sim, Elena Ferrante não me deixa dormir. comecei a ler, vagarosamente, o Frantumaglia, livro que reune entrevistas, artigos, textos de Ferrante. ela reflete, assim, seu processo de escrita — mas como é Ferrante, são incontáveis palavras sobre seu anonimato, suas justificativas, sua patente irritação nas respostas das questões. leio vagarosamente porque tive de parar para ler os dois primeiros livros dela, Amor Incômodo e Dias de Abandono. agora só falta uma ficção de Ferrante para eu zerá-la, e essa eu vou guardar por um tempo.
se por um tempo ter lido sua ficção e, no meio, o que ela escreveu acerca dela na época — principalmente sobre as adaptações para o cinema, tema que Elena se entrega com paixão, e sem medo de hierarquizar as linguagens, escritora que é —, agora me resta a tortuosa saga do enigma Ferrante, da caça ao tesouro com as pistas escritas por ela mesma. é quase como, lembro-me subitamente, aqueles livrinhos infanto-juvenis de suspense que tinham pistas para solucionar o mistério (que eu, claro, amava). mas, ora, você, fã de Ferrante ou de fofoca, poderia me dizer: já sabemos quem é Ferrante, é Anita Raja, tradutora do alemão e esposa de Domenico Starnone, de quem já outrora se desconfiou ser Ferrante.
ser Ferrante. sem dúvida só de escrever isso, o que é ser Ferrante?, levanta inúmeras questões. ser Ferrante, cheguei a pensar cafonamente, pode ser eu, pode ser você. em uma das últimas coisas que li em Frantumaglia, Ferrante fala sobre o livro que lemos quando lemos um livro, ou seja, o livro que o leitor lê sempre é diferente do livro que o escritor escreve, e cada livro que cada leitor lê é diferente — ela usa das adaptações para ilustrar sua idéia, o que um cineasta lê num livro e transforma num filme revela do livro que ele leu, e que não pode ser, igualmente, o livro que eu e você lemos ou o livro que se escreveu, de repente, aí está, mais uma para a lista das controvérsias da adaptação (adaptacão foi um dos temas do meu mestrado, então perdoe-me a insistência no assunto). para Ferrante, no livro se inscreve um livro imaginário, o livro do leitor. Ferrante como um pseudônimo, ou seja, uma casca vazia, talvez, queira nos dizer isso: posso eu mesma ser-Ferrante. numa sessão de análise há pouco tempo, eu disse à minha analista que gostava de ler Ferrante quando me sentia empacada — Elena me recobra a autoestima, pois para escrever não é necessário ter nascido Flaubert ou Virginia Woolf (ou Joyce ou Guimarães Rosa). embora o tom revele um pouco demais de mim mesma — é impossível continuar a escrever, veja bem, se a gente só pensa nas mentes geniais e nas obras primorosas, irretocáveis, impossíveis — agora vejo a frase como sintoma de outra coisa: de que, sem saber quem é Ferrante, eu posso me sentir autorizada a ser-Ferrante, ou seja, a sentir-me autora — ou co-autora — daquele texto que leio. Elena revela que ela mesma lê assim: que gosta de ler livros imaginando-se escritora daquelas palavras, e diz isto num texto sobre… Flaubert! e nós sabemos o que fez de Flaubert Flaubert; ao menos, toda a parafernália biográfica e crítica nos ensinou como viveu e como escreveu Flaubert. eu também, ao me perguntar sobre um eu-feminino que desconfiei antever na obra de Flaubert, fui buscar a sua biografia nessa newsletter.
Elena, diversas vezes, debocha dos leitores que necessitam saber sobre o autor — seu rosto, sua biografia —, dessa curiosidade mórbida dos leitores que avançam sobre a vida pessoal dos autores. sinto-me acuada — mordida no canto da minha cama. até houve algum tempo que eu li ao léu — lia os livros que tinha na casa dos meus avós, os livros que encontrava a esmo nos sebos, os indicados pela escola, sem me importar com os nomes, os rostos dos autores — mas durou pouco. desde que meu desejo de ser escritora instalou-se em definitivo (a bem da verdade, ele sempre existiu, mas há uma linha que divide a infância e a adolescência da urgência da chegada da vida adulta, perto dos 17 anos, do ano do vestibular), parece-me que o autor ganhou irreversível centralidade em minhas leituras. retorno à Hilda Hilst. sempre retornarei à Hilda Hilst. pois descobri Hilda Hilst por acaso — ao léu — na biblioteca municipal de Campinas. lembro-me de nichos brancos onde um adesivo preto com letras brancas dizia Hilda Hilst e uma porção de livros finos — da editora Globo. lembro-me de pegar um deles. aqui, dois despertares: um, a do gênero, eu finalmente entendia que era preciso buscar ler mulheres ativamente, pois as escritoras não nos apareciam, assim, tão magicamente quanto os homens. depois, a curta biografia da contracapa: ali dizia que Hilda Hilst tinha ido morar em Campinas e permaneceu até a morte. duas coisas me aproximavam de Hilda Hilst, era mulher, viveu em Campinas — e era escritora, tinha uma porção de livros um lugar de destaque naquela biblioteca. o que quero dizer é que — não há manual para ser escritor, não há um curso específico (bem, hoje em dia até tem umas pós), na época não existiam oficinas de escrita criativa — e então, fiquei obcecada pela vida pessoal dos autores. pareceu-me que é a partir da vida deles, de uma certa ordem de circunstâncias e traumas (Hilda tinha o pai poeta e louco, tinha essa chácara em Campinas onde cuidou de 40 cachorros e tentava ouvir a voz dos mortos através dos gravadores), que é possível tornar-se escritora. veja bem, não escrever. ser escritora. ter seu nome nas prateleiras da biblioteca.
nunca consegui me libertar dessa ânsia pela biografia dos autores. deparando-me com os questionamentos de Elena Ferrante, talvez nós falemos tanto da vida dos escritores para fugir ou evitar falar sobre a matéria literária, aquilo que constitui a obra. ou talvez porque não saibamos — eu, no caso, não sei — falar de literatura. talvez falar de literatura seja muito difícil, como diz Ferrante, porque estamos falando não do livro de certo autor, mas o nosso livro, o livro que escrevemos ao lermos o outro, e este livro diz muito — muito! — sempre muito sobre nós mesmos. para falar da matéria literária — não da forma, nem do autor — é preciso confessar a si mesmo. ocorre-me que, talvez, aqueles que só falem da forma também estejam fugindo, de uma maneira mais sofisticada — não posso afirmar, porque não sou esse tipo de leitora —, da confissão do seu próprio livro.
é em meio a tudo isso que entrego-me a delírios, que nunca tive enquanto lia a Tetratralogia Napolitana, de quem é Elena Ferrante. por quê escreve assim Elena Ferrante. quem lhe deu o direito de ser Elena Ferrante. ah sim! pois quando surgiu Ferrante em minha vida, perto, acho, de quando precisava divulgar o meu livro no meu instagram, eu a compreendi muito bem. que delícia, pensava, dissociar a sua própria pessoa da sua obra. que delícia se imiscuir de ter botar sua cara e fazer posts e mais posts para tentar vender seu livro. Ferrante fala dessa obsessão com a autoria desde muito antes da invenção do instagram — mas veja bem — o buraco só se aprofunda. desde, digamos, da invenção do autor (segundo Foucault, no fim do século XVII) estamos caminhando dentro de um insuportável labirinto espelhado em que a noção de autor só ganha mais e mais força. é o instagram, é o autor que precisa ser influencier e presente nas redes, é a autoficção, é doar a sua história pessoal em troca de algum sucesso literário. hoje em dia, doa-se tudo de si mesma — sua imagem, sua voz, suas opiniões, sua história pessoal — para tentar despertar o interesse das pessoas — doa-se para poder vender alguma coisinha. no nosso tempo, o culto à personalidade parece ter chegado às raias atmosféricas — depois disso, não sei mais o que há (o vazio, talvez). ora, Ferrante para mim tornou-se, naquela época, uma ídola. mas eu me perguntava, ingênua, tantas coisas: como pode-se alcançar algum sucesso no anonimato? — as editoras, em seus contratos, exigiam que os autores promovessem seus livros, ao menos em 2020; sim, há cláusulas que dizem que é seu dever promover o livro publicado. quando Anita Raja foi apontada como possível Elena Ferrante — eu compreendi. ora, é claro. Anita Raja é uma importante tradutora. seu marido é um importante escritor. Elena Ferrante tem nas mãos — mesmo se não for Anita — as condições ideais para ser anônima. a sua editora italiana bota maior fé nela, não parece nunca desrespeitá-la pelas cartas. Elena Ferrante já tinha certo status quando decidiu ser-Elena Ferrante. ela diz que lhe interessa que os leitores ocupem-se da qualidade literária do texto — que se o texto for ruim, o livro não se venderá e fim!, mas se for bom, sustenta-se. aqui, acho-a um pouco cega. revela, ao menos, em qual classe social se move, seu europeísmo. ela cita constantemente Homero e Shakespeare — dois autores da qual sabe-se nada da vida pessoal e que, bem, são literalmente HOMERO e SHAKESPEARE —, há aqui uma curiosa presunção. Elena Ferrante olhou-se no espelho e decidiu que faria como Homero.
mas Homero provavelmente não existiu — ou até existiu, mas com certeza não foi autor, na nossa acepção de autoria, de A Ilíada e a Odisseia. a autoria é provavelmente coletiva, interpretada pelos rapsodos, com mistura de fragmentos de histórias do “Oriente”, e etc. (e há quem diga que Shakespeare também não existiu como um-só). aqui, encontro de novo minha obsessão. será que Elena é, na verdade, mais de uma pessoa? no começo de Frantumaglia, comecei a desconfiar do gênero de Ferrante. sempre achei desprezível essa hipótese, mas de repente, tudo me pareceu possível. a minha pista era o ano de nascimento. sim — pois não é só o rosto ou o nome verdadeiro que nos é vedado, mas também a data de seu nascimento, e claro, o seu signo, o seu mapa astral. na Wikipedia, diz que Elena Ferrante nasceu em 5 de Abril de 1943. Anita Raja nasceu em 5 de abril de 1953, e Domenico Starnone em 15 de fevereiro de 1943. a data de nascimento de Ferrante é, pois, uma mistura das datas do casal. porém, esse 5 de abril é mais duvidoso que o ano. nas bibliografias acadêmicas (e por isso sérias) coloca-se como Ferrante nascida em 1943. perturbou-me que Anita Raja tenha escolhido o ano que seria para sempre lembrada como o ano de nascimento de Domenico. 10 anos exatamente os separam. não conseguia acreditar que ela poderia ter se destituído disso, dessa parte tão elementar da existência, a idade. então, pensei, Elena Ferrante é Domenico? sempre acreditei que poderia ser o casal. desenvolvi teorias. pensei em transsexualidade, pensei se Elena é uma mulher dentro de um corpo de um homem. lembrei de Virginia Woolf dizendo que a mente de um grande escritor é andrógina — nem feminina nem masculina ou feminina e masculina. cogitei se Elena Ferrante, finalmente, colocava abaixo nossas convenções de gênero — das mais conservadoras às mais feministas — e inoculava a androginia essencial da escrita da qual falava Woolf. em uma das entrevistas, Ferrante acha graça quando lhe dizem que alguns pensam que ela é um homem gay. sua graça não é irônica, parece realmente divertida. Elena Ferrante é a epítome do queer? delirei. e tudo que eu tinha era a data do nascimento, mas mais tarde, também houve as supostas mentiras de sua biografia.
Em Frantumaglia, Ferrante responde com páginas e mais páginas a duas entrevistadoras com detalhes muito precisos, muito pessoais sobre a sua vida. com certeza, esse é um texto essencial, se você interessa-se por processo criativo. não só fala da sua mãe, da sua irmã, de Nápoles, como mostra trechos longuíssimos descartados de seus livros, e porquê os eliminou. verdadeiro deleite, em que ela resolveu ser muito atenciosa com as entrevistadoras pela primeira vez, e parece nos dar tudo aquilo que esperávamos. ela fala que sua mãe era costureira, em Nápoles, que de lá se mudou quando teve oportunidade, de como Nápoles se mostrou inteira à ela quando perdeu-se em suas ruas, de mãos dadas com a sua irmã. fala do ódio e da culpa da sua irmã mais nova, do desejo e ciúme que sentia pela mãe. detalha memórias de quando criança, sentada debaixo da máquina de costura, colhendo e lambendo os retalhos de tecidos que caíam embaixo da mesa. tudo escrito com cheiros, sabores, texturas, sonoridades. seria, talvez, a definitiva biografia de Elena Ferrante se um jornalista italiano não estragasse a sua brincadeira. como em The Wire (e nas operações bem-sucedidas da PF, como aquela do PCC), Claudio Gatti seguiu a trilha do dinheiro e descobriu que Anita Raja e Domenico receberam quantias enormes de dinheiro na mesma época que os livros de Ferrante foram adaptados. falou que adquiriram também um apartamento de 8 cômodos ou coisa assim. talvez ele tenha entendido algo substancial: no nosso mundo, a única coisa que não se pode realmente apagar, é o dinheiro; o lastro do dinheiro nas declarações de imposto; as propriedades e suas escrituras lavradas. se a autoria, de novo segundo Foucault, estabelece a propriedade na literatura — o nome de um autor liga-o àquele texto, tanto garantindo direitos que criaram a noção de plágio, inexistente até então, quanto à possibilidade de responder por aquilo que escreve e ser julgado (como Flaubert! de novo). Ferrante conseguiu desvencilhar-se do peso da autoria, mas não da propriedade. esse poder tão arraigado no solo capitalista, e em nós mesmos, foi o seu calcanhar de Aquiles.
assim, descobre-se que a autora é Anita Raja: filha de uma judia sobrevivente do Holocausto que foi parar em Nápoles, casou-se, e teve Anita como filha, que morou em Nápoles só até três anos, pois mudaram-se para Roma. sua mãe era professora de alemão, não costureira. Anita é filha única. as histórias da infância de Ferrante, tantas memórias tão deliciosamente escritas e entregues de bandeja, não correspondem, então, à verdade. mas existe mesmo verdade e etc, perguntas retóricas — Ferrante avisa que muito lhe interessa quando Italo Calvino dizia que mentia em todas as entrevistas. mentir é um ato de criação. criar é mentir. ora, na teoria tudo é fácil. o que eu senti, na verdade, foi uma traição de Ferrante: enganou-me assim e por quê? fez-me acreditar que somos iguais com essas histórias, assim, por quê? então, pesquisei a biografia de Domenico que, segundo Gatti, era chamado de Nino na infância. ele sim, tem mãe e pai napolitanos e três irmãos. seu pai era poeta e ferroviário, como o pai de Nino na Tetralogia e um pouco como o pai de Delia em Amor Incômodo. sua mãe era costureira. sim, a mãe, a maternidade — tão crucial para as obras de Elena Ferrante — não é, inteiramente, a sua própria mãe, mas um pouco a mãe de Domenico. acredito que há aí um entrelaçamento de memórias e conversas tão maravilhosamente intricados — costurados. são os retalhos que Elena Ferrante recolhe debaixo da mesa para criar uma nova roupa, uma outra roupa, que não seja nem sua mãe nem a mãe de seu marido, mas uma nova mãe. como a roupa-fantasma que Delia encontra no fim de Amor Incômodo. a máquina de costura da mãe costureira talvez seja a máquina de escrever da mãe professora — a ideia de tecer, textos e tecidos, está intimamente ligada desde os primórdios da literatura. como em As Mil e Uma Noites: Sheherazade tece, a cada noite, suas palavras infinitas, desdobradas em mil e uma narrativas, que adia a sua morte e a morte das outras mulheres, como diz Werneck. como o fio de Ariadne e o fio de Perséfone. na mão das mulheres, tecer e contar narrativas igualam-se, como a Filomena de Teseu que, arrancada da sua capacidade de falar, tece num bordado a violência sofrida por seu cunhado. eu mesma sinto um chamado em torno da metáfora e da atividade da costura — o último conto de Noturna é sobre uma costureira, no meu livro que nunca termino, uma mulher descobre o desejo por outra mulher enquanto a costureira tira suas medidas. e não, ninguém da minha família costura. eu não tenho sequer a imagem de uma vózinha segurando agulhas de tricô.
Ferrante diz que todas as pistas de quem ela é estão nos seus textos — e no fim, é verdade. mas que excruciante persegui-la por esses labirintos. nessa busca, sinto-me mais obcecada por saber quem é de fato Ferrante do que qualquer outro autor que gostei. um efeito reverso das suas intenções, que persigo sob a culpa das palavras de Ferrante que diz gostar de leitores que não se importam com o autor, noite adentro. é uma da manhã e me reviro na cama com as possibilidades nunca esgotadas, com as centenas de vezes que acessei os links da Wikipedia de Elena, Anita, Domenico. e também, da filha deles, Viola Starnone.
nessa mesma coleção de textos, Ferrante fala sobre a Eneida, trabalho central na obra dela. fala de Dido, e de uma cidade construída por mulheres. discorre sobre essa cidade construída por mulheres — porque nenhuma cidade, jamais, foi construída por mulheres, quando muito pode ter sido reformada, mas sob os parâmetros e as estruturas das cidades dos homens. penso se Elena Ferrante é uma cidade de mulheres. isso porque Elena diz que voltou à Nápoles por alguns meses e pensou em escrever um livro que fosse “uma comunidade de mulheres atuais que escreviam a uma Ariadne atual, uma estrangeira abandonada, cartas de amor consoladoras (…)”. este seria um grupo de mulheres que se esforçam para fingir o léxico de um amante, um homem, para esta estrangeira — aí, mais uma vez, algo da androginia se insinua. um coletivo de escritoras — a irmã de Domenico? pesquiso, não ele não tem irmãs, só irmãos. uma prima que deseja o total desconhecimento. uma tia. uma amiga. ah sim — uma amiga genial, uma Lila. há uma Lila junto de Elena? não sei. sei que nesse longo trecho Elena fala de Dido, mulher que quis construir uma cidade e que foi abandonada, acaba desembocando na relação entre mãe e filha que os dois livros exploram. Elena confessa, como a sua personagem Delia, o ciúme da sedução que sua mãe emanava, ela que fazia para si roupas de estrela de cinema, e as usava fora de casa, longe dela, da pequena Elena, que só podia imaginar o que a sua mãe fazia sozinha com a sua beleza, exposta ao mundo; enquanto, em casa, usava as roupas remendadas e velha de costureira — mas que ali, ela diz, vê a verdadeira beleza da mãe — uma beleza não-fabricada, maquiada. é aqui que chego em Viola Starnone. na minha leitura febril e noturna, pensei ter lido que Elena relacionava a imagem da mãe, esse desejo-ciúme da filha em relação à mãe, exatamente como um artigo que Viola Starnone escreveu. a filha de Anita de Raja e Domenico Starnone fez Escola Normal de Pisa, como Lenù, tem hoje 40 anos e alguns artigos publicados sobre a Eneida — uma mistura, pensei, de Lenù com Pietro. o artigo dela se chama, simplesmente, VIRGIL AND THE MATRIX ON LOVE (datado de 2021), que começa assim:
Este artigo aborda um tema virgiliano que tem sido negligenciado — talvez de forma reveladora — pelos estudiosos: o amor materno como matriz do amor erótico. Como veremos, o desenvolvimento da personagem Vênus em Virgílio — um dos pilares fundamentais na representação do corpo materno sob uma ótica edipiana — acaba por inquietar os leitores (predominantemente homens) ao longo do tempo. Isso se deve a uma espécie de curto-circuito entre o sistema patriarcal e a memória demonizada do matriarcado. Por um lado, Virgílio retrata a deusa precisamente em seu papel augustano de *genetrix* de Eneias. Por meio dela, o poeta estabelece uma das mais poderosas encenações da incorporação da mãe na ordem simbólica do Pai; Vênus, de fato, utiliza seu imenso poder para submeter Dido — figura de uma filha simbólica — aos interesses de seu filho homem: ao estimulá-la por meio do amor reprodutivo — o Amor disfarça-se de filho de Eneias ao desencadear o veneno da paixão —, a deusa isola Dido de quaisquer genealogias simbólicas, conduzindo-a à morte.ora, se eu não pirei? Viola Starnone tinha juntado, um mais um, as obsessões de Elena Ferrante numa enebriante conclusão: o amor materno como matriz do amor erótico. meu deus!, passou-me um veloz pensamento sem fôlego, Elena Ferrante é Viola Starnone? impossível: Viola nasceu em 85. esse texto de Ferrante é de 2003; Viola tinha apenas 18 anos. procurei no artigo qualquer menção à Ferrante ou Raja; claro, não há. o que há é Kristeva, Irigay, todas que Ferrante provavelmente leu, e principalmente Adriana Cavarero - filósofa italiana que também li no mestrado. eis aí a comunidade imaginada de mulheres, entrelaçadas tal qual retalhos. talvez Elena Ferrante — aqui, sendo bastante presunçosa — seria nossa Homero feminina, multidão de visões entrelaçadas e interpretadas por muitas vozes, formando um todo coeso pelas mãos costureiras de uma escritora que, ao invés de ofuscar as suas referências, as conversas com o seu marido e na lida com as tarefas de sua filha, mescla-as sem a necessidade de imprimir um estilo literário marcado. de qualquer maneira, Elena Ferrante parece sempre irritada quando dizem que ela é um homem, e também defende seus livros com unhas e dentes, meus livros, ela diz, como diria Lenù, caso alguém a acusasse de roubar as ideias de Lila. mas é somente na virtualidade das palavras — desvocalizada — que se sustenta essa ideia de Ferrante. Homero era cantado pelos rapsodos, e Shakespeare era declamado pelos atores. filha do século XX, talvez à Ferrante tenha restado o cinema, em que vozes e corpos dos atores encarnam palavras, os cenários descritos podem enfim ser como são, Nápoles e a materialidade que uma imagem — apesar de virtual, manipulável — é capaz de indexicalizar. a adaptação é a dissipação da autoria e ao mesmo tempo o reforço dela (se for boa). assunto longo, espinhoso, quem sabe um dia retorno à ele aqui, falando da batalha mortal e também edipiana que se instaura nesse processo.
por fim, ontem finalmente aceitei que Elena Ferrante é Anita Raja — veremos se isso dura. não é um jornalista que me fará aceitá-lo, é preciso que eu vença essa caça ao tesouro sozinha, com as minhas próprias armas, que no processo eu tenha não só perdoado Elena Ferrante, mas passado a admirá-la ainda mais por fazer da autobiografia um trabalho ficcional — e como toda ficção, emprestada da vida —, embaralhando todas as noções. talvez algo que Virginia esperava que fosse Orlando, na biografia de sua Vita — mas que sujeita ao seu estilo autoral e à narração, tornou-se outra coisa. li, por fim, um perfil que Claudio Gatti fez da mãe verdadeira de Anita Raja, Golda Frieda Petzenbaum. Golda Frieda tem uma história impressionante — sua família foge da Polônia durante o nazismo para a Itália, mas seus pais terminam no campo de concentração de Mussolini, só que ela consegue fugir a pé e sozinha, com 18 anos, para a Suiça. toda sua família fora dizimada. volta à Itália quando pode, estabelece-se em Nápoles, casa. morre em 1986, um ano depois que nasce Viola, sua neta. lembrei-me da belíssima, dolorosa morte da mãe de Lenù que consegue, ainda, segurar a netinha com o seu nome nos braços.
nome.
numa curta resposta à um leitor em Frantumaglia, Elena diz que seu nome é o mesmo de sua bisavó, que morreu há tanto tempo que já é uma personagem fictícia também. qual nome, sobressaltei-me? o verdadeiro, o falso? da parte da mãe, judia e alemã, ou do pai, napolitana? e dei início a mais uma das incursões na internet pela árvore genealógica dos Petzenbaum. por experiência, não é difícil achar registros de famílias judias na internet, principalmente relacionadas às vítimas do Shoah. foi assim que eu achei o nome dos pais do meu bisavô judeu. com a pesquisa já feita pelo Gatti, achei a suposta bisavó de Elena, Lea, que teve uma filha chamada Amalia. Amália, o mesmo nome da personagem-mãe em Amor Incômodo. o nome LEA trouxe-me Leda, a mãe em A Filha Perdida, e claro, Elena e Lenù. Lea em francês se lê "Lia”, e encontrei na língua, Lila. mais de uma vez, se persigo um assunto coloco os carros na frente dos bois, sem verificar duas vezes a informação que, por milagre, parece se encaixar na narrativa. frantumaglia seria uma palavra usada pela mãe de Elena, uma palavra que junta fratura e fragmento, como uma pila de estilhaços. já eu sempre leio fantumaglia, como se fosse fantasma, e penso nos fantasmas do passado da escrita de Ferrante, revolvendo-se em torno de nomes e lembranças a definhar, fotografias nunca inteiramente formadas, submersas no líquido da revelação ou mal-guardadas, mofadas e riscadas, fraturadas, de modo que resta uma luz, um fragmento qualquer.
no final do artigo de Gatti, ele entrevista uma amiga de Golda Frieda, que diz que ela falava muito pouco do Holocausto ou de sua fuga, e que era muito ligada à Nápoles, misturando alemão com o dialeto napolitano. Gatti termina repreendendo Elena, na verdade Anita, por nos ter privado desse dialeto alemão-napolitano de sua mãe — o que é vergonhoso. ele parece ter ódio de Ferrante, talvez ódio por ter descoberto a trilha do dinheiro e mesmo assim ninguém ter se revelado, e lança uma última cartada com essa frase cruel. Elena Ferrante está certa, afinal, pois talvez quisesse proteger a sua própria história, aquela da qual nem ela sabe inteiramente. tomar cuidado para não acordar os mortos; as pessoas crêem que uma história de tragédia, pessoal e coletiva, como foi o Holocausto, tem de ser usada em primeira pessoa e revivida a qualquer custo; resgatada não importa o quê. ao que eu sei, meu bisavô quase nunca falava de nazismo, nunca tirou o quipá da sua maleta e a maleta nunca saiu debaixo da sua cama, e parece ter adotado uma outra vida, outra identidade, longe do judaísmo, dos seus pais. a ancestralidade pode ser feita de sombras. ele veio parar sozinho no Maranhão, enquanto o resto da sua família foi pros Estados Unidos. o que me leva a crer que um desvio de rota, intencional ou não, o fez distanciar-se de seus pais, enraizar-se em outro país, livrando talvez daquilo que o perturbava, recalcar e tentar esquecer o trauma, pronto a reconstituir uma outra identidade, num outro lugar.
elena ferrante também não me deixa comer. por isso, gostaria de terminar essa longa, demorada incursão pelas obsessões da minha mente noturna, deixando caminhos em aberto, principalmente a identidade. o que Elena Ferrante cria para si, em Frantumaglia, é uma nova identidade, e protege a sua própria, cheia de temores, fraturas incertas. talvez, a separação, a fuga, o abandono das temáticas de seus livros falem sobre o que ela decidiu omitir. é Marguerite Duras uma das escritoras que mais se dedicou a escrever sobre judeus, sobre exílio, Holocausto, mas nunca foi judia (casou-se com um, é verdade), e da sua origem, nascida na Indochina, deu-nos um pouco, um vislumbre. ler Duras, por exemplo, a partir de sua biografia é tentar explicar a sua obsessão com os judeus e a sua dor, a partir do fato de ser uma estrangeira no seu país — é uma das formas de lê-la, mas talvez algo nos escape enquanto tentamos escavar a polidez coerente de uma vida, que é incorente, inquieta, contraditória, disforme, fragmentada, fraturada. talvez entender a paixão de Ferrante por Nápoles e essa infância napolitana — a Nápoles de sua mãe, talvez —, como Duras em relação aos judeus exilados, não possa ser motivado por uma simples biografia. curiosamente — aqui — e sem querer — encontro um elo: os maridos. o amor, talvez, seja uma das maiores forças que nos faz abandonar nossa identidade, tornar-se outro, mudar de lugar. parece que falo de paixão, porém não exatamente; quero falar sobre esse debruçar-se sobre o outro, absorver o outro numa relação íntima, de escuta e silêncio, até incorporar o outro dentro de si, sem mais distinguir o que antecedia do que veio e virá. como Lenù, que não encontra um amor para ser preenchida dessa forma, mas não precisa, pois sempre teve Lila dentro, e fora, misturada à ela.
não sei se Elena Ferrante, agora, vai me deixar dormir. talvez não. é preciso tentar aceitar a inderteminação. por ora, vamos fechar essas abas.
citados:
O que é um autor?, Michel Foucault.
Amor Incômodo, Dias de Abandono, Frantumaglia e Amiga Genial, Elena Ferrante.
O Livro das Noites, Marisa Werneck, veja aqui.
Um Teto Todo Seu, Virginia Woolf.

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