A palavra odisseia já entrou para o nosso vocabulário como sinônimo de jornada longa e sofrida, mas vale lembrar da sua origem. Odisseia é, literalmente, o poema sobre Odisseu, o herói cujo nome os romanos latinizaram como Ulisses. Escrito por Homero há cerca de 2.700 anos, o poema narra os vinte anos em que esse rei fica longe de casa, dez lutando em Troia e outros dez tentando voltar a Ítaca, onde o esperam uma esposa cortejada por inúmeros pretendentes, um filho que cresceu sem pai e um reino tomado por parasitas.
É um dos textos fundadores da cultura ocidental, que inspirou a Eneida de Virgílio, ecoou na Divina Comédia de Dante, chegou até Os Lusíadas de Camões. E é, sobretudo, uma escola de virtudes: a prudência de Odisseu, a fidelidade de Penélope, o amadurecimento de Telêmaco, o peso da hospitalidade como lei sagrada entre os povos antigos.
O lançamento recente da adaptação de Christopher Nolan nos cinemas trouxe de volta para o mainstream a discussão sobre essa obra fundamental. E existem formas diferentes de avaliar o filme: (1) como uma adaptação de Odisseia, (2) como um filme isolado.
Eu cometi o erro de reler a Odisseia na semana anterior ao filme e, por isso, a minha experiência foi um tanto decepcionante. O filme fracassou em chegar aos pés da magnitude da história. No entanto, deixando de lado a expectativa de uma adaptação fiel ao espírito da obra, é possível, sim, tirar um bom proveito do filme.
Comecemos a análise pelo que faltou. Praticamente todos os elementos heroicos mais claros do poema foram removidos ou diminuídos. Nestor, o rei mais velho que ensina Telêmaco sobre a importância dos deuses, simplesmente não existe no filme. O Mentor, personagem tão relevante que deu origem à própria palavra que usamos até hoje, aparece apenas de passagem. Atena, a deusa da sabedoria que no poema é uma presença imponente, é reduzida a algo ambíguo, que pode ser interpretada tanto como uma deusa quanto como uma alucinação do trauma de guerra de Odisseu. E os episódios mais astutos do protagonista, como o momento em que ele engana o ciclope Polifemo se apresentando como ninguém, desaparecem inteiramente.
Por que isso importa tanto? Porque a virtude central de Odisseu nunca foi a força, mas a metis, a inteligência estratégica que os gregos distinguiam com cuidado da força bruta de um Aquiles. Tirar as cenas em que essa inteligência aparece é tirar o próprio caráter do herói.
O elenco escolhido por Nolan também gerou bastante discussão. Circulou a ideia de que a escalação diversa seria uma estratégia calculada para agradar ao Oscar, um casting que alguns chamaram, com ironia, de casting hollywoodiano — que ironicamente possui todas as etnias menos a grega. Pode até ser que exista esse cálculo. Mas o problema real, ao assistir, não é a diversidade em si, e sim que boa parte desses personagens simplesmente não sustenta o peso dramático que a história pede deles.
A escalação da Zendaya como Atena talvez tenha sido a mais inadequada para o filme. A deusa, que deveria ser imponente como a estátua colossal que os gregos ergueram na Acrópole, ganhou uma presença apagada, sem a força de uma sabedoria que deveria dominar a cena inteira sempre que aparece. Um bom parâmetro de como isso poderia ter sido feito é Galadriel em O Senhor dos Anéis: Peter Jackson soube dar à personagem o peso devido de sua autoridade.
Parece-me também que Elliot Page — seguindo o nome juridicamente correto — originalmente deveria representar Aquiles, mas a crítica fez com que o diretor reduzisse o seu papel para Sinon, que teve um destaque maior do que deveria na história, carregando o peso de um papel emprestado de outra obra, o do enganador troiano da Eneida, transplantado à força para dentro da Odisseia.
Curiosamente, Tom Holland foi uma surpresa positiva, sendo apropriado para Telêmaco: o gen z que cresceu recebendo conselhos ruins, numa sociedade decadente e quer pôr o fim em tudo isso.
Mesmo assim, é interessante notar que esse elenco não empurra o filme para nenhuma direção óbvia: quase todos esses personagens, do mais central ao mais periférico, acabam representando figuras ambíguas ou traidoras dentro da própria trama, o que torna a leitura do casting bem mais complexas do que parece à primeira vista.
Onde o filme funciona de verdade é em Ítaca: as cenas do retorno, do filho que precisa amadurecer e da casa tomada por pretendentes têm força real. Mas é como se Nolan tivesse entendido bem a metade doméstica da história e perdido o fio da metade fantástica, que vira puro espetáculo visual, sem a carga moral que cada monstro e episódio simboliza no texto original. As sereias, os lestrigões, o próprio Polifemo perdem o simbolismo dando espaço apenas para o entretenimento.
Um filme pode ser tecnicamente competente e, ainda assim, trair o espírito daquilo que promete adaptar. É esse o nó da questão, e é por isso que talvez a pergunta certa não seja “o filme é bom?”, mas sim “o filme é isto mesmo que diz ser?”.
Vale ainda um comentário sobre o momento em que esse filme chega. Não é a primeira vez que Hollywood falha ao representar a Grécia antiga e erra o alvo por outro motivo, mais sutil que qualquer escolha de elenco. Filmes anteriores sobre Troia também se afastaram bastante da Ilíada, e hoje o público ainda tem a impressão de ser mais fidedigno do que Odisseia de Nolan.
O filme de Nolan parece tudo, menos grego. Até no sentido estético, a direção de fotografia no tom azul/acinzentado e os navios lembram mais uma cultura viking e nórdica do que uma cultura grega. Então, nesse sentido, até o filme Tróia de 2004, que está bem distante também da Ilíada original, parece mais fidedigno, porque há um resquício do heroísmo que foi perdido nos filmes mais recentes.
O problema é só de Nolan, ou é de uma cultura inteira que já não conhece mais o verdadeiro heroísmo? Talvez o homem contemporâneo, acostumado a heróis cansados, irônicos ou traumatizados, simplesmente não tenha mais paladar para a luminosidade quase ofensiva de um herói como Odisseu era no poema original.
Dito isso, A Odisseia provavelmente será o melhor filme do ano, não porque seja um grande filme, mas porque a média está baixa e o público que já cansado de filmes medíocres pode se surpreender com algo minimamente bom.
Olhando com maior distância, fica claro que Nolan não fez uma adaptação da Odisseia, ele fez outra história, que apenas empresta o nome e o mapa de personagens do poema.
A tese do filme é bem específica: os gregos são retratados como um povo do mar, saqueadores que quebraram a lei sagrada da hospitalidade ao enganar Troia com o cavalo, e que por isso trazem sobre si uma espécie de maldição. É uma leitura que lembra menos a Odisseia original e mais a Antígona, de Sófocles, onde violar a lei dos deuses gera um castigo anunciado por um profeta cego. Lembra também a visão romana antiga, que enxergava Odisseu como um pouco frouxo e chorão demais, e preferia o legado troiano ao grego, como fica claro na própria Eneida.
O resultado é um filme sobre culpa civilizacional. Os homens partem para a guerra, abandonam a própria casa, e a casa apodrece na ausência deles. Não é uma história sobre o herói que vence provações, mas sobre o pecado que precisa ser expiado antes que a ordem possa ser restaurada, e por isso Odisseu, ao final, tem que abrir mão do próprio trono para o filho. É praticamente a mesma estrutura moral de outros filmes de Nolan, como o final de Oppenheimer: nós nos tornamos os deuses da nossa própria destruição.
Não por acaso, algumas cenas evocam também Interestellar, o que talvez não seja coincidência, mas sim assinatura de um diretor que revisita, de filme em filme, as mesmas perguntas sobre destino, culpa e poder, disfarçadas de roupagens diferentes.
Isso não torna o filme ruim. Torna-o um filme diferente, com sua própria coerência interna, ainda que essa coerência não seja a de Homero. E é curioso notar que essa leitura comporta interpretações bem distintas ao mesmo tempo, quase como se o próprio filme não tivesse decidido em qual delas se apoiar.
Existe uma leitura espiritual possível, de culpa e expiação, próxima da lógica do purgatório: o herói só pode voltar de fato para casa depois de reconhecer, diante da própria esposa, os erros que cometeu ao longo do caminho.
Existe também uma leitura mais conservadora, quase óbvia quando se presta atenção: uma casa abandonada pelos homens que foram fazer fortuna em guerras distantes, tomada por imigrantes e aproveitadores que não compartilham os valores de quem construiu aquele lar, só é restaurada quando um filho até então isolado assume, enfim, seu papel.
E existe, ao mesmo tempo, uma leitura que aponta para o lado oposto, mais crítica ao próprio impulso expansionista das potências ocidentais, lendo os gregos do filme como metáfora de impérios que saem mundo afora atrás de rotas de comércio e riqueza, e pagam por isso com a própria ruína doméstica.
A única leitura que o filme realmente não sustenta é a leitura grega, a energia própria daquele mundo mediterrâneo antigo que valorizava a astúcia, a hospitalidade e o retorno como as maiores virtudes de um homem.
Há uma cena no poema, quando Odisseu encontra a sombra de Aquiles no mundo dos mortos, que talvez resuma melhor do que qualquer outra o abismo entre as duas visões de mundo:
Prefiro servir na terra a outro homem, um lavrador pobre que mal tem o que comer, a reinar sobre todos os mortos que aqui jazem. — Homero, Odisseia, Canto XI
É a vida comum, imperfeita e presente, vencendo a glória vazia e ausente. Essa é a mensagem que sustenta o poema inteiro, e que o cinema, por mais competente que seja tecnicamente, ainda não conseguiu capturar por completo. Talvez porque certas obras não existam para serem superadas, apenas para serem, de tempos em tempos, reencontradas.
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Até semana que vem,
Guilherme Freire

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