no HD.
Sim, a ECT pode apagar memórias — de forma comprovada e mensurável. É possível ter amnésia anterógrada (dificuldade de reter lembranças depois do eletrochoque) e retrógrada, esta com variantes: eventos próximos à terapia, impessoais ou autobiográficos — e o medo de perder as recordações (e os sentimentos que as acompanham) é o que motiva a narradora a contar sua história à filha.
Memória é identidade, afinal.
“Se você não souber de onde veio, nunca vai saber pra onde vai”, me alertava meu pai, com alguma razão. E a narradora de Apneia tem muitas origens. O pai é judeu, a mãe tem ascendência sírio-libanesa, mas a narradora vive em um contexto cristão. Curiosamente é o sobrenome Faingold que liga os pontos deste enredo fragmentário: asquenaze, significa algo como “ouro fino”. O pai é joalheiro, e dois dos episódios mais perturbadores do enredo se conectam às joias que ela leva durante uma viagem a Israel (não posso contar). Outro trecho me ilumina o método de composição do livro:
“Na fase terminal do meu avô, quando já recebia cuidados paliativos, enfiar contas em um fio era o que me unia à minha avó. Confidenciávamos histórias, ríamos, chorávamos.”
Os fragmentos narrativos são essas pequenas contas — ou pedras preciosas — sendo ligadas pelo fio invisível do enredo, a carta dirigida à filha nos momentos logo antes do início da ECT. A forma fragmentária, uma constante na literatura contemporânea, portanto conecta-se ao conteúdo. E o texto se torna um arquipélago navegado por uma mulher judia demais para ser gói e gói demais para ser judia, ora deslocada, ora em deslocamento, passando por Brasília, Rio Grande do Sul, Tel Aviv, São Paulo, Rio de Janeiro, Nova York, e cujas origens vão dar na Síria e na Bessarábia, hoje Moldávia.
Pelo conteúdo autoficcional, pela forma fragmentária e pelo ângulo da saúde mental desenhado pelo testemunho, coloco este livro na prateleira do pouco lido Hospício é Deus, de Maura Lopes Cançado (Autêntica), mais poderosa autoficção brasileira a investigar o sofrimento psíquico e a se ambientar em clínica psiquiátrica. Este, por sua vez, é outro elo da corrente iniciada por Lima Barreto no soturno O Cemitério dos Vivos (Cosac & Naify) e magnificada pelo extraordinário Armadilha para Lamartine, de Carlos & Carlos Sussekind (Companhia das Letras). De outras literaturas, Apneia conversa com Lá Embaixo, da inglesa Leonora Carrington (100/Cabeças), no relato autobiográfico da artista visual em crise psíquica, e lembra A Pequena Outubrista, da sueca Linda Bostrom Knausgard (Rua do Sabão), também fragmentário ao tratar da disputa entre terapia eletroconvulsiva e apagamento de memórias.
Todavia, ao contrário dos títulos acima, o sofrimento psíquico em si não é o único foco da narrativa de Faingold. Captamos a ansiedade, a melancolia e os traumas sentidos pela narradora ao longo do livro — e muitos traumas vêm de familiares próximos, em cenas cortantes —, contudo a evolução da depressão que pedirá a terapia de eletrochoque só é contada atmosfericamente. A ECT funciona mais como expectativa de uma aventura — sustentada pelo temor da desmemória — do que propriamente como um exame da consciência em frangalhos, própria ao transtorno depressivo maior.
Aquilo que o músico Brad Mehldau descreve, em recente newsletter, como um perene ruído interior.
“A depressão é associada à paralisia, ao bloqueio, à cessação da atividade, e é assim que muitas vezes se apresenta para um observador externo. E embora seja verdade que quem sofre com ela possa chegar a esse estado — até mesmo ao ponto da catatonia — também é verdade que a depressão costuma ser ativa internamente, por mais densa e imóvel que pareça. Ela parece — e é — incessante. O que nunca chega é justo a cessação. Você pode estar congelado, sem reação, mas não consegue parar os pensamentos. Olhamos uma pessoa nesse estado e vemos alguém franzindo a testa ou olhando para o vazio, curvado numa cadeira, sem fazer nada. No entanto as engrenagens da sua cabeça giram mais rápido que nunca. Há uma inteligência sinistra, quase virtuosa, na depressão.” (“Elliott Smith revisited”)
Ou, como escreve Faingold, no começo do livro:
“Com os olhos fixos no teto, faço milhões de conjecturas, imagino o que eu faria — o que faríamos — se tivesse força (…) Não paro de pensar em destruição, queimada, naufrágio, aniquilação. O psiquiatra e o analista discutem meu diagnóstico. Dr. V diz que não tenho depressão, a depressão me tem. Vivo obcecada com meus pensamentos e se saio deles é apenas para reconstruí-los de outra forma. Se vejo o outro, é a mim que vejo. Ouço nos outros a minha própria voz.”
Gostaria de ler mais fragmentos como esse de cima — para ser conduzido justamente ao título do romance: à falta de ar. Porque, ao contrário da temática melancólica, dos muitos lutos e de alguns terríveis atos de violência, a escrita, em suas frases curtas e concisas, não asfixia, é leve, há um humor subterrâneo — apesar de algumas sentenças solenes demais aqui e ali —, e os microcapítulos dão ao enredo mais fluência do que um mergulho na morosidade pantanosa típica da depressão maior.
Também fiquei curioso em relação ao tema da acumulação de bonecas inglesas vitorianas — obsessão demonstrada pela narradora em seus anos de Manhattan, e que inspiram impressionantes obras de Faingold, que nessas bonecas decapitadas e dependuradas convergem sexualidade, maternidade, infância, identidade e morte.
À parte a constelação de refs, um livro também fala muito do que não fala.
Perto do desfecho, em que surge, em letras cor de laranja, um relatório de últimas atividades e impressões pouco antes dos eletrochoques, Faingold conta a despedida do amado parceiro em um quarto de hospital. Cruzando arte, compaixão e morte, é uma cena de brutal erotismo — e aqui sim suspendemos a respiração. Bela estreia.
Há vagas em minhas turmas de escrita de ficções, todas online. O Submarino das terças-feiras navega entre 20h e 23h. O Sub das quartas-feiras flutua entre 15h e 18h. E o Preliminares, laboratório de literatura e erotismo, rola às quintas entre 20h e 23h. A escrita é breve, mas a arte é longa: dou aula há 20 anos, criei 300 propostas de escrita e lancei quase 100 escritores publicados. Interessou? Me escreva no ronaldobressane@gmail.com.
O outro recado é que já saiu a Morel 20. Clique aqui pra saber mais ;)
Gracias pela leitura!
Abraços,
Ronaldo Bressane

Comments
Nothing yet. Say the first thing.
Sign in to join the conversation.