Existe uma ideia bastante difundida na Academia de que o trabalho termina quando o artigo é publicado. Quem acredita nisso, claramente nunca tentou explicar sua própria pesquisa para alguém fora do círculo dos pares, especialmente para alguém que não sabe (nem quer saber) o que é era um Qualis.
Publicar é importante, claro.
Mas traduzir o que foi publicado é outra etapa e talvez a mais difícil.
Neste número do Adigitalis, faço exatamente isso: volto a dois artigos científicos já publicados, desenvolvidos em coautoria com duas orientandas da UNIFESP – Universidade Federal de São Paulo, Instituto do Mar, para contar o que de fato aprendemos ao longo do processo.
Sem método excessivo, sem jargão desnecessário e sem aquela solenidade performática que às vezes acompanha a ciência.
Aqui, a ideia é simples: falar sério sem falar difícil. 🙂
O primeiro artigo, escrito com a Dani Passos, parte de uma pergunta simples, direta e ligeiramente incômoda: qual é, afinal, o papel da comunicação na sustentabilidade financeira das organizações do terceiro setor?
A revisão sistemática da literatura aponta algo que, curiosamente, ainda soa como novidade em muitos espaços: ONGs não quebram por falta de causa. Quebram por falta de estrutura. E comunicação estratégica, gostemos ou não, é parte dessa estrutura.
Os estudos analisados convergem em três achados principais:
Mídias digitais funcionam, mas não fazem milagre. Estar nas redes ajuda, desde que exista estratégia, coerência e um mínimo de profissionalização.
Transparência não é valor etéreo. Ela impacta diretamente a confiança institucional e, por consequência, a disposição para doar.
Comunicação genérica sai caro. Organizações que falam com todo mundo do mesmo jeito costumam não convencer ninguém em particular.
Em tradução livre: postar muito não é estratégia; ser transparente não é diferencial, é pré-requisito; e acreditar que comunicação “se resolve sozinha” costuma ser o primeiro passo para o colapso financeiro. 😌
O artigo também evidencia um ponto delicado: há um déficit relevante de profissionalização comunicacional no terceiro setor, especialmente em organizações menores. A literatura internacional já cansou de alertar sobre isso. O problema é que, na prática, o aviso ainda é frequentemente tratado como sugestão.
O segundo artigo, desenvolvido com a Katia Dolabella, se debruça sobre outra tensão bastante conhecida de quem trabalha com gestão pública e sustentabilidade: a distância entre políticas bem formuladas, indicadores bem desenhados e a vida real nos territórios.
A pergunta central é objetiva e nada confortável: os instrumentos adotados dão conta da complexidade socioambiental que dizem enfrentar?
Os resultados mostram um cenário familiar: avanços normativos existem, planos são produzidos, indicadores são calculados, mas a articulação entre escalas, atores e práticas segue sendo um desafio persistente. Em muitos casos, o discurso institucional está bem alinhado. A prática, nem tanto.
O estudo aponta:
dificuldades de coordenação entre diferentes níveis de governança,
fragilidades na articulação entre atores públicos e territoriais,
e limites claros na capacidade dos instrumentos existentes de capturar a complexidade local.
Nada disso invalida as políticas analisadas. Mas ajuda a reduzir o entusiasmo exagerado e a lembrar que sustentabilidade não se implementa por decreto, nem se resolve apenas com planilhas bem organizadas.
Aqui, o aprendizado é clássico e insistente: políticas públicas não fracassam por falta de boas intenções, mas por excesso de simplificação. ⏳
Reunir esses dois artigos neste Adigitalis não é um exercício de autopromoção acadêmica. É, na verdade, um pequeno gesto de humildade intelectual: reconhecer que o texto publicado, moldado por normas editoriais e linguagem especializada, é apenas uma das formas possíveis de dizer o que foi aprendido.
Orientar, pesquisar e publicar fazem parte do ofício.
Mas voltar ao que foi publicado, reler com distância crítica e tentar explicar melhor talvez seja uma das tarefas mais honestas, e mais raras, da vida acadêmica.
A ciência não termina no aceite do periódico. Ela apenas muda de público.
E isso, convenhamos, é sempre um bom sinal. 🌱
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