Enquanto subia a escada,
vi um homem que lá não estava.
Também não estava lá agora —
como queria que ele fosse embora.
— Hughes Mearns
Às vezes, ela tinha a impressão de não estar lá. De não enxergar as coisas como as outras pessoas enxergam, de não sentir os mesmos sabores, perceber as mesmas cores ou ouvir, nas músicas, as mesmas melodias. Sentia-se pairando no ar, como se observasse tudo de outra dimensão.
Carregava essa sensação desde sempre. E, durante muito tempo, culpou-se por sentir-se assim. Lembrava-se de que, numa das viagens que fez com amigos, ouviu Mr. Jones sair trôpego do violão no camping e de como, ainda assim, conseguia arrebatar todos os habitantes das barracas vizinhas em um espírito de jovialidade e carpe diem ao qual ela simplesmente nunca conseguiu se juntar. Cobrava de si uma mudança de atitude, de postura — ou qualquer coisa — que a tirasse da condição de anormalidade na qual se convenceu estar jogada. De onde vinha a alegria que as pessoas transpareciam? O fôlego que gastavam nas estrofes gigantes que os Counting Crows compuseram sem dó? Os sorrisos que trocavam com quem nem conheciam e que, muitas vezes, rendiam para bem além disso?
Algumas vezes conseguia cruzar o portal, sentir-se participante e, aliviada, ver que também era percebida. Em outras, tentou sorrir sem sentir vontade, falar sem sentir vontade, cantar sem sentir vontade — e sentir sem sentir vontade. Mas nunca foi boa em fazer coisas que não tinha vontade, tampouco em sussurrar um sentimento quando outro, mais forte, gritava dentro dela.
Chegou a imaginar se todos, secretamente, não se sentiam como ela, mas sabiam fingir bem — muito bem — que não. Há que viver o momento, aproveitar o prazer das pequenas coisas e tudo isso, não é? No final das contas, a vida é muito mais simples do que costumamos admitir... ou era nisso que tentava acreditar.
Mas a ditadura do sorriso em que vivemos — pensava ela — desvia a pessoa de quem ela de fato é. Afinal, o que pode ser melhor do que um sorriso largo para esconder a tristeza?
Engraçado era ouvir, desde o camping e até hoje, que, por agir assim, se expõe demais.
Como fingir estar bem em uma situação em que jamais poderia estar bem?
Qual o sentido disso?
Ao menos sabia que todas as vezes em que sorriu, cantou e sentiu foram autênticas; e que por isso, quando os sorrisos renderam até o tal bem além, viveu momentos que foram muito mais significativos para ela até mesmo do que para quem com ela estava.
Hoje, Bob Sinclair, Jack Johnson e outros cantores de um eterno verão ensolarado ainda despertam o mesmo incômodo; incômodo com o qual teve que aprender a viver, como John Nash aprendeu a viver seguido pelos amigos que sua mente lhe impôs.
E talvez, no fim das contas, viver seja mesmo ser como o homem na escada: estar e não estar. Sentir e não entender. Sorrir — e, ainda assim, carregar no peito essa ausência invisível.
Nenhuma publicação

Comments
Nothing yet. Say the first thing.
Sign in to join the conversation.