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correio do sul do sul · Dec 3, 2025

Nossos monstros favoritos

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renata · correio do sul do sul

Passei o fim de semana assistindo Slow Horses, série da Apple em que Gary Oldman interpreta um agente do MI5 responsável por uma divisão de espiões que em algum momento e por diversos motivos falharam, mas cujo desligamento seria mais oneroso ainda para a instituição. São os cavalos lerdos do título.

Jackson Lamb, o personagem de Oldman, é uma pessoa francamente horrível: um alcoólatra que dispensa hábitos de higiene e que muitas vezes reage ao que foi dito com os sons e o cheiro de seu intestino flatulento. Um pesadelo de chefe que não perde a oportunidade de rebaixar aqueles que estão sob sua supervisão. Algo, porém, o torna digno de simpatia, do contrário o personagem não funcionaria: talvez seja o fato de que ele é um móvel velho que sobrou da Guerra Fria, como muitos que ainda vemos por aí. Lamb aparenta, ademais, estar sempre três passos adiante de todos em qualquer situação e demonstra lealdade irredutível aos seus colegas espiões. Slough House — esse lugar dos renegados —, portanto, constitui um ambiente laboral horrendo em que as mulheres ou aprendem a cuspir mais longe do que os homens ou então se reduzem a fazer chá e repor o sabonete.

Não muito diferente, portanto, de outros ambientes de trabalho da vida real, principalmente as universidades, também ela ainda mobiliadas com homens que viveram as décadas de 70 e 80 intensamente.

“Vou tomar dois cálices de vinho, que eu mesma vou pagar, e se tu ainda estiveres aí quando eu terminar, tu podes vir pra casa comigo. Mas por favor, cala a boca,” diz Louisa Guy, uma das subordinadas de Lamb, em dado episódio, para um aleatório que tenta puxar conversa com ela num bar.

Quando, me perguntei, ficamos assim? Porque sinto que cheguei aos quarenta e poucos revestida com essa mesma impaciência de Louisa, parecida a um fundo duplo de uma panela de aço inox. A alternativa, suponho, seria me tornar uma Catherine Standish, a mulher sem a qual Jackson Lamb não sabe nem sequer fazer uma xícara de chá, e que portanto está sempre prestes a se queimar. Por mais que pareça insólito, é muito fácil cair nesse papel. De certa forma, muitas de nós fomos criadas assistindo muitas Standishes por aí, que encaram até mesmo com bom humor as idiossincrasias desses monstros que amamos.

A verdade é que estamos cercadas de monstros amáveis, como o Hal Wyler de A diplomata sobre o qual escrevi semanas atrás. Homens maniaticos ou ambiciosos cujos insensibilidade, hábitos ou irritabilidade com certas coisas são considerados traço de personalidade. Coisas que em nós, mulheres, demandaria, um corretivo imediato. Uma mulher, por exemplo, jamais poderia aparecer para trabalhar com os dentes podres, arrotando, e com os cabelos sujos, só para começar. Além disso, a pilha de louças, as compras por fazer, a poeira que se junta no canto da sala no terceiro turno de trabalho não dão muito espaço a quirks, aquilo que fazem de um homem célebre um personagem. Infelizmente muitos escolhem ser o pior tipo de personagem e há quem se preste, inclusive entre mulheres, a formar claques como se fossem groupies dessas figuras, a defendê-los ou agir como seus ventríloquos. Nem Marilena Chauí, esse ano, safou dessa, escrevendo uma carta em defesa de um homem que não deixou de ser quem é, a despeito de terem exposto um de seus hábitos mais sofríveis.

Somado a isso, se alguma de nós ganha a pecha de difícil, principalmente em cargos de chefia, corre o risco de terminar morta, como as duas colegas assassinadas no CEFET na semana passada. Enquanto nós temos de tolerar caladas as inconveniências de conviver com personagens, a menor perda de privilégio por eles é muitas vezes respondida com bronca e, no pior dos casos, violência.

Na verdade, a questão não é apenas nosso direito de existir no mundo sem a ameaça de um dia termos nossa vida abreviada por um misógino, meu maior medo, desde 2018, enquanto alguém que ocupa uma sala de aula. É amplíssima diferença entre quem e o que podemos ser nos espaços de convivência, entre os limites que deixamos de impor aos homens que nos cercam, principalmente de não ser um babaca, e aqueles impostos a nós, muitos para nos protegermos. E muitas mulheres acolhem comportamentos que não teriam qualquer desculpa se partissem de outra, porque estão atravessadas pelos imperativos disso que chamamos patriarcado.

É fim de ano, e aquelas de nós que não estão apavoradas, estão apenas cansadas.

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Este sábado, 6/12, às 17h, na Livraria Baleia, em Porto Alegre, estarei com André Araujo conversando sobre “Inundadas” como parte da programação do Congresso Cósmico em Ecologia das Práticas.

Quem quiser colar, como dizem os jovens, e nos dar um olá e um abraço, apareça. Ficaria imensamente feliz.

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