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REVISTA PLEB'S · Aug 5, 2026

Coldcard e o Preço da Soberania

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Por Jeff

No último final de semana, o mundo do Bitcoin acordou assombrado por um hack que coloca em cheque uma das mais poderosas premissas da comunidade: "não confie". Entre os dias 30 de julho e 4 de agosto, uma vulnerabilidade na Coldcard, uma das mais aclamadas hardwallets da comunidade Bitcoin, foi explorada. O roubo total alcançou 1.367 BTC, cerca de 89 milhões de dólares, esvaziando um total de 4.585 endereços únicos, conforme apurado por analistas on-chain que rastrearam os fluxos das transações. A extração ocorreu de forma cirúrgica e automatizada, dividida em quatro grandes ondas identificadas por essa mesma análise.

Na primeira onda, em 30 de julho, houve uma drenagem inicial rápida focada em 204 endereços, coletando aproximadamente 89,6 BTC; o script levou tudo, incluindo pequenas frações, o dust. Na segunda onda, entre 30 e 31 de julho, um ataque mais denso limpou 491 endereços, consolidando 398,4 BTC em uma única transação. A terceira onda, ainda em 31 de julho, foi a de maior impacto público: varreu 594,4 BTC de cerca de 500 carteiras do tipo single-signature em um intervalo impressionante de apenas 25 minutos. A quarta e última onda, entre 2 e 3 de agosto, adicionou mais 208 BTC extraídos de 1.912 endereços fragmentados, elevando o prejuízo ao teto atual.

Deixo aqui a minha solidariedade a todos que tiveram saldos perdidos. Devemos abordar essas situações como na aviação: entender as causas do acidente e criar protocolos que evitem esse tipo de risco. É preciso revisitar nossas premissas iniciais e compreender que o Bitcoin não negocia. É você e o protocolo. Bitcoin é sobre faça você mesmo, e quando se opta por uma UX mais polida e fácil, quando visualizamos o botão gerar suas palavras, estamos delegando a outro a criação da entropia. Foi exatamente esse o vetor desse ataque. Não podemos ficar falando que tem que ser fácil de usar para armazenar a riqueza de uma vida quando não estamos dispostos a fazer um procedimento que leva poucas horas. Tomar para si a propriedade e o controle sobre sua energia vital não é trivial, logo não deveríamos tratar como tal.

Não é tão diferente de fazer um filho: não dá para pedir para outra pessoa fazer para você. Se busca autonomia e liberdade, entenda que terá que passar por um processo que, sim, pode ser demorado e árduo, porém inescapável. Porém aqui está um ponto que muitos novatos confundem: as hardwallets não são cofres, são dispositivos de assinatura. As chaves não são exclusivas, elas pertencem ao universo, você apenas as encontrou aleatoriamente. E foi exatamente na geração dessa aleatoriedade que o roubo foi feito. O campo que deveria criar uma aleatoriedade digital era determinístico, e foi isso que o atacante percebeu e atacou: as chaves eram geradas a partir de data e horário.

É preciso ser preciso aqui: a falha não esteve no protocolo Bitcoin. O consenso, a prova de trabalho, as regras que milhares de nós validam a cada bloco, tudo isso permaneceu absolutamente intacto. A vulnerabilidade foi isolada a versões específicas de firmware da Coldcard, um problema de implementação de um fabricante, não uma fratura no sistema que ele deveria proteger. É exatamente essa distinção que separa quem entende Bitcoin de quem confunde o mapa com o território: o protocolo nunca falhou, um dispositivo falhou. Por isso a importância de gerar fisicamente a própria entropia, seja com dados, moedas, ou carros passando por você. O Bitcoin sempre será um convite ao faça você mesmo. Isso é insuportável para muitas pessoas.

Os esportes de aventura, como o rapel, nos emprestam procedimentos interessantes. Ao realizar uma descida, é indispensável a ancoragem, um setup bem feito, bons equipamentos, o freio, que é a passphrase, e sim, um backup, um setup reserva. Não é coincidência que a onda de maior impacto tenha varrido justamente carteiras single-signature: multisig existe exatamente para isso, para que a entropia comprometida de um único dispositivo nunca seja, sozinha, suficiente para mover os fundos.

Vale lembrar aqui algumas boas práticas diante de algumas situações reais. O primeiro é o caso do amigo Ojeda. Não somos engenheiros de obra pronta, vamos usar o episódio para aprendizado. Apesar de um único caso ter vindo à tona sobre perdas com uso de passphrase, o uso da mesma nos dá tempo, quando a seed é comprometida e o alarme toca, para entender a situação e verificar os próximos passos. Trate a passphrase como seu último guardião.

Há também o caso de fugir de um hack e cair em um scam. O usuário do X, Lunymoon13, tentou salvar o saldo de 6,06 BTC e caiu em uma carteira falsa listada na App Store. É muito importante termos definido o que vamos fazer em situação de emergência, para não termos que improvisar. Não se envia quantidades significativas de Bitcoin sem antes realizar uma transação teste de baixo valor. Favoritar os perfis e repositórios previamente verificados das wallets e serviços é muito útil nesses casos de estresse. Mais backups, como o amigo Fly diz, dois não são backup. Setups diferentes, verificados e validados, são as pistas de pouso mais próximas do seu aeroporto principal para literalmente aterrissar seu stack em segurança.

Quando se escolhe interagir com o protocolo Bitcoin, você está sozinho, por conta própria, algo que o caso canadense ilustrou bem, quando a reação de quem se via roubado foi procurar socorro exatamente à instituição da qual pretendia escapar. A conclusão mais pragmática de todas é simples: Bitcoin é a separação entre dinheiro e Estado, é preciso entender esse acordo. No fim, não adianta querer um dinheiro fora do Estado e chamá-lo no primeiro incidente. Infelizmente Jonathan Goodman teve 1,6 milhões de dólares drenados, cerca de 24 bitcoins, todos em um única arquitetura (Coldcard), o que nos leva ao conceito de engenharia onde grandes obras são separadas por blocos, para que, caso parte da estrutura colapse, não leve toda a estrutura ou uma parte maior. Ter setups, dispositivos e carteiras diferentes para quantidades maiores pode mitigar ataques e reduzir perdas.

Por fim, faço o que mais amo nessa jornada, que é correlacionar histórias. 1989, mundial de motovelocidade: o piloto Eddie Lawson perde os freios no final de uma longa reta, pois o mecânico havia esquecido de colocar os pinos de retenção das pastilhas de freio. Lawson, com habilidade, saiu da pista mantendo a moto em pé, evitando o que poderia ser uma tragédia.

Diz a lenda que ao retornar aos boxes, o chefe de equipe descobriu a falha e, furioso, foi demitir o mecânico imediatamente. Lawson interveio na mesma hora, impedindo a demissão com uma justificativa cirúrgica: não o demita, esse mecânico nunca mais vai cometer esse erro na vida. Depois desse incidente, Eddie Lawson ficou conhecido como Eddie Estável, terminando a temporada de 1989 como tetracampeão mundial.

Assim segue o Bitcoin, estável, nos entregando blocos a cada 10 minutos, sem gasto duplo, e acessível a quem queira. Somos o mecânico dessa história de paddock. Desejo que todos vocês encontrem forças e refaçam o caminho.

Vencemos no final.

Eddie Lawson #1 - Honda NSR500cc - World Champion 1989

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