Um dos meus grandes dramas da vida é o fato que nunca vou conseguir ouvir e apreciar todas as músicas do mundo. Em contrapartida, isso também me dá esperança como um entusiasta da causa sonora. Há sempre algo novo para ser ouvido. E na era da internet e dos discursos de consumo, é muito difícil não ficar perdido num bombardeio de informações — e no meio de outras demandas, uma função da crítica, no geral, é a de curadoria. O que falar? Como falar? O que não falar? Por que falar ou não falar?
E, fazendo aqui o inception crítica da crítica, desejo escrever uma carta de amor a uma plataforma que há anos vem ajudando muitos músicos na compra direta de mídias físicas e digitais, além incorporar um portal de crítica musical associado: o Bandcamp (e o Bandcamp Daily).
Para aqueles que só conhecem o Bandcamp porque estavam doidos para ouvir aquele álbum que todo mundo comenta mas se depararam com uma plataforma meio começo da década passada que faz você COMPRAR as músicas, eu explico. Ele surgiu em 2008 com o objetivo de trazer compras e vendas oficiais dos artistas de arquivos digitais e, com o tempo, também permitiu a venda de merch e a prensagem de vinil. E em 2016, surgiu o Bandcamp Daily.
Liderado pela escritora JJ Skolnik, os artigos diários trazem luz a discussões contemporâneas de lançamentos e desenham cenas fora do mainstream. Os textos se tornam presentes como um parceiro de apreciação musical que pega na sua mão num enorme museu sonoro. Neste texto, quero relatar alguns passeios com meu irmão mais velho Bandcamp, em uma espécie de diário de leitura do blog que, no fim, virou quase um estudo de caso do meu próprio consumo de música.
Todos os dias, o Bandcamp disponibiliza o Album Of The Day, como oportunidade de falar daquilo que está sendo feito AGORA. E aqui, falo de um álbum curto de 10 faixas e 30 minutos da banda australiana Luluc. Bite-sized na estrutura mas não no conteúdo, poucas vezes me encontro terminando um álbum de um projeto que eu não conheço e imediatamente ouvindo de novo e de novo. O “Sweet” no título do trabalho é extremamente apropriado, o disco é de uma doçura singela tal qual um doce caseiro feito pela vó, melodias aconchegantes e impressionantes. O artigo cita algumas influências como Beach Boys e Nico e eu acho um ótimo jeito de aproximar o leitor das canções do duo, mas adicionaria Sibylle Baier também na mistura. Como uma brisa. Talvez o malvado ladrão em questão seja o tempo curto: tudo que é bom dura pouco.
Curió Curió - Curió Curió (2026)
Então tá!! Okayyy!!! Odeio quando eu começo a ouvir alguma música brasileira por causa de uma indicação gringa. Meio bosta, eu sei. Mas Curió Curió é um caso à parte: mesmo que a vocalista Luiza Monteiro tenha nascido no Brasil, a banda foi fundada na Áustria com o musicista alemão Dustin Braun (que salada cultural!). O primeiro álbum deles foi destaque do Bandcamp Daily e, ao ouvir, achei um groove otimista com uma mistura suave e harmoniosa do samba e MPB com as cenas de música europeia. Talvez um álbum que não corre muitos riscos, seguro de si e com muita qualidade - muitas vezes um sintoma por ser a estreia da banda, o pé ainda está sentindo a temperatura das águas. Destaque oficial para a faixa de abertura do disco: um deleite do uso do silêncio na faixa, nos deixando apreciar cada elemento musical.
Bee Thousand - Guided By Voices
Outro modelo de texto do blog são as retrospectivas, seja de um artista, uma cena específica ou um conjunto de diferentes músicos com um tema em comum. Às vezes você pode não entender muito bem o que estão falando sobre, but it’s a vibe!!!!!
E começo esse parágrafo com uma confissão a todos: não estou acostumado a ouvir lo-fi. Esses dias (Deus sabe quando), me deparei com o Guided By Voices mas não dei a devida atenção. Lendo hoje no ônibus essa linda introdução do Bandcamp à banda (e um pouco ao gênero) posso trazer umas impressões imediatas que tive em relação ao álbum “Bee Thousand” de 1994. Lembra quando ontem eu falei que Luluc era bite size? Aqui a porção se tornou ainda menor! Estamos num território de grãos musicais!
Com pouco mais de 30 minutos e 20 músicas, a experiência que tive foi quase de um sarau de poemas. As músicas não anunciam a chegada e muito menos a partida, elas acontecem e o que grudar grudou. Simultaneamente frenético em densidade mas lento na velocidade, não vou dizer que no meio de um Ligeirão Norte/Sul indo para o meu estágio fiquei prestando atenção em cada letra, mas as poucas que consegui me trouxeram a esse lugar de poesia numa estrutura de música popular.
Momento roubando no meu próprio jogo: eu já conhecia a Emahoy Tsege-Mariam Gebru, mas esses dias vi um cara vestindo uma camiseta dela e isso me fez lembrar e reaveriguar suas músicas. Eu sabia que ela era uma freira e tocava piano. Lendo o artigo, percebi que caí na mesma armadilha que o texto critica: me encantei pela mitologia dela e deixei sua música de fora. Mas não é todo dia que a gente se depara com uma musicista clássica que é uma freira prisio
neira de guerra que vendeu CDs para arrecadar dinheiro para sua igreja destruída pela Guerra dos Seis Dias.
Apesar de uma história intensa, sua música é de uma qualidade magistral. Outra confissão que posso trazer a vocês é que música instrumental eu normalmente ouço enquanto leio. Não sei se mais alguém se incomoda de transformar a música na trilha sonora da sua vida, mas eu tenho feito o esforço de apreciar e prestar atenção desde que levei uma bronca da grande artista Ana Bellenzier numa aula de arte sonora. A partir daquele dia, mesmo em ambientes do cotidiano, como no ônibus, tento fazer o esforço de escutar ativamente a música. E ouvir os pianos e a voz crua de Emahoy é de um prestígio sem igual. O álbum, que nas plataformas está disponível como um auto intitulado, é um dos mais lindos instrumentais que escutei na vida. Talvez não seja uma ouvida casual a todos, mas tire um pouco do seu tempo para ouvir o que essa artista tão intrigante tem a nos tocar.
Essa é meio que minha maior recomendação. 40% Foda/Maneiríssimo foi um selo de música eletrônica carioca, e eu simplesmente sou apaixonado por tudo deles. Desde a estética mais seca de todos os lançamentos de EPs e singles - que vira e mexe eles repõem as mídias físicas e você pode ajudar o projeto pagando pelos CDs ou doando a quantia que sentir no coração pela plataforma do Bandcamp - até a sonoridade super interdisciplinar.
Dando um espaço para um trabalho que mistura jazz, house, dub e electro, o selo abriu caminho para muitos artistas da cena se desenvolverem e experimentarem sonoramente. O projeto se iniciou em 2013 e finalizou seus trabalhos com, no centésimo lançamento, em 2026. Caso você se sinta perdido dentro do que ouvir num catálogo tão grande, o álbum de número 100 é uma coletânea de greatest hits da gravadora - e foi o que eu ouvi hoje.
O blog-tema não chegou a ter um texto dedicado somente a eles e seu magnífico trabalho (AINDA), mas um dos EPs esteve em destaque numa análise de cena interessantíssima que a crítica April Clare Welsh fez traçando paralelos e interinfluências entre nosso baile funk e o UK garage. Obviamente, ler um gringo falando de um gênero brasileiro não é aquela coisa — como já dito anteriormente —, mas sempre acho válido um olhar externo para mostrar coisas que estavam tão na nossa cara que, por estarmos habituados, são um pouco difíceis de perceber.
Ando meio avesso à ideia de ouvir música nova. Esses últimos dias, comecei alguns álbuns salvos que foram indicações da mais adorada Bandcampzinha, mas nenhum vingou ao ponto de eu vir aqui todo entusiasmado. Caso alguém esteja super animado para me vingar vai aqui a lista de álbuns (que foram bons, eu que não estou paciente):
Dito isso, fui ler sobre um assunto que eu gosto com o intuito de melhorar meu humor. Vamos ver o que a Bandcamp tem a dizer sobre Napoli Funk.
Lendo o artigo, fiquei muito feliz em poder expandir meu conhecimento de um gênero que, mesmo nichado, já me era familiar. O texto apresenta uma linha do tempo, dando holofote para selos e gravadoras responsáveis pela distribuição e arquivamento de sons dessa cena de Nápoles que por muito tempo corria de maneira mais independente (“independente”, nesse sentido, não serve como a palavra que a gente usa para um artista indie ou aquele que não tem uma grande gravadora, aqui é INDEPENDENTE ao nível de vender os próprios discos no mercado de pulgas).
Conhecia artistas como Nu Genea e as coletâneas do Napoli Segreta, mas entender esses trabalhos num contexto geral de cena fez com que eu entendesse melhor elementos sônicos que antes passavam despercebidos. E além disso, conheci outros artistas como os maravilhosos Mystic Jungle que continuam com seus lançamentos até hoje. Viu? Me manter na minha zona de conforto HOJE foi produtivo, ao invés de conhecer uma sonoridade nova consegui ampliar meus conhecimentos.
Depois dessa porção de recomendações, me despeço desse pequeno diário de leituras, aprendizados e escutas do que o Bandcamp tem a oferecer. Uma crítica da crítica, uma carta de amor para várias cartas de amor que li. Existe uma beleza nesse interesse genuíno em desbravar cada cena underground por aí. Obviamente é um trabalho de Sísifo, mas se nós (incluindo a gente da Repeteco no balaio com o Bandcamp) não fizermos, quem vai fazer? Se nós não falarmos do que amamos, quem vai fazer?
E, obviamente, esse texto terá uma parte 2, já que tem tantos textos legais no blog… e eu fico me coçando para não falar para todo mundo. E imploro para vocês: leiam o Bandcamp e aproveitem quando tem Bandcamp Friday, quando toda compra que você fizer vai 100% para o artista de maneira direta sem taxa da plataforma.

Disponível para iOS e Android

Comments
Nothing yet. Say the first thing.
Sign in to join the conversation.