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Guilherme Freire · Oct 26, 2025

O Valor Redentor do Sacrifício

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Guilherme Freire · Guilherme Freire


Nesse mundo, nada de valor se faz sem sacrifício.
E a razão disto está no terceiro capítulo do Gênesis.

Quando Adão e Eva comem do fruto proibido, Deus não os abandona. Pelo contrário: Ele lhes dá três punições que, paradoxalmente, carregam em si a semente da redenção humana, e constituem um caminho para estar ainda mais próximos de Deus.

A primeira punição é a morte:

Porque tu és pó, e em pó te hás de tornar (Gn 3,19).


À primeira vista, parece cruel. Mas imagine a vida eterna naquele estado de pecado, de ruptura com Deus. Depois do pecado, a morte passa a ser, de certo ponto de vista, desejável, e uma vida sem fim seria mais como um inferno interminável. Pela Graça, a morte torna-se o início de uma vida nova, eterna e santa.

A punição para a mulher são as dores do parto:

Multiplicarei os teus trabalhos, e (especialmente os de) teus partos. Darás à luz com dor os filhos (Gn 3,16).


O parto — a maternidade — era originalmente o maior projeto de Deus para a mulher, que foi criada para ser mãe dos viventes — Crescei e multiplicai-vos (Gn 1,28). Agora, com o pecado, multiplicar a raça humana exige dor. Isto é, a fertilidade (maior alegria e maior vocação da mulher) passa a ser sacrificante.

De forma análoga, o trabalho masculino também passa a ser doloroso e cansativo:

Tirarás da terra o teu sustento com trabalhos penosos todos os dias da tua vida (Gn 3,17). […] Comerás o pão com o suor do teu rosto […] (Gn 3,19).


Ou seja, assim como a fertilidade reprodutiva (produzir frutos no ventre da mulher) passa a exigir seu quinhão de dor, a fertilidade de cultivo (produzir frutos da terra) também se torna uma atividade sacrificante para o homem.

Isso significa que ambas as punições divinas a respeito da dor (a do homem e a da mulher) apontam para uma mesma verdade: tudo que é fértil, tudo que gera algo de valor, exige sua parcela de dor e sacrifício.

Mais do que uma mera punição, Deus coloca aí algo de extremamente pedagógico. Ele quer com isso nos ensinar algo que está n’Ele mesmo: a disposição de renúncia.

A vida abundante nasce da entrega. Todo ato criador — seja gerar um filho, cultivar a terra, edificar uma obra — exige que nos doemos.

Claro que, em Deus, essa doação não implica necessariamente dor (embora Ele quis fazer-se homem para sentir as dores redentoras de sua Paixão). Acontece que o homem, no estado de pecado, tornar-se-ia cego para a entrega (incapaz de reconhecê-la) se não houvesse o constante lembrete da dor.

Só assim, quando chegou a hora de o plano de Salvação se pôr em prática e Cristo descer ao mundo, Ele pode manifestar ao homem (mesmo decaído e cego pelo pecado) o Seu Amor: usando a linguagem da dor, que é uma linguagem que a humanidade já entendia (e ainda entende) muito bem.

Mais ainda: ao aceitarmos a dor, ao abraçarmos o sacrifício, participamos da própria Redenção. O suor, as dores, a fadiga — tudo isso nos une ao gesto redentor de Deus. É por isso que o trabalho dignifica. É por isso que a maternidade santifica. Não apesar da dor, mas através dela.

Quando reclamamos do esforço necessário para alcançar algo grande, esquecemos: a dificuldade não é um obstáculo ao fruto. Ela é o caminho para o fruto. O suor não é uma maldição. É uma bênção disfarçada, que precisamos aprender a enxergar.


Até semana que vem,
Guilherme Freire.

Read the original on professorguilhermefreire.substack.com

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