Por Bobo Anônimo
Uso pseudônimo porque não somos mais livres...
Simples assim....
Ainda podemos falar, claro…
Desde que aceitemos o preço.
Ainda podemos discordar…
Desde que o façamos com nome, CPF, profissão, empregador, clientes, família, endereço simbólico, histórico digital, vulnerabilidades pessoais e uma corda invisível amarrada ao pescoço.
Chamam isso de responsabilidade.
Eu chamo de coleira
Ha… ha… ha…
Porque, no nosso tempo, a palavra já não é julgada apenas pelo que carrega de verdade. É julgada pelo risco social, profissional, financeiro e reputacional que pode produzir contra quem a pronuncia. Eles querem medir o dano antes de atacar!
Ha… ha… ha… raivosos....
Antes de perguntarem se uma frase é justa, perguntam quem a assinou.
Antes de enfrentarem uma ideia, procuram o cargo.
Antes de refutarem um argumento, procuram o cliente.
Antes de responderem ao pensamento, procuram a biografia.
Não querem vencer a ideia.
Querem localizar o corpo… Ha… ha… ha… Serial killers! Ha… ha… ha…
E quando a opinião passa a depender da disposição de sacrificar casa, trabalho, família, contratos, reputação e futuro… então não estamos mais falando de liberdade.
Estamos falando de permissão para falar.
Permissão revogável.
Permissão vigiada.
Permissão com captura de tela.
Permissão com cláusula moral escondida no rodapé.
Por isso o pseudônimo.
Não por covardia.
Covardia é fingir que ainda somos livres apenas porque a cela tem Wi-Fi.
Covardia é repetir as frases permitidas para preservar convites, contratos, cargos, mesas, aplausos e pequenas vaidades de província.
Covardia é chamar medo de prudência.
Covardia é chamar vigilância de cuidado.
Covardia é chamar servidão de cidadania.
O pseudônimo é outra coisa.
É uma pequena insubordinação.
É uma recusa a entregar a ideia já algemada ao cadastro.
É a tentativa de devolver à palavra aquilo que ela perdeu: a chance de ser julgada antes de ser rastreada.
E é aqui que entra a máscara.
Porque a máscara não nasce para esconder a verdade.
Nasce para protegê-la dos homens que só conseguem lidar com a verdade depois de descobrir onde ela mora...
Platão corre aqui! Eles estão tentando sair da caverna!
Ha… ha… ha…
A máscara incomoda.
Não porque esconde demais.
Mas porque revela demais.
Revela que o rosto, hoje, deixou de ser apenas rosto. Virou login. Virou dossiê. Virou reputação bancária. Virou CPF. Virou metadado. Virou índice de risco. Virou alvo. Virou prova de vida perante máquinas mortas, virou cancelamento... de página de social?! de CPF?! Ha… ha… ha… John McAffe está aqui comigo?!
Ha… ha… ha…
O homem moderno não tem face.
Tem cadastro.
E, quando todos estão cadastrados, rastreados, pontuados, ranqueados, avaliados, arquivados e domesticados… a máscara deixa de ser disfarce.
Vira higiene espiritual.
Sim, escrevo de máscara.
Mas não apenas para que não me reconheçam.
Uso máscara porque, com ela, posso me ver em vocês… e vocês podem se ver em mim.
Sem rosto, não sou menos homem.
Sou mais símbolo.
Sou o trabalhador cansado de sustentar parasitas com crachá. Sou o pai que não quer entregar os filhos aos engenheiros de almas. Sou o pagador de impostos que já percebeu que a máquina nunca emagrece. Sou o cristão que sabe que César tem moeda, mas não tem jurisdição sobre a consciência. Sou o cidadão comum que descobriu, tarde demais (ou cedo demais Ha… ha… ha…), que a coleira veio com manual de boas práticas do politicamente correto... Hm...
E vocês também são.
A máscara apaga o indivíduo apenas para revelar a multidão.
Um rosto pode ser caçado.
Um nome pode ser cancelado.
Um CPF pode ser intimidado.
Mas uma máscara… uma máscara pode se multiplicar.
Podemos ser massa.
Podemos ser legião.
Podemos ser uma multidão inteira escondida na assinatura de um homem só.
Não sou legião porque perdi a alma.
Sou legião porque o Circo tentou roubar o rosto de todos nós.
E talvez seja isso que o Circo mais tema: não o meu anonimato, mas a possibilidade de que ele seja contagioso.... Ha… ha… ha… soltaram o leproso!
Ha… ha… ha…
É defesa contra o método! Por que tão sério?
Ha… ha… ha…
Quando descobrem com quem fala, descobrem quem depende de você, depois descobrem de onde veio seu dinheiro, sua frase, sua foto, seu erro antigo, seu silêncio, seu amigo errado, sua piada fora da liturgia, sua curtida imperdoável de 2014…
E, se encontrarem seu pescoço…
Ha… ha… ha…
vão cortar.
Mas não espere sangue na parede.
Eles são civilizados demais para isso.
Cortarão com pareceres (e com prazeres Ha… ha… ha…) , notas técnicas, relatórios, cláusulas morais, discursos duplos, palavras eruditas e elegantes… sempre com um sorriso no rosto… sempre com a voz macia de quem diz:
É para o seu bem.
Ha… ha… ha…
Para o bem comum.
Claro... o bem comum…
essa expressão perfumada que serve para cobrir o cheiro de quase todos os matadouros.
Morra quietinho.
De preferência, de cansaço.
Trabalhe bastante.
Pague bastante.
Cale bastante.
Agradeça bastante.
E, quando o corpo finalmente dobrar, quando a alma já não tiver força para perguntar quem colocou a coleira, eles dirão que você foi um cidadão responsável.
Pobres bichos revoltosos…
correndo dentro de uma fazenda comandada pelo frigorífico.
Acham que cercas existem para protegê-los.
Acham que o cocho é generosidade.
Acham que o abate é boato conspiratório de porcos mal-agradecidos.
Deixem os porcos brincarem…
Ha… ha… ha…
Deixem que vistam gravata.
Deixem que assinem portarias.
Deixem que discutam ética pública enquanto escolhem a faca mais limpa.
Ai, ai…
prostitutas da Babilônia com crachá, perfume caro e vocabulário republicano…
não sabem brincar?
Ficam tão sérias quando alguém ri do altar errado.
Tão ofendidas quando alguém aponta para o Circo.
Tão indignadas quando o bobo pergunta por que o palácio tem cheiro de pocilga.
Mas é isso que acontece quando a solenidade perde o mistério.
Quando o Império já não inspira temor…
só resta ao Império exigir respeito.
E nada é mais ridículo do que um poder decadente pedindo reverência com a maquiagem escorrendo.
Ha… ha… ha…
Sou o Bobo Anônimo.
E escrevo porque o Circo perdeu a vergonha.
Quando o Estado engorda, chama o próprio peso de bem comum.
A César, o tributo. A Deus, a alma. Ao Circo, o riso.
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