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peixe na glote · Feb 27, 2026

abraçar o gato

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mariana vieira gregorio · peixe na glote

por motivo de livro muito fino, decidi levar Escute as Feras de Nastassja Martin para meu fim de carnaval, passado em Recife e Olinda, e terminando em Maracaípe. pensei que esta newsletter versaria sobre o carnaval, mas ainda titubeio em expressar o que é o carnaval de Olinda, ou o que é o carnaval. a bem da verdade, consegui escrever algumas linhas dos blocos de pré-carnaval em São Paulo, mas não se equipara ao que é Olinda. chego a pensar que carnaval é matéria de cinema, não de literatura, mas a verdade é que me falta leitura de carnavais e me sobra imagens. deixemos em banho-maria antes de dar veredictos.

talvez tal livro fino que li com constante frustração tenha me ajudado a recuperar meu corpo físico e espiritual do carnaval, que não só me deixou um pouco doente como marcou minh’alma de gente insatisfeita consigo mesma. o livro me fez esquecer das atribulações e embrenhei-me em outro assunto que um dia eu achei que tinha interesse, comprei alguns livros sem ler nenhum, e por fim, esqueci: a nossa relação com os animais.

Escute as Feras fez um burburinho danado por aqui; mas eu não imaginava quão ruinzinha podia ser a escrita da autora. um desperdício para a narrativa de Nastassja, antropóloga francesa que realmente sobreviveu ao ataque de um urso nas terras geladas da Sibéria. antropóloga, Nástia, como é chamada no livro, não fala nem de sobrevivência nem de ataque (a alfinetada estilo manchete é minha), mas sim um encontro com o urso, fermentado pela cosmogonia do povo que ela pesquisa, os even. a despeito da autora ralentar o relato, eu vou indo: o urso mordeu sua mandíbula, e ferido por ela, fugiu.

a narrativa começa com hospitais, primeiro um acampamento, então um hospital russo ainda meio soviético, depois os hospitais franceses, o de Paris e o do interior, onde sua mãe mora, perto dos Alpes. não é idiota a forma do pequeninino romance: começa do meio da história, logo após o encontro e o seu resgate, e no fim, depois de todas as cirurgias e passagens hospitalares, Nástia retorna à floresta dos even e ao planalto onde encontrou o urso, em que, imaginei, ela nos entregaria o ouro cujo apenas o halo dourado suspeitávamos: a descrição desse encontro. mas não é uma história de ação, ou ela não é habilidosa, e no fim, mais uma vez, deparamo-nos com as suas reflexões poéticas do que é ser marcada pelo urso, tornar-se meio-humana-meio-urso, apropriando-se das crenças dos even, ela, a francesa dos Alpes. não me senti, eu — por acaso a leitora e, em última instância, a quem se destina um livro —, no meio do gelo e da neve diante do urso, nem sua respiração ruidosa, nem seu cheiro (que cheiro tem um urso no frio?), nem mesmo o medo, o ódio ou a paixão pelo urso, mas novamente fui incutida dentro de Nastassja ou Nástia, dentro da sua condição especialíssima (excepcional, eu diria), de suas reflexões psicanalíticas e místicas.

além de tudo, aqui e ali palavras demasiado poéticas parecem mais tornear o texto do que dotá-lo de vida, de gosto duvidoso, ou seja, cafona. confesso que, por vezes, algumas dessas frases bonitinhas de superação e conselhos de vida me pegaram e tive vontade de grifá-las, copiá-las bem bonitinhas, porque ainda vive em mim a Mariana que ama conselhos sentimentais, astrologia ruim, frases de revista capricho, achar a resposta pra vida na mensagem do biscoito chinês, descobrir o sentido de tudo numa coincidência bela e pulsante, como aqueles cartõezinhos que você puxa duma pequena caixa de madeira e te diz, de forma genérica e profunda, o que você achava que precisava ouvir. difícil é fugir de nós mesmas, da nossa adolescência.

Nastassja também tropeça em si mesma, muito mais do que admitiria. li que ela escreveu apenas o essencial no livro, como se fizesse uma cirurgia. parece coisa de Annie Ernaux — a finura do livro, as lacunas, isso de escrever só o que se lembra —, mas a querida é antropóloga, e quer falar do tempo mítico — do Mito, da Época, como ela escreve —, e é aí que a escrita Ernaux não pode lhe caber, não pode lhe dar o que ela quer, e ela então tenta incursionar no escuro da poesia, no indefinível, colecionando adjetivos que começam com in de inapelável.

de todo modo, é interessante a história. só que um pouco intoxicada da relação humano-animal que ela constrói, dessa oposição entre o selvagem e o humano, da sua aura eurocentrada que, antropóloga, não consegue deixar de ser uma francesa decidida a viver aventuras em mundos hostis — já que a sua terra, mesmo gelada, deu-lhe conforto e controle —, eu tive de partir para Donna Haraway imediatamente. estava lendo deitada em minha cama, abraçada com meu gato, e antes de buscar o Quando as Espécies se Encontram fiz uma piada no twitter, dizendo mais ou menos que Nastassja nunca ficou aninhada com o seu gato gordo para buscar tão longe o encontro com o animal. talvez porque no dia anterior, quando sentia-me miserável, chorei um pouco abraçando o pelo do meu gato e pensei que eu tinha ali, no alcance dos meus braços, o maior amor do mundo.

tenho um pouco de vergonha de amar tanto meus gatos, e dos meus gatos de alguma maneira terem absorvido isso de mim, são dois bichos nada ferais, muito dependentes e carentes, que se desdobram pela atenção dos humanos, cada um à sua maneira, e que nem sempre é muita. amante de cachorros, Donna Haraway me deu pouco sobre gatos até onde li, mas fala de um texto de Derrida quando a sua gata o olha nu no banheiro. é o inverso que está em jogo: não somente nós a olhar os animais, mas eles a nos olhar.

não digo que Nastassja não escreva sobretudo também sobre isso, mas a sua narrativa, que quer alçar tons míticos, encobre o prosaico daquele encontro, e para falar do animal no humano e do humano no animal, primeiro os separa completamente. não há urso em Escute as feras, mesma crítica que Donna Haraway tece ao texto da gata de Derrida, talvez por algum temor de falar pelo urso. que medo é esse? o urso viria a lhe contestar? ou é diante do povo que aprendeu a relação humano-urso que ela se intimida, ao mesmo tempo que frequentemente quer demonstrar que ela foi aceita como parte da família even?

fiz uma disciplina de etnomusicologia em que conheci duas pesquisas que relacionavam música e animais. uma, mais famosa, é de Steven Feld, com o povo Kaluli na Papua Nova Guiné. os Kaluli ouvem o canto dos pássaros como se fossem comunicações de seus antepassados e seus mortos: o canto do pássaro lhes é compreensível, são reverberações que se foram (ane mama). Feld fez um filme belíssimo, o Voices of the Rainforest, em que traça a relação dos Kaluli com os sons da natureza, não só os pássaros, como o som da cachoeira, do corte das árvores. sons que ele gravou e mixou a fim de traduzir a relação especial da escuta dos Kaluli, que serve também ao mapeamento espacial, previsões do futuro e conversas com espíritos. Essa escuta transforma-se também nas canções, alicerce da expressão artística dos Kaluli. a outra é de Anthony Seeger junto ao povo Kisêdjê do centro-oeste brasileiro. as canções dos Kisêdjê são sempre aprendidas com os outros, muitas vezes com outros povos, mesmo inimigos, mas também com os animais. alguns humanos vão para a floresta onde, então, aprendem o canto social dos animais, num estado enfeitiçado. essa é uma distinção que Seeger enfatiza, com o cuidado de não transformar o som dos animais como algo selvagem e os compositores de canções como humanos: o canto é sempre social, mesmo na natureza. por exemplo, os macacos cantam com outros macacos, em sociedade, e oferecem aos humanos esses cantos, traduzidos pelo estado enfetiçado, e que são divididos entre os outros humanos, também alicerces de seus rituais e expressões — e mais do que isso, de toda a vida em comunidade. na sociedade Kisêdjê, é peremptório cantar.

talvez, o que me incomoda em Escute as Feras é essa personalização que a produção teórica acerca das relações igualitárias animal-humano, natureza-cultura, dessa coisa aí do antropoceno e tal, tenta escapar. Donna Haraway critica Deleuze e Guattari por classificar as nossas relações com animais de estimação como edipianas, e o devir-animal é somente selvagem, o lobo, aquilo que está fora e longe, incontrolável, mítico, fora das relações mais comuns. ela vai reivindicar, então, o prosaico, o cuidado e o respeito com os animais à nossa volta, seja de criação ou estimação, vendo-os como companheiros: nós os olhamos, eles nos olham de volta. ou como pontuam os etnomusicólogos, nós os escutamos, eles nos escutam de volta.

para mim, é óbvio que eu me comunico com os meus gatos. não há questão nenhuma nisso: seja pelo miado, pelo olhar, pelo ronronar há uma relação comum entre nós — e como são gatos e não cachorros, não sou sequer líder, olham-me de igual e exigem de mim o tempo todo. não comerão minha mandíbula, mas às vezes, rasgarão meus pulsos e antebraços com suas unhas quando não querem engolir remédio. talvez seja pequeno-burguês, edipiano, comezinho mesmo, mas não só isso. e também não quer dizer que me tornei meio-mulher-meio-gata, é claro, mas me tornei uma mulher que cuida de gatos, e meus gatos, animais sociais que convivem com humanos.

meus gatos, o gato — gatos específicos, únicos, irrepetíveis. durante a leitura de Escute as feras perguntei-me se ela falava de um urso ou o urso. não se cria intimidade com o urso (a não ser que você seja o Homem Urso e seu destino se encaminha para a autodestruição), há um embate e, então, uma abstração dessa relação mítica, imaginária. nosso gato é sempre um gato único. pode ser pela forma como o olho — o meu amor — mas também suas manias, seu comportamento, sua compreensão ou irritação que molda, dia a dia, a nossa relação, torna-o único, aquele gato nesse tempo e nesse espaço. a gata de Derrida não é a figura mítica do gato, mas a sua gata, posteriormente eternizada numa reflexão filosófica, mas que foi ela, aquela gata. quando morre um animal de estimação, é como despedir-se de um parente (seja um que você ame ou que já não aguenta mais cuidar), no mesmo sentido prosaico que Haraway usa. o contato e o cuidado é diário, constante, ainda que instável, como melhor explica a própria Haraway:

meu argumento é simples: mais uma vez, estamos em um nó de espécies comoldando-se umas às outras em camadas de complexidade recíprocas até o fim. resposta e respeito só possíveis apenas nesses nós, com animais e pessoas reais devolvendo o olhar uns para os outros, pegajosos em todas as suas histórias embaralhadas. (Donna Haraway, 2022, p. 65-66)

e, principalmente, destaco uma frase da última longa nota desse capítulo (as notas de rodapé de Haraway são longuísssssiiimas, rs):

espécies companheiras, cum panis, partir o pão, comer e ser comido, o fim do expecionalismo humano: isso, e não o naturalismo romântico, é o que importa ser lembrado.

comer e ser comido, o fim do expecionalismo humano, e com isso eu encerro:

foto do momento em que eu terminava de ler Escute as Feras e escutava o barrigão com pelos ainda por crescer do Dune, meu gato, que nem posso ser generosa e chamar de fera; mas sim, ainda bem, de companheiro

referências:

Escute as feras, Nastassja Martin, tradução de Camila Vargas Boldrini e Daniel Lühmann, Editora 34, 2021

Quando as espécies se encontram, Donna Haraway, tradução de Juliana Fausto, Ubu, 2022

Sound and Sentiment: Birds, Weeping, Poetics and Song in Kaluli Expression, Steven Feld, Duke University Press, 2012

Por quê cantam os Kisêdjê?, Anthonhy Seeger, Cosac Naify, 2015

Read the original on peixenaglote.substack.com

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