Esses dias eu assisti Supergirl no cinema e ela começa o filme num ciclo de bebedeira e ressaca. Fugindo do luto e lidando com a crise de identidade de alguém que, apesar da consciência sobre os próprios poderes, e uma determinação em fazer o que é certo, só queria mesmo era ser uma pessoa normal. Ela passa a se instalar em planetas de sol vermelho, onde ela não tem os poderes que teria na terra, o que permite que álcool a embebede. Lembrei da série She Hulk, que mostra a personagem se aproveitando da sua versão gigante verde super resistente aos efeitos do álcool, para encher a cara como nenhum humano normal conseguiria. Aparentemente com grandes poderes vem grandes necessidades alcoólicas.
Eu não sou uma mulher com super poderes alienígenas, nem uma mutante verde, mas o álcool já teve um papel muito mais importante na minha vida do que tem hoje. Com ele eu fico menos tensa em situações sociais, consigo conversar e me divertir com qualquer pessoa, sem aquela voz no meu ouvido dizendo que eu não pertenço a lugar nenhum e que nenhuma daquelas pessoas realmente gosta de mim. Claro que eu consigo isso sem beber também, só é bem mais raro e mais difícil. Claro que depois de sóbria eu morro de vergonha e até me arrependo do que eu fiz ou falei, mas às vezes vale a pena. Bebendo menos, eu sinto falta de alguns desses momentos.
É mais fácil arrumar rolês pra ir, e pessoas pra te acompanhar nos rolês, quando isso inclui beber. Boa parte dos encontros que tive com amizades na vida adulta foram em bares, festas regadas a álcool ou encontrinhos na casa de alguém em que cada um levava alguma bebida. Nesses rolês era fácil ter amigos por perto para eu conversar sobre as coisas que eu precisava… contar coisas que estavam acontecendo na minha vida e saber sobre a vida de outras pessoas na vida real, sem o filtro das redes sociais. Minhas maiores trocas de desabafos e confidências aconteceram em volta de bebidas alcoólicas. Muitos dos melhores beijos que eu troquei também foram bêbados. Hoje é mais raro (e talvez com mais valor??) ter trocas presenciais tão íntimas, e acho que o fato de eu beber menos tem uma parcela de responsabilidade nisso. Rolês sem álcool são mais raros, por vezes mais caros, e nem todo mundo topa.
No quadrinho Entre Umas e Outras, Julia Wertz narra as desventuras de uma quadrinista jovem, passando por transformações gigantes na vida, vindas da sua mudança de São Francisco para Nova Iorque, e o jeito como ela lida com essas mudanças é beber o tempo todo. O quadrinho não é especificamente sobre álcool, mas é difícil encontrar páginas inteiras em que a protagonista não apareça bebendo, ou que não tenha, ao menos, uma garrafa de bebida na cena. Basicamente todos os momentos de lazer (e até alguns de trabalho) envolvem bebidas. Reler este quadrinho esses dias e pensar na minha vida ansiosa e depressiva, sendo artista e vivendo longe da cidade onde eu cresci, numa casinha caindo aos pedaços, num bairro de periferia urbana (tudo igualzinho à Julia Wertz no quadrinho), pensei se estaria sendo mais fácil se eu ainda fosse a Raquel cachaceira de anos atrás.
Álcool é fuga. A pandemia me deixou com burnout e depressão, o que fazia com que os melhores momentos que eu vivi nesse período foram os em que a bebida me fez esquecer que o mundo estava uma merda e eu estava doente. Quando voltei a trabalhar presencialmente, muitas vezes o que me fazia relaxar o suficiente para descansar do dia de trabalho e poder dormir para no dia seguinte ir trabalhar de novo, era o álcool. Era isso, ou chorar até dormir e acordar com uma ressaca pior do que a alcoólica.
Falando em ressaca, tive muitas. Já cheguei a falar e acreditar que nunca mais beberia de novo depois daquelas, e é lógico que eu voltava a beber. Mas, falando com sinceridade, eu não ligo muito pra ressaca. Eu tenho ansiedade, depressão, enxaqueca crônica, fibromialgia, SOP, problemas alérgicos… enfim… sou bem acostumada a viver doente e passando mal, pelo menos a ressaca veio por escolha minha. É bom poder escolher de vez em quando, e eu defendo que cada um possa se prejudicar como quiser, já que todo mundo já se prejudica ou é prejudicado na vida sem ter nenhuma alternativa.
No mangá Minha Fuga Alcoólica da Realidade, Kabi Nagata fala sobre como é ruim ser cronicamente doente. A tristeza profunda por não ter saúde nem mental nem física é algo extremamente difícil de lidar. Existe a esperança de poder viver bem com os tratamentos certos, mas lidar com o fato que você tem doenças sem cura é duro. A autora pensa em tudo isso enquanto já está lidando com as consequências de um alcoolismo que surgiu como forma de fuga das suas dores emocionais, principalmente o sentimento de culpa. Pra mim, todas as angústias que ela passa tentando não decepcionar a família e por isso mesmo se empenhando em trabalhos que nem eram o que ela queria, de fato, deixam o alcoolismo resultante disso fazer muito sentido. Só que infelizmente isso acaba quase a matando, e muitas vezes eu tive medo de que isso me matasse.
Não quero demonizar o hábito de beber, nem fazer uma ode ao álcool, como talvez eu pudesse fazer anos atrás. Eu gosto do sabor de cervejas e cachaças, e gosto de drinks bem preparados também. Mas é melhor beber porque eu gosto, do que pelos motivos citados nesse texto.
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