Recebemos estímulos a uma velocidade de 8 bilhões de bits por segundo. Nosso filtro sensorial, por bem calibrado que esteja, só consegue captar 120 bits/segundo. Uma merreca1.
Chamamos essa “captura de estímulos” de atenção. A banda limitadíssima seria um bug ou uma feature?2
O que nos é dado é submetido ao segundo filtro, o conceitual. É ali que ligamos os pontos: percebemos relações entre os dados recebidos e deles com o que já é sabido. É do filtro conceitual que tiramos informações, “diferenças que fazem diferença”. Não custa repetir: “Informação é o que nos muda”3.
Da combinação dos diversos tipos de conhecimentos brotam os nossos contrapontos - respostas, reações ou reflexos - ao que o ambiente enviou. É a mesma base de onde extraímos os parâmetros - saberes e valores - que usamos para atualizar e calibrar os nossos filtros.
É curioso e incômodo perceber como a descrição de um processo natural pode soar tão artificial, mecânica; Sistemática? Vamos tentar uma abordagem mais soft.
Pense numa criança bem pequena. Coloque-a numa sala repleta de brinquedinhos e distrações. Deixe-a explorando. Perceba como cada mínima ação - um passo, o movimento dos olhos ou da cabeça - representa um giro completo no diagrama acima.
Olha lá o bebê encontrando um cubo pela primeira vez: Como pegá-lo? Por que parece ser mais difícil do que segurar uma bola? Qual é a melhor posição dos dedinhos? Por que ele escorregou? Onde posso encaixá-lo? Com o que ele combina? Cada movimento é um novo experimento e uma tentativa de adaptação. Os experimentos bem sucedidos tendem a ficar. A repetição tende a lapidar habilidades.
O mesmo Max Boisot que nos deu o ciclo de aprendizado acima elaborou, a quatro mãos com Bill McKelvey, o Espaço de Ashby4. Trata-se de uma releitura da famosa Lei de Ashby ou Lei da Variedade Requerida5.
Variedade é uma unidade de medida. Ela mede a complexidade potencial de um sistema. Quantas surpresas, quanta informação um sistema pode gerar? Quantos estados diferentes ele pode assumir?
Uma partida de futebol envolve o confronto de dois sistemas formados por 11 partes cada um. Cada parte desempenha uma ou mais funções dentro de um ambiente com fronteiras e regras fixas. Cada time tem um total de 55 relações ou links6. Taí uma estrutura que você acha que mapeia e marca com “um pé nas costas”. Até descobrir que essa mínima rede tem o potencial de gerar 36 quintilhões de padrões7.
Repito o pecado de abordar de forma calculista e fria um sistema orgânico e quente. É claro que esses números não vão ajudar ninguém a ganhar a copa do mundo. Mas eles precisam dar uma noção do que significa variedade.
Cada jogador é uma parte. É um nó numa rede, um data point. DADO.
Cada relação (link) entre os jogadores é INFORMAÇÃO.
A quantidade potencial de padrões (combinações de relações, estados) é VARIEDADE. O reconhecimento de padrões requer CONHECIMENTO8.
A Lei de Ashby proclama que “só variedade absorve variedade”. Se pretendemos sobreviver e prosperar, a variedade de nossas respostas precisa ser igual ou maior do que a variedade dos estímulos que recebemos. Boisot e McKelvey desenharam o desafio num gráfico de fácil entendimento, o Espaço de Ashby:
O quarto de círculo sugere os limites do nosso orçamento9. A seta diagonal fixa a evolução ideal. É curiosa, didática e muito bem vinda a semelhança do Espaço de Ashby com a forma como Mihaly Csikszentmihalyi apresenta sua obra prima, o Estado de Fluxo10.
A Lei de Ashby é universal. Vale para uma ameba assim como vale para a mais rica e poderosa organização do mundo.
Abstrato x Concreto, Teoria x Prática, Mapa x Território etc x …
Habitat x Memetat
O Cubo do Max
O espaço caótico é o marco zero da epidemia de burn-out e o sonho dos consultores new-age. Estratégia “galinha sem cabeça” é a dica do Boisot. Se vira!
O espaço ordenado é o paraíso das IAs e o departamento dos bullshit jobs. Corte. Automatize. Liberte os humanos11.
O espaço complexo requer aprendizagem e adaptação. Nada que a gente não tenha feito cotidianamente nos últimos 300 mil anos.
Jane, querida, tá abandonada? Fazendo o quê?
Rabiscando e pensando enquanto beberico meu Irish Coffee.
Bela pedida. Tá frio, né? Mas, diga, o que te incomoda?
A impossibilidade do Espaço do Ashby, apesar de toda simplicidade, ajudar a popularizar a Lei de Ashby.
Quanto pessimismo!
Querido, o artigo tem mais de 10 anos. Se não pegou até agora, não pega mais. Ah, e a lei tá completando 70 anos! E até hoje, para você ter uma ideia, ela só mereceu quatro traduções na Wikipedia.
Por que será?
Não consigo entender, não mesmo. Se ela afeta a todos, da ameba à megacorporação, como pode ser tão ignorada?
Na real, não creio que seja ignorada. Assim como ninguém que viveu antes de Newton ignorou a gravidade. Não tinham um nome pra coisa. Mas isso não os fazia pular de penhascos. Veja quanta gente fala e reclama da “complexidade” do mundo…
Reclamar não adianta.
É um começo. Pode ser uma boa oportunidade para puxar o assunto.
Querido, mal passamos do começo e o papo já cansou. Tem maluco inventando novas marcas, antrocomplexidade, e muito coach new-age vendendo dashboard quântico.
Você tá gastando tempo demais no LinkedIn…
Nada, tem semanas que não apareço lá. Tô a dois cliques de deletar minha conta.
E tem passado o tempo onde?
No novo livro do Hoverstadt, que tô lendo bem devagarinho. Tô gostando da onda do slow reading. É um belo e estranho atenuador de variedade. Ah, e tenho passado um tempinho aqui no Substack também. Você já viu o Roots of STEM?
Nop!
Querido, acredite: é um livraço de ciências - mais precisamente de Ciência Cognitiva - escrito a 2 ou 3 posts por semana. Já está no terceiro capítulo. Maravilhoso!
Ciência Cognitiva?
Só vou te dizer que não é “psicologia com tecnologia” nem nome novo pra disciplina velha. Para quem se interessa por aprendizagem e Pensamento Sistêmico, é um presente. De verdade. De graça!
Opa!
Um aperitivo: o autor trabalha com três frameworks. Um deles se chama Habitat-Memetat.
Hã?...
Tem um tempão que o PV usa uma matriz que tem Concreto ⇿ Abstrato em uma das dimensões. Lembra?
Como eu poderia esquecer?
Então… ele já trocou os nomes dos pólos do eixo horizontal algumas vezes. Já vimos Análise x Síntese, Compreensão x Criação e o atual Pesquisa⇿Ação. No eixo vertical ele nunca mexeu.
E daí?
Acho que agora ele vai ter que mexer…
A criação de desenhos para representar os diversos elementos de qualquer situação humana é uma característica da SSM desde o início. Sua lógica reside no fato de que a complexidade dos assuntos humanos é sempre uma complexidade de múltiplas relações interativas; e as imagens são um meio mais eficaz do que a prosa linear para expressar essas relações. As imagens podem ser apreciadas como um todo e ajudam a incentivar um pensamento holístico, em vez de reducionista, sobre uma situação.
-Peter Checkland12
A apreensão de quantidades absurdas de estímulos é tema recorrente em filmes de ficção pouco científica. Lucy (Luc Besson, 2014) e Sem Limites (Neil Burger, 2011) são exemplos recentes.
Famosa? Exagerei. Deveria ser, mas ainda não é nem citada na imensa maioria das escolas, faculdades etc. A lei foi descoberta pelo ciberneticista W.Ross Ashby e por isso carrega seu nome. Na Wikipedia. (Link recuperado em 28/5/26).
L = N(N-1)/2
L = links, relações
N = nós, partes ou pontos
P = Padrões
P = 2L
Quintilhão é o número seguido por 18 zeros.
Outra obviedade passável?
A analogia é muito feliz. Está ali toda a energia que temos para gastar.
Checkland morreu no último dia 17/5/26, aos 95 anos de idade.
Agora chega a notícia do falecimento de Edgar Morin. :(

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