Rebusco pensamentos soltos no meu diário, fragmentos dos últimos meses neste lugar que conhecemos como Melbourne. Partilho excertos de uma estrangeira num lugar e num tempo estranhos, a tentar fazer sentido de ambos.
21.04.2026
Termino hoje o meu primeiro emprego neste país e, em breve, começo a sério não só um novo contracto, mas uma nova carreira dentro da fisioterapia. Tiro uma tarde de férias, para respirar e celebrar. Mergulho de cabeça e corpo numa tarde de sol outonal, deitada na relva de um jardim. À falta do mar e de um horizonte de água, parece-me ser a relva a melhor opção para o mergulho. Fecho os olhos e ouço as palavras da Sophia, que um dia recortei e nunca mais tirei do peito.
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Quando eu morrer voltarei para buscar Os instantes que não vivi junto do mar.
Procuro As Palavras que tenho arredado dos meus dias. Começar vida num país estranho é trabalhoso. Novas relações, nova casa, nova carreira, novo emprego. Inspiro, mas mal expiro. Tenho as palavras comprimidas pelos pulmões. Quando um dia expirar, devem sair todas aos trambolhões. Se assim for, hei-de pegar nelas e espalhá-las em cima de uma mesa, medir-lhes os cantos e as formas, juntá-las em frases e ler tudo o que estão impacientes para me contar.
05.04.2026
Viver na Fronteira. Não ser daqui, nem dali. Ouço Shahd Wadi, a poeta portuguesa-palestiniana, dizer. E ouço-a acrescentar que nessa fronteira, que melhor era não ser fronteira, é onde ela sempre existirá. Sendo que me são a mim dados dois lugares para entrar e sair a meu bel-prazer, passaportes que só me abrem portas, também eu vivo nessa fronteira que era melhor não ser fronteira, mas apenas terra sem bandeiras deste planeta contínuo.
20.03.2026
Ouço Joseph Stiglitz no avião, a caminho de Adelaide, que não sei como se chamava antes de lhe darem esse nome, aqueles que chegaram a uma terra sem gente, Terra Nullis, disseram, não havia aqui ninguém. Diz Stiglitz que é impossível a existência de Coesão Social quando as sociedades são desiguais. “Coesão social” é uma expressão que tem estado na berra nesta terra que conhecemos como Austrália. Em nome da “coesão social”, não devemos gritar slogans nas ruas, nem devemos discutir ideias em circuitos literários e intelectuais que perturbem o sono de quem tão bem adormecido está. Coesão social tem sido uma expressão usada como arma para silenciar as vozes da solidariedade. Mas essa coesão não é superficial, não está na espuma dos protestos e das contestações, das palavras afiadas com que se diz, com todas as letras, G.E.N.O.C.I.D.I.O e C.O.L.O.N.I.A.L.I.S.M.O.
A coesão social não se impõe, ela existe, ou não existe. Uma sociedade desigual onde a riqueza apodrece a moral de poucos e a pobreza o humanismo de muitos, não a pode ter. Mas as palavras, claro, podem ser esvaziadas do seu significado e passar a representar o seu contrário, à custa de imposição, censura e violência. Coesão social. Paz. Humanitarismo. Verdade. Informação.
17.03.2026
Lembro-me do dia em que A Guerra Começou.
Saíamos de casa para comprar gelados. Foi na base das escadas. Todos ainda a descer, sapatos por calçar. Despachem-se! Eu, sempre a perder a paciência.
O sol morno de fim de tarde derrete em cor laranja nas paredes das casas e eu tenho o telefone na mão, e distraio-me a verificar emails. Talvez esteja à espera de algum importante, num Domingo… ou talvez seja hábito que ainda não perdi, um ano depois de abandonar as redes sociais, a expectativa de haver sempre qualquer coisa viva, a exigir tempo e atenção, naquele ecrã.
A notificação do The Guardian aparece. Israel bombardeia o Irão. Demoro alguns segundos. Leio mais de uma vez. Digo alto, ainda incrédula.
Estamos todos na rua, agora. Fechamos a porta de casa e eu coloco o telefone no bolso.
O sol é morno, lembro-me agora. Não escorre alaranjado pelas paredes porque é cinzento e húmido. Tem hálito de trópicos, e eu até digo parece que estamos na Malásia! Caminhamos com gotas de suor a pingar da testa, como fizemos durante nove anos. Atravessamos o parque e chegamos à loja de gelados. Escolho o sabor limão. A mistura certa de doce e amargo.
Regressamos a casa devagar, a responder com gelo e açúcar ao desafio de humidade. Conversamos. Sobre quê, já não sei. Escola, jogos de vídeo, planos de campismo, trabalho, política, cães. Provavelmente, cães. Está decidido que vamos ser uma família de cães e gatos quando mudarmos para a nova casa, cuja traseira abre para um parque: árvores, relva e o horizonte aberto aos contornos da city.
Abrimos a porta de casa, descalçamos os sapatos e eu volto a pegar no telemóvel. A notícia permanece, como se fosse real. Sentamo-nos no sofá, as mãos peganhentas de gelado. Na Aljazeera, as imagens ainda são parcas, mas a notícia solidifica. Nuvens de fumo que agora sabemos todos o que representam, porque já vimos além delas, penetrámos nas casas e nos escombros, sabemos que não são como um filme de Hollywood, e já não conseguimos que nos tapem a visão.
Pois não?…
Depois de tudo o que vimos em Gaza, nunca mais uma nuvem de fumo é só uma nuvem de fumo.
Pois não?…
Estamos no sofá, as minhas mãos a cheirar a limão açucarado. As imagens repetidas. Muitos comentadores atordoados. No meu telefone, outra notificação. O primeiro-ministro deste país conhecido como Austrália, onde vou viver numa casa virada para um parque, com um cão e um gato e a cidade em pano de fundo, afirma apoio aos EUA e Israel. É o primeiro líder mundial a fazê-lo. Tem de correr sempre, chegar primeiro, correr para ocupar lugar de destaque e assegurar que não se pense que, só por estar tão perto da Ásia, este país deixa de ser Europa. Um dia, talvez se venha a propor nas Nações Unidas corrigir um erro geográfico inglório. Já se sabe que os mapas não são fidedignos, que mal teria colocar este país-continente onde estão os Açores, ou as Canárias, e arredar para mais longe a América latina, por exemplo.
A guerra começou, enfim.
Mas o começo de uma guerra não é, por si só, um evento traumático ou difícil. Nada disso e muito antes pelo contrário. Veja-se o rei louco anunciá-la com um boné na cabeça, como se apanhado a meio de um jogo de basebol. No ecrã, a nuvem de fumo persiste, mas a noite é calma. Menos húmida, agora, mais agradável. Os morcegos abrem asas escuras na noite e dão início à caça diária. Amanhã é dia de trabalho e de escola. Consulto a agenda. Organizo a logística do dia.
Em breve desligamos o ecrã.
E adormecemos em paz.
Escrevi um texto para a revista anual do Clube das Mulheres Escritoras, que vos convido a adquirir aqui. A extraordinária e multitalentosa Mafalda Santos deu-lhe voz e apresentou-o ao vivo na cerimónia de lançamento. Eu, claro, não pude estar, mas a Mafalda deu-me este presente: a gravação do último ensaio, com acompanhamento musical a cargo de Sofia Rodrigues. Partilho o presente que elas me deram com vocês. Ouçam com atenção e sem a pressa dos dias. Quando ela se referir aos “nomes” e parar, pensem que nomes podem ser. A Mafalda interpretou-os ao vivo. Na gravação fica apenas uma pausa que não existe no texto e que foi preenchida ao vivo. Uma pausa que só vive no áudio. É profunda e adequadamente desconcertante.
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“The precondition for thinking politically on a global scale is to see the unity of the unnecessary suffering taking place.”
John Berger - Hold Everything Dear
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