— Aeeeee! Boas-vindas ao inferno!
Essa poderia facilmente ser a minha assinatura de boas-vindas a qualquer um de vocês que teve a coragem de inserir seu e-mail para assinar Retrógrada. Entretanto — acreditem se quiser —, foi isso que eu ouvi de uma colega de trabalho quando ela terminou de criar um perfil para mim no Bumble1, após baixar o app quando tomou meu celular da minha mão (com o meu consentimento risonho, é claro) numa pausa para o cafezinho.
Em todos os vinte e quatro anos da minha existência neste planeta, eu nunca tinha entrado num aplicativo de relacionamento. Mal sabia como funcionava por dentro, além da famosa mecânica de arrastar para a esquerda para rejeitar alguém e arrastar para a direita para curtir alguém, como se eu estivesse avaliando quais pratos quero ou não num cardápio de comida rápida.
Durante séculos, a sociedade teve regras bastante específicas sobre o que uma mulher deveria fazer depois de perder um marido. Na Inglaterra Vitoriana2, por exemplo, existia todo um protocolo de luto. Viúvas eram incentivadas a vestir preto durante meses — às vezes anos. Havia etiquetas sociais, períodos de recolhimento e expectativas bastante claras sobre quando seria considerado aceitável voltar a frequentar eventos sociais ou demonstrar interesse romântico por outra pessoa.
Em outras palavras: existia um cronograma oficial para a superação. E, embora eu tenha plena consciência de que não estamos mais no século XIX, de alguma forma eu parecia estar vivendo como se estivéssemos.
Faziam alguns meses desde o fim do meu último relacionamento, e eu estava convencida de que ainda não era a hora.
Não era a hora de conhecer alguém. Não era a hora de baixar aplicativos. Não era a hora de flertar. Não era a hora de beijar ninguém. Não era a hora de seguir em frente. Não porque eu ainda estava apaixonada pelo bunda mole querido do meu ex — no período do término ele fez questão de me infernizar o suficiente para me fazer desapaixonar de vez, pegar ranço e querer o máximo de distância possível dele —, mas porque eu sentia que poderia ser julgada por isso.
Qual é exatamente o prazo regulamentar para uma mulher solteira voltar a existir depois de um término? Eu não saberia dizer. Mas aparentemente algum departamento imaginário dentro da minha cabeça tinha decidido que eu ainda não havia cumprido os requisitos mínimos.
O curioso é que essa lealdade póstuma não estava sendo exigida por ninguém além de mim mesma. Meu ex certamente não estava preocupado com isso. Aliás, considerando que eu o descobri conversando com outra mulher pelas minhas costas enquanto ainda namorávamos, é possível que ele sequer soubesse da existência desse regulamento. Mas lá estava eu, agindo como uma viúva vitoriana de Osasco, como se baixar um aplicativo de relacionamento fosse um ato de profundo desrespeito à memória de um relacionamento fracassado que já tinha terminado há meio ano.
Mas que tremenda prostituta você, hein, Venus?! Oh, céus!
— Você já devia ter baixado esse aplicativo no dia seguinte ao término, mesmo — disse a colega, que aqui chamaremos de Bianca para preservar sua identidade real.
A reação da mesa inteira foi imediata. Não houve sequer um segundo de hesitação.
As outras mulheres presentes concordaram tão rápido que, por um momento, achei que estivéssemos diante de uma daquelas raríssimas situações capazes de unir completamente um grupo de pessoas. Tipo odiar reunião que poderia ter sido um e-mail. Ou concordar que o preço do café está criminoso nessa porcaria de cidade cara dos infernos. Metade daquela turma se odeia e um vive falando mal do outro pelas costas sempre que pode, mas nada foi capaz de reunir uma tribo com tanta força quanto a indignação pelo meu período de viúva vitoriana de quinta categoria. Quase dei a luz a um novo movimento sufragista bem no coração de Pinheiros.
— Venus, pelo amor de Deus.
— Meio ano?
— Você tá brincando.
— Seis meses?! Quem é você? Virgem Maria, por acaso?
Recebi um verdadeiro sermão corporativo durante o horário comercial.
Fui informada de que homens não costumam demonstrar esse tipo de consideração nem quando ainda estão dentro do relacionamento, e não fui capaz de discordar de tal fato. Fui lembrada de que eu tinha vinte e quatro anos, não oitenta e quatro. Fui comunicada de que a polícia da moralidade feminina provavelmente estava ocupada demais fiscalizando a vida de outra pessoa pra perder tempo investigando a minha.
E, pior de tudo, elas estavam certas. Porque a verdade é que minha vida estava objetivamente melhor naquele momento. Muito melhor.
Eu estava fazendo terapia. Estava escrevendo mais. Tinha entrado para um clube do livro. Estava voltando a sair de casa. Voltando a encontrar amigos. Voltando a comprar roupas que eu gostava. Voltando a me reconhecer no espelho. Pela primeira vez em muito tempo, minha vida não girava em torno da administração emocional de um homem que transformava os próprios problemas em responsabilidade coletiva.
Eu estava aprendendo uma coisa que, em retrospecto, parece ridiculamente óbvia: gostar de mim mesma era significativamente mais divertido. E embora eu não estivesse nem um pouco interessada em me apaixonar de novo, comecei a sentir falta de algumas coisas.
Não de namoro, nem de compromisso, muito menos de dividir a porcaria da senha da Netflix. Mas de coisas muito mais simples.
Ver gente bonita. Flertar. Beijar na boca. Sentir o calor e a fricção de alguém diferente. Ter histórias engraçadas para contar para as minhas amigas.
Foi exatamente nesse momento que cometi o erro que mudaria minha vida para sempre. Ou, pelo menos, renderia material suficiente para sustentar esta coluna que vocês estão lendo agora por um boooom tempo.
Foi assim que começou a saga que me trouxe até aqui.
— Você precisa limpar seu paladar — decretou uma outra colega, que chamaremos de Maiara.
Maiara é casada. Felizmente casada, diga-se de passagem. Daquelas pessoas irritantes que encontraram alguém que realmente amam e que, pra piorar a situação, também as amam de volta. Ambos têm um filho juntos, e o guri é coisa mais lindinha do mundo. Toda vez que ela nos mostra vídeos do menino na escolinha, os olhos dela brilham de tanto amor. Sua história é um verdadeiro fenômeno estatístico.
Mas antes de se tornar uma mulher casada e mãe babona, Maiara também já foi solteira. Também teve seus encontros, seus erros de julgamento, suas decisões questionáveis e, ao que tudo indica, sua própria coleção de histórias que jamais serão contadas nesta newsletter porque eu tenho amor à minha estabilidade empregatícia, e respeito pela privacidade alheia.
— Você precisa conhecer gente nova, menina. Ver o que tem por aí.
Olhei para a tela do celular. Pela primeira vez, o aplicativo estava aberto diante de mim. E, de repente, entendi a escolha curiosa da palavra “paladar”.
Porque aquilo realmente parecia um cardápio.
Centenas de rostos. Centenas de biografias. Centenas de pessoas resumidas em algumas fotografias cuidadosamente selecionadas e uma ou duas frases tentando convencer desconhecidos de que valiam uma chance.
Era uma experiência estranha, na minha visão. Levemente distópica, e talvez um pouco humilhante.
Arrastar para a esquerda.
Arrastar para a direita.
Rejeitar.
Não… Pera! Volta!
Ugh, não. Você é calvo.
Próximo.
Hmmm. Você é alto.
Aprovar.
Próximo. Próximo. Próximo.
Por um breve momento, me ocorreu que, se aquelas pessoas eram opções para mim, então eu também era uma opção para elas. Era isso que eu era agora?
Um item num catálogo. Um rosto numa vitrine. Um pedaço de carne esperando que alguém decidisse se eu valia ou não um deslizar de dedo.
Mas então pensei melhor.
Quer saber? Foda-se.
Eu não estava procurando minha alma gêmea, tampouco estava procurando pelo meu futuro marido ou pela minha futura esposa. Eu não estava tentando encontrar o amor da minha vida numa terça-feira à tarde durante o cafezinho no expediente. Eu só queria conhecer gente nova, ver gente bonita, beijar na boca, me divertir um pouco. Era exatamente isso que as outras pessoas estavam fazendo ali, também. Percebi que, pra quem se dizia ser tão progressiva e pra frente, eu bem que estava pensando muito como uma velha bolsonarista e moralista de quinta categoria. Não tem nada demais em procurar se divertir se todas as partes estão seguras e consentindo com a diversão.
E olhando em retrospecto, talvez essa tenha sido uma das melhores decisões que tomei naquela época.
Não porque eu tenha encontrado o amor — porque definitivamente não o encontrei e não estou desesperada para sair na busca dele — mas porque, pela primeira vez em muito tempo, parei de enxergar o fim do meu último relacionamento como o encerramento de uma história e comecei a enxergá-lo como o começo de outra.
Uma muito mais divertida, inclusive. Uma em que, pela primeira vez em toda a minha vida, me coloca como a protagonista.
Foi assim que comecei a colecionar histórias. E, aparentemente, material suficiente para sustentar esta coluna por tempo indeterminado.
🎵 Música da Vez:
Toda pesquisa precisa de uma trilha sonora.
A cada edição de Cartografia do Desafeto, uma nova música será adicionada à playlist oficial da investigação.
Quando (ou se) esta pesquisa terminar, teremos duas coisas: evidências suficientes para provar minha tese e uma playlist excelente.
🎵 Confira a playlist aqui:
Bem, talvez este seja um bom momento para explicar o nome desta coluna.
Cartografia do Desafeto nasceu de uma hipótese bastante simples: não existe amor em São Paulo. Ou, pelo menos, foi essa a conclusão preliminar à qual cheguei depois de algum tempo observando atentamente a fauna local.
Antes que alguém me acuse de cinismo excessivo, porém, preciso fazer uma confissão: eu não sou o tipo de pessoa que deveria chegar a esse tipo de conclusão. Muito pelo contrário.
Meu nome artístico é Venus (eu já expliquei aqui em Retrógrada, na seção “Sobre”, que não é por conta da porcaria do planeta e sim por conta da deusa romana do amor). Eu escrevo romances. Escrevo poemas. Passei boa parte da vida acreditando em amor, em conexão, em teorias estúpidas tipo a do Akai Ito3, em almas de vidas passadas que se reencontram e em todas as outras coisas constrangedoras e piegas que normalmente tentamos esconder depois dos vinte e poucos anos.
Se existe alguém que deveria estar defendendo a existência do amor romântico em praça pública, esse alguém sou eu. E talvez seja justamente por isso que a situação seja tão preocupante. Porque quanto mais velha eu fico, mais difícil parece ser sustentar algumas ilusões.
Depois de ser traída mais de uma vez, depois de ouvir as histórias das minhas amigas e depois de voltar ao mercado de relacionamentos e descobrir que ele funciona mais ou menos como uma mistura entre processo seletivo, reality show e experimento social não regulamentado, comecei a suspeitar de uma coisa: talvez o amor romântico saudável seja muito mais raro do que gostamos de admitir.
Veja bem, querido leitor, não estou dizendo que ele não existe. Só estou dizendo que encontrar um relacionamento saudável, às vezes, parece uma tarefa com taxa de drop4 inferior à de um item lendário em MMORPG5.
Enquanto isso, o que encontro pelo caminho são histórias. Muitas histórias.
Histórias de homens bonitos e gostosos o suficiente pra fazerem você repensar seus próprios limites, mas que desaparecem da face da Terra no instante em que descobrem que você não pretende transar com eles no primeiro encontro.
Histórias de mulheres que passam o fim de semana inteiro na sua cama, te fazem acreditar que talvez exista algo especial acontecendo e depois aparecem namorando outra pessoa como se você tivesse participado involuntariamente de um programa de estágio emocional.
Histórias de sujeitos que chamam mulheres para um “date em casa” como se estivessem pedindo um delivery de boceta.
Histórias de amigas que se apaixonam perdidamente para descobrir, meses depois, que o grande amor da vida delas já tinha esposa, filhos e uma vida paralela inteira funcionando em outro CEP.
Histórias sáficas que seriam material digno de romance se não envolvessem uma mulher morando na puta que pariu, respondendo suas mensagens a cada quarenta e oito horas e aparentemente mantendo uma agenda social mais movimentada que a programação oficial do Carnaval de Salvador.
Histórias de homens que querem uma namorada, desde que ela não exija atenção e esforço nenhum da parte deles.
De mulheres que querem intensidade, desde que ela não gere compromisso.
De pessoas procurando conexão enquanto fazem absolutamente tudo ao alcance delas para evitar qualquer possibilidade de intimidade real.
E o mais assustador de tudo é que nenhuma dessas histórias é particularmente rara. São tão comuns que, em algum momento, parei de encará-las como acidentes isolados e comecei a enxergá-las como sintomas.
Foi aí que nasceu a hipótese que dá nome a esta coluna, e que dá nome a esta primeiríssima edição.
Uma tese ousada? Talvez. Prematura? Possivelmente. Baseada em evidências cientificamente questionáveis e numa quantidade preocupante de traumas acumulados ao longo dos anos? Com certeza. Mas toda grande pesquisa precisa começar de algum lugar. Sendo assim, decidi transformar minhas desventuras amorosas em objeto de estudo. E é exatamente para isso que esta coluna existe.
Em Cartografia do Desamor, vou utilizar esse espaço para documentar os fenômenos observados durante minha investigação de campo.
Algumas dessas histórias aconteceram comigo. Outras aconteceram com amigas. Outras aconteceram com pessoas que, por algum motivo que ainda não compreendo completamente, confiam em mim o suficiente para me enviar relatos absolutamente absurdos sobre suas vidas amorosas. Todas elas serão registradas.
Por motivos jurídicos, éticos e, principalmente, porque eu não tenho dinheiro para contratar advogada, os nomes de todas as pessoas envolvidas serão alterados.
Qualquer semelhança com pessoas reais será mera coincidência. Exceto quando não for. Mas mesmo nesses casos eu vou negar até a morte.
O importante é que as identidades serão preservadas.
As histórias, não. As histórias serão contadas. Todas elas. Inclusive porque, se eu precisei ouvir sobre o homem que manteve uma esposa oficial, duas amantes e uma rotina de crossfit simultaneamente, considero apenas justo que vocês também precisem.
A ciência exige sacrifícios, e eu estou disposta a fazê-los.
Nos vemos na próxima história?
Hipótese atual: Não existe amor em São Paulo.
Evidências coletadas: Muitas.
Evidências contrárias: Insuficientes.
Nível de confiança da pesquisadora: Moderado.
Risco de viés emocional: Elevadíssimo.
Quando alguém desaparece sem explicação, o que realmente está sendo evitado: a rejeição, o conflito ou simplesmente a responsabilidade de agir como um adulto? Em outras palavras, quem tem medo do ghosting?
✧ Cartografia do Desafeto ✧
·
Jun 25
Disclaimer: se você está lendo esta edição pela sua caixa de entrada, sugiro que abra o post no navegador ou no app do Substack. O post tá bem longo e ultrapassou o limite do gmail (eu falo pra caralho, desculpa. Mas esse post tá muito bom e prometo que vai te render um bom entretenimento e altas risadas).
Aplicativo de relacionamento semelhante ao Tinder. Sua principal proposta original era permitir que mulheres dessem o primeiro passo nas conversas heterossexuais. Na prática, descobri que isso não impede homens de continuarem sendo esquisitos pra caralho.
Período da história britânica que corresponde ao reinado da Rainha Vitória, entre 1837 e 1901. Marcada pela expansão do Império Britânico e pela Revolução Industrial, a época é famosa pelo forte contraste entre a prosperidade econômica e os rígidos costumes morais e sociais.
Lenda japonesa que diz que pessoas destinadas a ficarem juntas são conectadas por um fio vermelho invisível amarrado aos seus dedos mindinhos. É uma teoria extremamente romântica e, portanto, exatamente o tipo de coisa que eu adoro acreditar quando não estou ocupada reclamando da humanidade.
Termo utilizado em videogames para indicar a probabilidade de um determinado item aparecer após derrotar um inimigo ou concluir uma atividade. Em outras palavras: a chance de encontrar amor saudável na atual conjuntura.
Sigla para Massively Multiplayer Online Role-Playing Game. Jogos online com milhares de jogadores simultaneamente, conhecidos por exigirem quantidades obscenas de tempo, dedicação e sofrimento emocional. Curiosamente, uma descrição que também serve para aplicativos de relacionamento.

Comments
Nothing yet. Say the first thing.
Sign in to join the conversation.