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Projeto Brief · Jul 10, 2026

Decifrando o Partido Digital Bolsonarista, com Marcos Nobre

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Projeto Brief, Carol Luck · Projeto Brief

Em 2018, eu simplesmente não conseguia acreditar no que estava acontecendo. Minha família inteira (primas, tios, tias, pessoas incríveis que fizeram parte da minha criação) se transformou, quase da noite para o dia, numa militância dedicada de Jair Bolsonaro. E a minha família não é pequena: só do lado do meu pai são doze irmãos, e o grupo de WhatsApp em que todo mundo se falava tinha mais de cem pessoas. Foi ali, num espaço onde antes circulavam convites de aniversário e mensagens genéricas de bom dia, que eu entrei em contato com a máquina de mobilização bolsonarista – e também com as fake news mais absurdas já produzidas, como a de que o PT estaria distribuindo “mamadeiras eróticas” nas creches.

Eu discuti, mandei checagem, esbravejei… e não movi um milímetro a opinião de ninguém. Mas, com a vitória de Jair Bolsonaro nas urnas e umas cartelas de antidepressivos depois, uma pergunta continuou me perseguindo: o que tinha acontecido ali? O que transformou pessoas que eu nunca tinha visto falar de política em quadros ativos da campanha de um candidato de extrema direita, como se alguém tivesse apertado um botão? E por que isso funcionava tão bem?

Fui atrás da resposta e não voltei tão cedo. Passei três anos mergulhada no ecossistema bolsonarista, dentro de um grupo de pesquisadores incríveis do Núcleo de Política e Democracia do CCI/Cebrap, coordenado por Marcos Nobre – que tive a enorme sorte de ter como mentor ao longo de todo o processo. Desse trabalho saiu um livro, que ajudei a escrever e que foi lançado no Cebrap no dia 25 de junho, com Ana Claudia Teixeira, Daniela Constanzo, Leonardo Martins Barbosa, Mércia Alves e Paulo Yamawake, além de mim, Carol Luck. E foi ele que deu, enfim, um nome ao que parecia ter cooptado minha família: o Partido Digital Bolsonarista.

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Aqui, conto um pouco o que descobrimos nesses anos de pesquisa, e bato um papo com Marcos Nobre sobre como o livro ajuda a gente a navegar pela política na era digital e a se preparar para as eleições deste ano.

A tese do livro é que aquilo que costumamos classificar ora como um bando desorganizado de influenciadores raivosos, ora como uma milícia digital que manipula os desavisados é, na verdade, um partido político no sentido pleno da palavra. Ele tem programa, hierarquia, disciplina interna, coordenação e financiamento próprio. A única coisa que falta é aquilo que nós associamos automaticamente à ideia de partido: uma sigla e um registro no TSE.

E “digital”, aqui, não descreve um partido tradicional que aprendeu a usar bem as redes sociais. Um partido tradicional pode se digitalizar, criar uma rede de perfis e grupos, sem deixar de ser o mesmo partido de sempre. O que a pesquisa descreve é um partido que nasce dentro da internet, vive nela e não tem o menor interesse em virar uma legenda formal. Essa recusa em se institucionalizar é a jogada mais esperta de todo o arranjo – e o Marcos Nobre conta sobre isso ali embaixo.

Para entender como o partido se organiza por dentro, o conceito central é o de cadeia de lealdade. Na prática, uma cadeia de lealdade é o conjunto de pessoas que orbita uma figura do ecossistema – um influenciador, um deputado, um produtor de conteúdo – e que amplifica aquilo que ela diz. É o equivalente, nas redes, ao que num partido tradicional seria uma corrente ou uma ala interna. A diferença é que aqui não existe ficha de filiação nem sede para visitar: para entrar, basta seguir uma pessoa no Instagram, se inscrever em um canal no YouTube ou entrar em um grupo de WhatsApp. Feito isso, você já faz parte daquela rede e, por meio dela, já está dentro do partido, ainda que nunca tenha pensado em si mesmo nesses termos.

Grafo de relações do Partido Digital Bolsonarista

Cada pessoa costuma pertencer a várias dessas cadeias ao mesmo tempo, porque acompanha várias figuras. E aqui está a engenhosidade da coisa: se você se decepciona com um desses influenciadores e para de segui-lo, deixou a cadeia dele, mas continua dentro do partido, porque segue outros e permanece imerso no mesmo ambiente. A lealdade nunca esteve presa a uma figura específica, e muito menos a uma sigla; ela está diluída no ecossistema inteiro. Por isso, o Partido Digital Bolsonarista não depende mais nem de Bolsonaro e nem do PL para existir.

Como ninguém tem mandato nem cargo fixo, essa hierarquia vive em disputa permanente, e desafiar quem está acima faz parte das regras do jogo. Quem desafia e perde corre o risco de ser rebaixado ou expulso do ambiente, no que se costuma chamar de cancelamento – foi o que aconteceu com Joice Hasselmann, Alexandre Frota e Abraham Weintraub, que romperam com o núcleo bolsonarista e viram seu alcance desabar. O mais curioso é que, apesar de toda essa contestação constante, a hierarquia se mantém relativamente estável, porque uma posição de topo se sustenta também pela capacidade de continuar atuando na rede todos os dias. Quem para de atuar, cai.

Michelle fala em 'ataques covardes' e diz que Flávio Bolsonaro a  desrespeitou
A briga recente entre Michelle e Flávio Bolsonaro mostra como a disputa pelo pós-Bolsonaro está sendo feita publicamente nas redes.

E como uma estrutura sem comando central consegue agir de forma coordenada? A resposta é que ela opera por tentativa e erro, avançando e recuando conforme a base reage. O que, visto de fora, parece uma piada de mau gosto ou um enquadramento que “surge do nada” e viraliza costuma ser, na verdade, o resultado de muitas contribuições convergindo até que a liderança, num momento decisivo, referenda o que já vinha tomando forma embaixo lembra do caso do detergente Ypê?

Entender como essa organização funciona é essencial para combater o avanço da extrema direita. Costumamos reagir a esse avanço tentando responder ao que aparece na superfície: um vídeo que viralizou, uma fake news que pegou, uma pauta que dominou o dia. Só que atrás de cada um desses episódios há uma estrutura organizada que os produz em série, e é essa estrutura que precisa ser enfrentada. A seguir, uma conversa com Marcos Nobre sobre como ela opera.

Em conversa com o Brief, Marcos Nobre fala sobre o conceito de Partido Digital Bolsonarista, a disputa pelo pós-Bolsonaro e os desafios que essa forma de organização impõe num ano eleitoral.

Brief: O livro propõe uma mudança importante de vocabulário: tratar o bolsonarismo digital como partido político. Essa formulação desloca a conversa da ideia de militância espontânea ou de “gabinete do ódio” para uma discussão sobre organização, financiamento e disputa de poder. O que a categoria “partido” ajuda a enxergar sobre o bolsonarismo?

Nobre: Dizer que existe um Partido Digital Bolsonarista ajuda a ver que a busca pelo poder dessa organização não é desordenada nem casual. Ao contrário: é uma busca muito sofisticada, justamente porque a organização não é visível. Ela tem todas as vantagens de um partido e funciona como um partido, mas sem aparecer como tal, e isso dá uma vantagem enorme na competição política, especialmente no Brasil.

De um lado, você tem o sistema dos partidos tradicionais, com financiamento público e algum financiamento privado de pessoa física, tudo mais ou menos rastreável. De outro, você tem o mundo digital, que é totalmente opaco em termos de financiamento, alcance e capacidade de mobilização. Essa organização ganha dos dois lados ao mesmo tempo: aproveita as estruturas do partido tradicional e opera no ambiente digital, onde há muito menos transparência. Quando falamos em Partido Digital Bolsonarista, estamos tentando jogar luz sobre uma organização nova. Talvez ela não seja nova só no Brasil, mas o Brasil é um lugar privilegiado para observá-la.

Brief: Uma das principais características do PDB é a mobilização permanente, sem depender das formas tradicionais de filiação, diretório ou convenção. Como esse tipo de organização muda a forma de produzir pertencimento político hoje?

Nobre: A mobilização permanente é um dos traços mais impressionantes do PDB, e aparece como uma resposta ao declínio das formas tradicionais de partido. Nós vínhamos de uma democracia em que os partidos de massa já não tinham mais lugar; o que predominava eram partidos burocráticos, de quadros. O PDB renova essa forma: é uma organização de massa, só que invisível, porque está dentro da rede. Isso muda tanto a maneira de fazer política quanto a de entender o pertencimento.

A pessoa faz política como se não estivesse dentro de um partido, embora esteja. Por isso, quando nomeamos o PDB, estamos dizendo a quem está no ecossistema digital bolsonarista: você pertence a um partido, só que não a um partido oficial. E, sendo um partido antissistema, o fato de não se formalizar fortalece a sua própria pauta antissistema, ao mesmo tempo em que lhe permite hackear uma série de legendas tradicionais. Para quem pertence, o custo de entrada é praticamente inexistente. Pode haver um custo de saída, dependendo do grau de engajamento da pessoa, se ela é militante de base ou apenas simpatizante, para usar as metáforas dos partidos tradicionais.

De qualquer maneira, é algo que renovou a forma de fazer política, ainda que de um jeito perigoso, até sinistro. A extrema direita conseguiu engajar pessoas que estavam completamente fora de qualquer engajamento político. Isso é um alerta para que as forças de esquerda e do progressismo pensem em como vão mobilizar de maneira semelhante, porque, caso contrário, o desequilíbrio tende a ficar muito grande. O que estamos dizendo, no fundo, é que existe um déficit organizativo no campo progressista.

Brief: O Missão, ligado ao MBL, também nasce de um contexto de mobilização política digital, mas escolhe se transformar em partido formal. O PDB parece seguir outro caminho: atuar como partido sem se reduzir a uma sigla, usando estruturas formais como hospedeiras. Qual é a diferença central entre esses dois modelos de direita digital?

Nobre: O caso do MBL é muito interessante, embora ainda estejamos no campo das hipóteses, porque seria preciso um estudo mais aprofundado sobre o MBL e o Missão. A impressão que tenho é que o grupo em torno do MBL avaliou que não conseguiria competir com o PDB dentro da rede e, por isso, optou pela institucionalização. A ideia seria aproveitar o ecossistema digital bolsonarista, no qual também está inserido, e ao mesmo tempo construir uma face institucional mais clara.

O PDB não tem esse lado institucional definido. A identificação dele com o PL é muito forte, mas ele não se reduz ao PL: apoia-se em estruturas formais que funcionam como hospedeiras, sem se confundir inteiramente com nenhuma delas. Essa diferença mostra que a disputa pelo pós-Bolsonaro acontece em dois níveis. Há uma disputa dentro do ecossistema digital bolsonarista, entre forças distintas como o MBL/Missão e o próprio PDB, e há também uma disputa interna ao Partido Digital Bolsonarista.

Brief: O embate recente entre Michelle Bolsonaro e Flávio Bolsonaro foi tratado como mais uma briga familiar, mas também pode ser lido como uma crise de sucessão, autoridade e cadeias de lealdade dentro do bolsonarismo. Como você interpreta esse episódio pela lente do PDB?

Nobre: O que está em causa é o pós-Bolsonaro, e vai ser muito interessante acompanhar essa disputa. A capacidade de reação do Flávio me parece impressionante, e falo em termos de disciplinamento partidário mesmo: é muito poder conseguir disciplinar uma pessoa que está tão alta na hierarquia do partido quanto Michelle Bolsonaro.

É ainda uma hipótese, e seria preciso um estudo mais aprofundado para entender exatamente do que se trata. Mas, até o momento, minha leitura é a seguinte: Michelle queria ser candidata a presidente ou, no mínimo, vice de Tarcísio. Quando essa possibilidade não se configura, ela passa a disputar esse lugar e a dizer, na prática, “o pós-meu-marido sou eu”. Vamos ver como isso vai se acomodar. Por enquanto, tenho a impressão de que, na hierarquia do PDB, Flávio está acima de Michelle porque recebeu do pai essa posição, e é isso que o coloca num lugar superior e o autoriza a disciplinar quem estaria logo abaixo dele na cúpula.

Brief: Pensando nas eleições de deste ano, o bolsonarismo chega com uma estrutura digital muito consolidada, mas atravessado por disputas de liderança e por incertezas sobre sua capacidade de transferir força. Que papel o PDB deve cumprir em 2026? E como o livro ajuda jornalistas, campanhas e atores democráticos a olhar para essa eleição com mais precisão?

Nobre: Acho que o PDB vai cumprir o papel que sempre cumpriu, só que agora muito mais consolidado, claro e visível do que estava em 2022. Se contarmos a partir de 2018, são oito anos de construção, e para um partido isso é pouquíssimo tempo. Foi um processo rapidíssimo, mas hoje ele já tem bem mais consolidação do que tinha na eleição passada. Já existe um acordo com legendas tradicionais, uma lógica de disciplinamento, uma hierarquia. É aquilo que descrevemos no livro.

Espero que o livro ajude, em primeiro lugar, a mudar a pauta da pesquisa em ciência política, para que se comece a prestar mais atenção ao digital e a esse tipo de forma organizativa nova. Não estamos dizendo que ela vá se tornar dominante ou derrubar todas as outras. O que dizemos é que, sem olhar para ela, não será possível pensar o que vem depois. E espero que ajude jornalistas, campanhas e atores democráticos a enxergar essa organização como aquilo que ela é: um risco para a democracia, que precisa ser tirado da sombra e trazido para o debate.

A partir daí vem a pergunta mais difícil: o que fazemos com isso? Há um lado que diz respeito à competição desleal e à falta de transparência dentro desse ecossistema. Mas há outro lado, que essa forma de organização escancara, que é o déficit organizativo da esquerda, do campo democrático e do progressismo. A resposta não pode ser apenas regulatória, até porque não se sabe bem como regular uma coisa dessas, e também não basta dizer que precisamos prestar atenção. A questão é mais profunda: como construir uma organização capaz de enfrentar um partido como esse?

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O livro não entrega um manual de como derrotar essa estrutura, porque esse trabalho terá de ser coletivo e começa por reconhecer que temos, antes de tudo, um problema de organização para resolver. O que a gente entrega é o mapa. As peças que fazem a máquina girar estão descritas, e as perguntas estão formuladas. O resto é com a gente.

Um abraço,
Carol Luck, do Projeto Brief

Read the original on projetobrief.substack.com

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