Se a memória não me trai, houve um tempo em que “crise” dispensava sobrenome e maiores explicações. Quando alguém citava “A crise” todo mundo sabia sobre o que ela estava falando. Bons tempos monótonos.
“Estamos perdendo a lembrança do que significa estabilidade”,
reclamou Stafford Beer. Há décadas!
Do balaio da policrise pesquei lamentos do escritor e consultor holandês Jurgen Appelo1:
É quase como se eu não tivesse mais certeza de quem sou — uma crise de identidade profissional que eu não esperava nesta fase da minha carreira.
Você também se sente assim?
O mercado global de workshops ágeis evaporou. A maioria das conferências e empresas parou de pagar por palestras keynote (pelo menos na área de metodologias ágeis). E nem vamos falar da receita de direitos autorais de livros e cursos sobre metodologias ágeis, já que a maior parte do mundo migrou para vídeos do YouTube, sessões do Substack Live e cursos gratuitos de autoaprendizagem.
Você ainda é um facilitador de workshops quando não há workshops para facilitar?
Poucos dias antes, tropeçando no LinkedIn, me deparei com pedidos de cortar o coração. Vindo de gente bem formada, cheia de contatos e bons casos para mostrar.
Estou completando 40 anos de vida profissional. Perdi a conta das crises que enfrentei ou testemunhei. Mas nunca vi nada parecido com o que estamos vivendo. O que que a gente aprontou?
Ela estreou neste finito de forma tímida e envergonhada. Foi como uma sigla que montei para carimbar a mentalidade anti-sistêmica:
Mecanicista2
Eficientista
Reducionista
Determinista
Arrogante
Brincadeira boba. Só porque temos certo pudor em usar a palavra MERDA. Na América de cima tem shit pra todo lado. Na América do Sol a evitamos. É uma pena. Porque desperdiçamos uma metáfora que costuma ser bastante eficaz.
Cory Doctorow lançou Enshittification: Why Everything Suddenly Got Worse and What to Do About It3 (Merdificação: por que tudo piorou de repente e o que pode ser feito). O termo enshittification foi usado originalmente para falar das redes antissociais. Cory espalhou.
Bullshit é um termo mais antigo e corriqueiro. A definição oficial vem do RationalWiki4:
Bullshit (também conhecida como bollocks no Reino Unido), frequentemente abreviada para BS, é um disparate sem sentido, ou palavras sem qualquer conexão com a realidade. A bullshit pode ser usada como meio de confundir ou simplesmente como uma forma de passar o tempo ou encher linguiça em uma página. Há muita bullshit por aí, e geralmente indica que alguém está tentando enganar e/ou não sabe do que está falando.
Bullshit ganhou notoriedade ao virar tese de filósofo sério: On Bullshit5, de Harry Frankfurt. Subiu no ranking das preocupações do século e virou curso na Universidade de Washington, Calling Bullshit6. Sua gravidade foi capturada pelo italiano Alberto Brandolini em lei que leva seu nome7:
A quantidade de energia necessária para refutar uma bullshit é uma ordem de grandeza maior do que a que foi necessária para produzi-la.
Bullshit não é apenas uma mentira:
“Bullshitting” é, de certo modo, uma forma de arte. Não é exatamente mentir, porque, quando se está fazendo “bullshit”, você pode realmente estar dizendo a verdade de uma forma totalmente distorcida ou inútil. Ou pode simplesmente estar dizendo nada.
A tradução para o espanhol dá ideias para uma necessária versão brasileira: charlataneria.
Dia desses eu sugeri uma navalha para cortar a lenga lenga frou frou8. Mal sabia que estava prestes a ganhar não uma navalha mas um facão afiadíssimo. Shane Littrel, da Universidade de Cornell, publicou no mesmo fevereiro a pesquisa The Corporate Bullshit Receptivity Scale: Development, validation, and associations with workplace outcomes9 (Escala de Receptividade às Bullshits Corporativas: Desenvolvimento, validação e associações com resultados no ambiente de trabalho). Um dos principais achados foi devidamente jogado no ventilador:
Essencialmente, os funcionários mais entusiasmados e inspirados pelo jargão corporativo ‘visionário’ podem ser os menos preparados para tomar decisões eficazes e práticas para suas empresas.
A Inc. foi mais crua10:
Pessoas que adoram BS corporativa são ruins no que fazem.
Não chega a ser uma surpresa. Mas o fato da descoberta ser fruto de pesquisa científica nos dá mais e melhores argumentos para combater a merdificação em nossas organizações e na sociedade de uma maneira geral.
E assim, organicamente, o Facão do Mario11 vai ganhando forma:
Quem gosta de ouvir e/ou falar merda (corporativa) geralmente faz merda (no trabalho).
ou, simplesmente
Pessoas que adoram BS são ruins no que fazem.
O nosso kit de primeiros socorros para tempos estranhos e enshitificados já conta com as navalhas de Occam, Hanlon, Caetano, Taleb e outros. Agora ele ganha o Facão do Mario. Você conhece o Mario?
Estou falando de Mario Bunge, Físico e Filósofo argentino que tinha paciência zero para bullshits e uma extensa obra que merece ser mais conhecida e debatida12.
Evite palavras que não consigam transmitir ideias claras: a obscuridade não é sinal de profundidade, mas de confusão ou até mesmo de fraude intelectual. Quanto às ideias vagas — todas as ideias são vagas quando nascem —, tente refiná-las.
-Mario Bunge13
Como a sigla segue em versão beta, sinto-me à vontade com a indecisão sobre o melhor M: Maniqueísta, Mecanicista ou Medíocre? Na dúvida, por que não ficar com os três entendimentos?
A Lei de Brandolini também é conhecida como Princípio da Assimetria das Bullshits.
Convenhamos, é só um jeito frou frou de referenciar bullshits.
Littrell, S. (2026). The Corporate Bullshit Receptivity Scale: Development, validation, and associations with workplace outcomes. Personality and Individual Differences, 255, 113699. https://doi.org/10.1016/j.paid.2026.113699
Eu pretendia chamar de Navalha do Sokal. Mas, convenhamos, o Facão do Mario impõe mais respeito.

Comments
Nothing yet. Say the first thing.
Sign in to join the conversation.