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Revista Repeteco · Jul 15, 2026

Que mal há em se apaixonar?

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Revista Repeteco · Revista Repeteco

Confesso que nem sei porque gosto tanto da Olivia Rodrigo. Na verdade, eu meio que sei, só nunca pensei que gostaria tanto. Nunca fui de ficar fanático por artistas, principalmente os mais pops. Creio que a fabricação musical, advinda do alto polimento sonoro, sempre tenha despertado em mim a forte sensação de estar consumindo um produto pouquíssimo sincero. Foco na palavra “consumo”. Sabemos que todo artista quer se vender de alguma maneira. Afinal, trabalho é trabalho. Mas a sensação é bem diferente quando o que se compra é uma sinceridade palpável ao invés de um extenso planejamento sonoro.

Acontece que a Olivia me desperta uma enorme pulga atrás da orelha que não cessa de coçar. Lá estava eu em janeiro de 2021, navegando pelo Album Of The Year e buscando novas músicas através da enorme escassez de lançamentos de todo início de ano quando me deparo com o single “drivers licence”, suas notas altíssimas e comentários comparando a música com o Melodrama da Lorde. Na época eu tinha 17 anos, então não foi tão difícil me identificar pelo menos um pouco com a letra jovial, os sintetizadores brilhantes e o clipe dolorosamente dramático da canção. Realmente me lembrava um tanto Lorde e eu já amava seu segundo disco, então continuei atento ao nome até então desconhecido (a mim).

Posteriormente, a artista lança “deja vu”, outra música na mesma pegada. Apesar desses dois singles contarem histórias manjadas, tinha algo de tocante em como essas letras eram entoadas e em todos os detalhes descritos. Na época eu não saberia dizer, mas creio que eu achava tudo meio camp, como se estivesse voltando aos filmes adolescentes estadunidenses que eu assistia com 13 anos de idade e que me faziam sonhar em finalmente ser um adolescente e sofrer por beijos passados. Toda essa sensação se estendeu com “good 4 u”, terceiro single de seu primeiro álbum que introduz suas referências de pop punk e de um leve grunge, um diferencial marcante no pop mainstream.

Então, SOUR é lançado. Era mais um álbum ultra expositivo sobre relacionamentos passados que expressava uma raiva e uma incompreensão tão ingênuas que era difícil não se fascinar de alguma maneira. Por vezes, pela tosquice meiga de cada situação. Por outras, por quão divertidas as músicas eram. Apesar de eu achar o excesso de baladas de piano enjoativo e exagerado, letras sinceras como a de “jealousy, jealousy” me tocaram muito fortemente. Essa música entoava uma nova perspectiva, genuinamente ultra jovem, sobre problemas estéticos que perpassam gerações, indo agora para a esfera das redes sociais e da vitrine de comparações impossível de se escapar. Para além disso, o foco instrumental na linha de baixo e aquele momento em que o piano sai de tom me soavam como uma cacofonia saborosa e interessante. Talvez o controle pop que necessariamente ronda a música me foi traduzido como uma expressão de auto-repressão sentimental que encaixa perfeitamente bem com a temática, a engrandecendo fortemente.

Desde então, a Olivia não sai da minha cabeça. Para mim, ela parece um pouco deslocada de todo o ecossistema de estrelas pop. Parece que não existem grandes esforços por parte dela e da “equipe por debaixo dos panos” em mirar e arremessá-la em direção a alguma estética assertiva ou a algum planejamento de fanbase. Se seu segundo álbum GUTS evidencia um esforço maior da artista em fazer seus rock bangers, também mostra que essa pretensão carrega em si fontes estéticas muito variadas e não tão óbvias. Com sonoridades diversas indo do grunge ao new wave, o álbum me conquistou através de sua criatividade de produção. Tantos detalhes nos sintetizadores, nos timbres de guitarra… “bad idea, right?” tem um solo que me lembra os momentos mais lunáticos de Jack White no álbum Icky Thump do White Stripes. Para além disso, a produção parece entender que grande parte da qualidade de suas fontes de inspiração vinha justamente da época em que residem, do lo-fi não proposital e da crueza. Nada parecia super produzido como os álbuns mais recentes do blink-182, por exemplo. Pareciam ser cartas de amor. Cartas de amor à artistas que, inclusive, também me formaram como ser humano.

Mesmo assim, a Olivia não passou a ser vestida como uma Avril Lavigne. Nem passou a se comportar de maneira mais radical, mais rebelde ou mais rock. Por entre comentários políticos pertinentes e problemas de respiração em performances ao vivo, a cantora continuou aparecendo como a menina da Disney que cresceu sendo. Às vezes um pouco reservada, às vezes entusiasmada demais, ela parece humana e transparece uma paixão que jorra nas músicas. Soando, literalmente, como “sinceridade”. Se suas baladas e sua voz têm o gosto de uma Taylor Swift, suas escolhas de timbres, instrumentos e explosões de barulho soam como os clássicos não-tão-óbvios do rock. Seus álbuns, até então, continham espectros tão variados de gosto que pareciam despretensiosos, mais divertidos pela sua leveza e mais tocantes em sua quietude. Isso sequer é possível no mundo das estrelas?

Talvez nós, filhos do alternativo e desejosos do próprio escanteamento social nas salas de aula, sempre fiquemos desconfiados perante nossas experiências artísticas. Descobrir novos mundos musicais e nos aproximar do underground sempre teve um sabor rebelde de fugir de alguma manipulação de massa que não enxergamos mas que com certeza sentimos. Há um dever revolucionário em contrariar o mundo enquanto os números nas plataformas nos contrariam diariamente. E não me entendam mal, questionar é lindo, belo e necessário. Mas será que temos mesmo o discernimento completo e o treino de escoteiro mirim necessário para escapar das arapucas e das armadilhas para ursos?

Talvez esse urso aqui tenha se esbarrado com uma armadilha que engoliu sua pata inteira. De qualquer maneira, esse urso prefere não olhar para sua pata para descobrir.

Em seu terceiro álbum de estúdio, you seem pretty sad for a girl so in love, a proposta é outra: esse disco tem um conceito mais mirado, amarrado e calculado. Acompanhando uma extensa história de amor, o álbum apresenta uma desconstrução das temáticas de término de SOUR e captura a caneta da Olivia movimentando levemente e cada vez mais o espelho em direção à própria artista. E que álbum doloroso, sério. As letras demonstram sentimentos tão específicos e pesarosos que é impossível não se enxergar no sentimento.

O novo elenco de divas pop está bem alimentado: A Sabrina faz músicas pondo em voga a estupidez masculina e a necessária liberdade feminina. A Chappell e, mais recentemente, a Billie, põem em jogo questões de identidade sexual, renovando o significado de canções de amor e abrigando temáticas mais sociais. Mas, desde “obsessed”, a Olivia parece ter criado um foco quase psicanalítico em abrir suas entranhas para o público e refletir fortemente sobre suas próprias complexidades românticas como ser humano. Com letras dilacerantemente realistas sobre os fascínios e os fardos de uma relação, a jovem lançou seu álbum mais brutal até agora.

Todos os gritantes sentimentos expressados aqui, desde a paixão incendiária até o isolamento doentio, são exprimidos através de um filtro doce que ainda despeja eterealidade, beleza e um caos enérgico. Novamente, sinto que essa necessidade popular do projeto o torne ainda mais tocante, mesmo que isso soe contraditório. Aquela repressão de “jealousy, jealousy” está onipresente e ainda mais escancarada, como se tudo sempre estivesse prestes a estourar e explodir. Creio fortemente que, conforme a Olivia cresce e amadurece, esses lapsos de descontrole sejam cada vez mais intencionais. Afinal, ela também disse recentemente, em entrevista com o Fantano, o quanto ama Pinkerton do Weezer, um álbum interessantíssimo justamente sobre uma sinceridade romântica (e sexual) voraz.

Para além disso, a guinada ao rock nesse álbum pode ter uma feição menos exploratória por se aproximar mais dos chorus, reverbs e synths do new wave, mas não deixa de ser menos autoral, emocionante e coesa. A raiva jovial dos dois discos antecessores dá lugar a uma imaturidade advinda do apaixonante e do fantástico que existe em amar ou, pelo menos, em crer que ama, como em “u + me = <3” e em “my way”. Em outras faixas com a mesma fonte de inspiração, como “maggots for brains”, a sonoridade simplesmente é mais contida e sonhadora por conta da temática autorreflexiva e isolada.

Talvez a mais brilhante e chocante seja “the cure”, mesmo. Com poucas letras, a cantora expressa sentimentos mesquinhos e autoflagelantes enquanto percebe o quão pouco saudável está sendo nessa relação. É uma canção completamente particular. Talvez uma das coisas mais interessantes desse álbum seja perceber que, no meio das estrelas e de todas as investigações românticas que os stans fazem, a Olivia teve tato e sensibilidade de falar sobre uma relação amplamente conhecida por todos que a acompanham enquanto exime completamente a culpa exterior e entrega um trabalho que, querendo ou não, induz certa maturidade à jovem audiência que a acompanha. Sem brigas externas, sem shades musicais, o álbum é sobre ela, sobre dores auto infligidas e sobre sua própria percepção de melhora frente a tudo.

Depois de tantos projetos com proposta nostálgica de revival dos anos 80, é refrescante ouvir algum que usa essas influências de maneira tematicamente coesa. Essa sonoridade parece vir diretamente de filmes românticos da época, ou mesmo da sensação apaixonante de estar tão emaranhado a outra pessoa que você se sente fora de época, fora de lugar, fora de tudo que rodeia.

No fim, acho as músicas da Olivia altamente apaixonantes. Sempre achei e ainda acho. Há uma qualidade estética memorável e, mesmo se você ouvir os dois primeiros álbuns e se sentir grotescamente adolescente com isso, esse não é um sentimento potente, digno de cápsulas temporais e viagens no tempo?

Parece que, depois de tantos anos tentando entender essa admiração enorme dos fãs pelas suas divas pop, eu finalmente entendo parte do apelo. Existe um sentimento pulsante em olhar para o céu durante a noite e reparar que uma luz brilhante lá no topo fala com você. Talvez, o mero ato de se identificar com um tema ou outro já seja o bastante para gerar essa paixão. Para além de grandes números nas redes, enormes apresentações musicais e gigantescos tapetes vermelhos, podemos chegar em casa no fim do dia e sentir que somos iguais a algo que se mostra tão distante. Ao engrandecer um ídolo, nos engrandecemos de alguma maneira.

Será que eu realmente caí nessa armadilha? Era para eu, um fã de White Stripes, Nirvana e Green Day durante a infância, amar a Olivia Rodrigo?

A Olivia me faz pensar profundamente no quanto uma super estrela atriz da Disney e residente de Nova York consegue ser humana e, por vezes, genuinamente identificável. Talvez existam sentimentos gerais, altamente relacionáveis por quem compartilha a mesma vivência geracional e o mesmo trajeto árduo de auto descoberta. Sendo apenas um ano mais velha que eu, me identifico com o furor adolescente e ingênuo de muitas de suas letras, desde quando ela tinha 17 anos até hoje. Para mim, parte da magia está em poder voltar ao passado recente e já nostálgico junto da artista, de poder refletir sobre minhas próprias imaturidades sentimentais e até mesmo em poder me conectar com minha irmã, de 17 anos hoje, por conta de uma artista que cruza extremamente bem nossos interesses musicais distintos.

Afinal de contas, que mal há em se apaixonar?

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