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Revista Repeteco · Jun 21, 2026

If Pigeons Turned to Gold

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Revista Repeteco, Sabrina Dauer · Revista Repeteco

Parte da competitiva internacional, o longa If Pigeons Turned to Gold de Pepa Lubojacki, é uma obra profundamente sensível que aborda temas como o alcoolismo, a adicção e o trauma geracional. Durante as mais de 200 horas de material gravado e compactado em pouco menos de duas horas de filme, a diretora acompanha a vida de seu irmão e primos que enfrentam, além do vício, a vulnerabilidade de serem indivíduos “sem teto” e, sobretudo, busca compreender as origens dessa condição comum entre eles: o uso de substâncias.

O filme combina imagens registradas pela própria diretora com fotografias da família animadas com inteligência artificial. Sim, o uso de inteligência artificial pode ser um fator determinante para que alguns deixem de ver a obra e, embora ideia não tenha me agradado a princípio, consegui compreender a intenção de Pepa em sua escolha. A intenção é ser desconfortável (e cumpre com esse objetivo). Essa linguagem híbrida cria uma narrativa pessoal, do qual nós, que estamos assistindo, somos convidados a conhecer um passado que nunca deixou de ressoar; as fotos da infância e de familiares modificados, além de causarem estranhamento pelo modo que são apresentadas, narram a história de uma família marcada pela violência e adicção.

Dessa forma, as imagens gravadas das quais a diretora acompanha o cotidiano do irmão entre recuperação e recaídas, assim como busca encontrar os primos que também habitam nas ruas, mostra uma história que a própria afirma ter desejado esconder durante parte da vida. Mas não apenas o outro é referenciado neste documentário, existe nessa interlocutora o monólogo consigo mesma, com sua própria jornada de recuperação e a culpa de ser a única que alcançou a sobriedade.

Essa fragilidade é explicitada com cenas em que a diretora está flutuando na água, numa imensidão azul que parece não ter um fim, uma metáfora sutil da codependência. Outro ponto importante na narrativa é o espelhamento, a maneira como traumas reverberam em diferentes instâncias de nossa vida. E nesse relato pessoal, encontramos também a culpa; não apenas da autora para com sua recuperação, mas também como sujeito que não foi capaz de salvar. Ao não conseguir “salvar” o pai, o desejo torna não permitir que o irmão tenha o mesmo destino.

É uma experiência marcante e sensível acompanhar de maneira tão próxima o cotidiano desses indivíduos em situação de vulnerabilidade e, principalmente a natureza crua das cenas gravadas: uma câmera, a periferia da Tchéquia e familiares que não estão sóbrios. Em certo momento, Pepa questiona até que ponto é ético estar gravando dadas situações, tendo em vista o quanto alguém que não consegue responder por si é capaz de permitir os direitos de sua imagem. Essa mesma câmera transita por outros lugares da cidade, pelos pombos que habitam a rua e por ambientes comuns a diretora: a casa que vive e os quadros encontrados na rua pelo irmão que enfeitam as paredes.

O documentário questiona o quanto é possível lutar para salvar alguém que sofre com o vício quando o desejo de ser salvo não é correspondido e mostra que, muitas vezes, o acolhimento é uma maneira de lidar com o sentimento de impotência.

Disponível para iOS e Android

Read the original on revistarepeteco.substack.com

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