Voltei hoje do evento presencial THE WAY na Chapada dos Veadeiros. Foram dias intensos, transformadores, cheios de conversas profundas, silêncio contemplativo e conexão genuína com mulheres excepcionais. Voltei diferente. Voltamos todas diferentes — com a bússola recalibrada, prontas para encarar os próximos meses com mais sabedoria e discernimento.
E é exatamente sobre esse discernimento que quero conversar com você hoje.
Você já parou para pensar em quantas decisões profissionais você adia porque não consegue responder a uma pergunta simples: como faço para ter ambição profissional sem sacrificar o que realmente importa na minha vida?
Essa é a pergunta que mais ouço. E ela vem em diferentes formas:
“Como mudo de carreira sem deixar de lado o tempo com meus filhos?”
“Como aumento meu faturamento sem virar escrava do trabalho?”
“Como me mantenho relevante em uma era em que a IA está mudando tudo?”
“Como decido se devo aceitar aquela promoção que me afastaria da minha família?”
“Como descubro meu verdadeiro talento e trabalho com aquilo, em vez de fazer o que a sociedade espera de mim?”
Essas perguntas não têm respostas prontas. Cada pessoa tem uma vida diferente, prioridades diferentes, circunstâncias diferentes. Mas a maioria das pessoas não consegue responder essas perguntas porque nunca pararam para realmente pensar sobre elas.
Ficam presas em um ciclo de reatividade. Acordam, trabalham, cuidam das responsabilidades, dormem, e repetem. Nunca param para questionar: é isso que eu quero? É assim que eu quero viver? Qual é meu verdadeiro talento? O que eu estou disposto a sacrificar? O que eu não estou disposto a sacrificar, de forma alguma?
E enquanto isso, o mundo está mudando. A inteligência artificial está revolucionando profissões. Muitas pessoas estão com dúvidas existenciais sobre suas carreiras: será que meu trabalho vai ser automatizado? Como me preparo? Que carreira escolher? Como não ficar para trás?
É um estado de paralisia. E essa paralisia custa caro.
Minha formação original é como cientista. Sou bióloga e tenho mestrado em zoologia. Venho, portanto, da área de ciência e tecnologia. E, por interesse próprio, há mais de uma década estou estudando inteligência artificial. Fui uma das primeiras pessoas no Brasil a alertar publicamente para a necessidade de nos prepararmos — da forma mais humana possível — para os desafios que a IA nos apresenta.
Mas não é só teoria. Eu vivo isso na prática.
Tive três carreiras completamente diferentes. Cada uma foi uma decisão consciente. Não foram mudanças por acaso ou por fuga de problemas. Foram mudanças estratégicas, alinhadas com minhas prioridades de vida naquele momento.
Fui cientista porque queria entender o mundo. Depois mudei para moda e design porque queria criar, comunicar visualmente, deixar a minha marca no mundo. Depois mudei para educação porque queria transformar pessoas. E em cada transição, eu já tinha filhos. Eu tinha responsabilidades. Eu tinha uma vida pessoal que não podia ser sacrificada.
Então, quando criei minha empresa de educação, eu já sabia exatamente o que queria. Não queria uma empresa que me escravizasse. Queria uma empresa que me permitisse viver a vida que eu desejava — com tempo para meus filhos, tempo para estudar, tempo para contemplar, tempo para criar. Óbvio que no início, precisei trabalhar muito (às vezes, 12 ou 13 horas por dia), mas eu sabia que aquilo seria por um tempo, até que eu conseguisse colocar a empresa para rodar sem depender tanto de mim.
E funcionou. No primeiro ano de empresa, faturei meu primeiro milhão. Mas aqui está o ponto: chegou um momento em que eu percebi que o ritmo de trabalho, mesmo sendo bem-sucedido, estava me afastando do que era mais importante. Então eu desacelerei. Deliberadamente.
Porque eu tinha feito a escolha consciente de que o estilo de vida que eu queria construir não era incompatível com minha vida pessoal. Eu não queria ser uma empreendedora que sacrifica tudo pelo negócio. Eu queria ser uma empreendedora que cria um negócio que alimenta a vida que eu quero viver.
Isso exigiu discernimento. Exigiu decisões difíceis. Exigiu dizer não a oportunidades que pareciam incríveis. Exigiu priorizar.
Aqui está o meu ponto principal desta reflexão semanal: discernimento é a habilidade mais valiosa que você pode desenvolver em um momento como este.
Discernimento é a capacidade de olhar para uma situação e entender o que realmente está em jogo. É conseguir ver além da superfície. É ter critério para decidir.
E isso envolve muitas perguntas difíceis:
Sobre seus talentos: Quais são minhas zonas de potência? Em que eu sou verdadeiramente bom? O que eu faço naturalmente bem, sem ter que forçar a barra?
Sobre valor: Como entregar mais valor aos meus clientes em uma era em que a IA está entregando valor massivo para qualquer pessoa que tenha um celular na mão? Como não ser substituído? Como ser insubstituível?
Sobre inovação: Como não me assustar com as inovações que estão acontecendo? Como fazer bom uso da IA em vez de ser vítima dela?
Sobre dinheiro: Quanto eu quero ganhar? Quanto devo cobrar pelo meu trabalho? Qual é o valor real do que eu entrego?
Sobre relacionamentos: Com quem eu quero trabalhar? Quais são os meus clientes ideais? Com quem eu devo gastar energia e com quem eu não deveria gastar?
Sobre sacrifício: O que eu estou disposto a sacrificar para alcançar meus objetivos? E, mais importante, o que eu NÃO estou disposto a sacrificar, de forma alguma?
Sobre ritmo: Quando é hora de acelerar? Quando é hora de puxar o freio? Como reconhecer esses momentos?
Essas perguntas não têm respostas universais. Mas quando você as responde com honestidade, tudo muda. Você deixa de viver no piloto automático e começa a viver sabendo exatamente o que e por que precisa ser feito.
Minha prática é simples, mas exigente. Toda decisão profissional que eu tomo passa por um filtro:
Primeiro: Isso está alinhado com meus valores? Com a vida que eu quero viver?
Segundo: Isso me permite estar presente nas coisas que importam? Tempo com meus filhos, tempo para estudar, tempo para contemplar?
Terceiro: Isso me torna mais humana, mais sábia, mais insubstituível? Ou me torna mais escrava, mais reativa, mais substituível?
Quarto: Isso é sustentável? Consigo manter isso por anos sem ter um burnout?
Se a resposta for sim para essas quatro perguntas, eu sigo em frente. Se for não para qualquer uma delas, eu recuso. Mesmo que pareça uma oportunidade incrível.
Isso me custou oportunidades. Mas me poupou de muito sofrimento.
Se você está naquele lugar em que eu estava várias vezes — com dúvidas sobre sua carreira, sobre como conciliar ambição profissional com vida pessoal, sobre como se preparar para um mundo que está mudando rapidamente — você não precisa ficar nesse estado de paralisia.
Você precisa de alguém que já fez essas escolhas muitas vezes. Que entende os dilemas porque os vive na prática. Que pode ajudar você a pensar com clareza sobre o que realmente importa.
E aqui está a verdade: a maioria das pessoas sabe o que fazer. O problema é que elas têm medo de fazer. Têm medo de decidir. Têm medo de sacrificar certas coisas. Têm medo de dizer não.
E é aí que entra o discernimento. Não é medo. É sabedoria. É saber exatamente por que você está fazendo o que está fazendo.
Se você é alguém que conquistou sucesso profissional mas está com dúvidas sobre como continuar crescendo sem sacrificar o que realmente importa — você precisa de mais do que motivação. Você precisa de orientação estratégica, de alguém que entenda os dilemas porque vive eles.
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Até a próxima semana.
Letícia Cazarre
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