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Lucas Leite - Política mundial · Aug 13, 2026

#45 Teerã bate à porta do Banco do BRICS

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Lucas Leite - Política mundial · Lucas Leite - Política mundial

Toda vez que um país anuncia que vai reduzir sua dependência do dólar, a manchete corre o mundo antes que os detalhes apareçam. Foi o que aconteceu quando o Irã sinalizou sua entrada no Banco do BRICS, com Dilma Rousseff conduzindo as negociações na Índia. Por trás do gesto está uma disputa que ajuda a definir o futuro do dinheiro no Sul Global, entre a ambição de construir uma alternativa ao dólar e os limites concretos de uma instituição que ainda precisa operar dentro do sistema que pretende reformar. Nesta edição, separo o símbolo da substância e mostro o que a experiência recente da Rússia revela sobre até onde essa autonomia consegue chegar.

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Boa leitura!

A notícia circulou nas redes com a força de um fato consumado. A RT Brasil, braço em português da emissora estatal russa, anunciou que o Irã havia aderido ao Novo Banco de Desenvolvimento e ilustrou o feito com uma foto de Dilma Rousseff ao lado do governador do Banco Central iraniano. A cena tem valor simbólico evidente, e é justamente por isso que vale a pena separar o que aconteceu daquilo que a moldura triunfalista sugere. O que Abdolnaser Hemmati declarou em Jaipur, na Índia, no dia 12 de agosto de 2026, à margem da primeira reunião de ministros das Finanças e presidentes de bancos centrais do BRICS sob a presidência rotativa indiana, foi que seu país “em breve” se tornará membro da instituição. Dilma, que preside o banco desde 2023, reuniu-se com ele para destacar o potencial iraniano e defender a continuidade das negociações técnicas sobre a entrada e sobre o futuro acesso de Teerã às linhas de financiamento. Estamos diante de uma adesão em processo, avançada no plano político e ainda em construção no plano operacional, e essa distinção é o coração da história.

Convém lembrar o que é o Novo Banco de Desenvolvimento antes de medir o alcance do gesto. Criado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, com acordo assinado em Fortaleza em 2014 e operação iniciada em 2015, o NDB nasceu com um capital autorizado de 50 bilhões de dólares e uma promessa política precisa, a de financiar infraestrutura e desenvolvimento sustentável no Sul Global com menos condicionalidades do que impõem o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional. O Irã integrou a ala política do BRICS em 2024, na primeira leva de expansão do bloco, e desde então manifestava o desejo de virar acionista do banco. Hoje a instituição reúne onze membros, os cinco fundadores somados a Emirados Árabes, Bangladesh, Egito, Argélia, Uzbequistão e Colômbia, e a chegada de Teerã ampliaria a presença de países sob sanções pesadas em sua carteira.

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O ponto que dá sentido à movimentação é a agenda de desdolarização que Dilma transformou em bandeira de sua gestão. A lógica é conhecida por qualquer país que já tenha sentido na pele o peso da política monetária americana. Quando um Estado toma empréstimos de longo prazo em dólar para tocar uma hidrelétrica que leva trinta anos para se pagar, ele fica exposto à variação cambial e às decisões do Federal Reserve, que sobe juros pensando em Ohio e não em Recife ou em Isfahan. Emprestar em moeda local reduz esse risco e, no limite, subtrai um instrumento de coerção das mãos de Washington, que aprendeu a usar o dólar e o sistema de pagamentos internacionais como arma, cortando adversários do circuito financeiro por meio de sanções secundárias. A Estratégia Geral 2022-2026 do banco fixou a meta de que 30% dos financiamentos fossem concedidos em moedas locais, e em meados de 2025 Dilma afirmava que a carteira já rondava os 25%. O horizonte é palpável, e a direção aponta para uma arquitetura financeira menos dependente da hegemonia monetária dos Estados Unidos.

Aqui, porém, a análise precisa resistir ao entusiasmo fácil, e é nesse terreno que a esquerda tem mais a ganhar sendo rigorosa do que sendo torcedora. O NDB carrega uma contradição estrutural que a adesão iraniana expõe com clareza incômoda. O banco pode pregar a desdolarização, mas se financia captando recursos justamente no mercado de dívida em dólar, e depende das notas das agências ocidentais de classificação de risco para conseguir taxas atraentes nesse mercado. A prova mais eloquente veio em 2022. Quando a Rússia, sócia fundadora com quase 20% do capital, foi alvejada por sanções depois da invasão da Ucrânia, o próprio NDB suspendeu novas transações no país em março daquele ano, com um comunicado seco sobre “princípios bancários sólidos”, para não ser contaminado e perder acesso ao mercado internacional. Não bastou. Em julho de 2022 a Fitch rebaixou a perspectiva do banco para negativa, alegando dificuldade de emitir dívida de longo prazo nos mercados de capitais americanos, e a instituição passou meses sem conseguir vender títulos, só retornando ao mercado de bonds em dólar em abril de 2023, com uma emissão de 1,25 bilhão de dólares. Convém guardar o número que resume tudo, dos 31,9 bilhões de dólares desembolsados pelo banco entre 2016 e 2023, cerca de 21,3 bilhões saíram em dólar, ou seja, dois terços do total. A própria Dilma, confrontada pelo Financial Times sobre a suspensão das operações russas, resumiu o dilema com honestidade, ao dizer que não se pode negar que o sistema financeiro internacional existe e que é preciso conviver com ele.

Esse episódio é a chave para ler a chegada do Irã. Se a Rússia, fundadora e detentora de fatia enorme do capital, foi mantida à distância para preservar o rating do banco, o Irã tende a enfrentar um constrangimento ainda maior, porque está submetido a um regime de sanções americanas mais amplo e antigo e permanece, em 2026, sem acordo de paz no conflito que o opõe a Israel e aos Estados Unidos. A consequência prática é que a adesão iraniana pode consolidar-se no plano da representação política, engrossando a lista de membros e reforçando a narrativa de um banco do Sul Global, e ao mesmo tempo esbarrar em limites concretos quando se tratar de liberar financiamento em volume que exponha a instituição à retaliação de Washington. O gesto de Dilha e Hemmati em Jaipur vale como sinalização geopolítica, e é legítimo lê-lo assim, desde que se reconheça a diferença entre sentar-se à mesa e ter a torneira do crédito aberta.

Para o Brasil, a equação é delicada e reveladora do lugar do país nesse tabuleiro. O governo Lula fez da desdolarização regional uma política ativa, costurando acordos em real e yuan com a China, nosso maior parceiro comercial, e sustentando a presidência de Dilma no banco como ativo diplomático. A liderança brasileira no NDB projeta o país como um dos motores técnicos e políticos da construção de alternativas ao dólar na América Latina e no Sul Global. Essa mesma liderança, contudo, impõe cautela, porque interessa ao Brasil que o banco continue viável e capaz de captar recursos, e não que se transforme em instrumento de confronto que comprometa sua nota de crédito e sua capacidade de emprestar aos países que mais precisam. A adesão do Irã testa exatamente essa fronteira, entre a ambição de reformar a ordem financeira e a prudência de quem sabe que ainda opera dentro dela.

Há, por fim, uma advertência necessária para que a leitura crítica não descambe em romantismo. Defender a desdolarização e o direito do Sul Global a uma arquitetura financeira mais simétrica não obriga ninguém a idealizar o regime teocrático iraniano, cuja política interna repressiva merece crítica firme. O argumento materialista aqui recai sobre o sistema, sobre a forma como a hegemonia do dólar funciona como mecanismo de disciplina e de poder, e não sobre uma suposta virtude do governo de Teerã. O que a pesquisadora Irem Tabirlioğlu chamou de hegemonia adaptativa descreve bem o momento do NDB, uma instituição que contesta a ordem e ao mesmo tempo se molda a ela para sobreviver, avançando a agenda de moedas locais nas brechas que o mercado de capitais lhe permite. A pergunta que realmente importa, portanto, não se esgota em saber se o Irã entrará no banco. Ela se coloca no plano mais profundo de saber se o NDB conseguirá construir autonomia real diante da arquitetura do dólar, e o caso russo sugere que o teto dessa autonomia, sem uma transformação estrutural mais ampla, ainda é baixo.

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Fontes: Agência Brasil; Brasil de Fato; Crusoé; Financial Times; Fitch Ratings; Global Panorama; Japan Credit Rating Agency; New Development Bank; OMFIF; Reuters.

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