Olá, tudo bem?
O pessimismo brasileiro quase nunca é conclusão. Quase sempre é preguiça.
Você já reparou como é fácil achar alguém dizendo que “brasileiro não faz nada que presta”? Virou esporte nacional. E a pessoa fala isso com uma segurança de quem estudou o assunto a vida inteira. Só que, na esmagadora maioria das vezes, essa conclusão não veio de pesquisa nenhuma. Veio de repetição. É uma frase que a pessoa ouviu, achou sofisticada, e passou a repetir como se fosse dado. Aí está o problema: dado de verdade exige ir a campo. E quem vai a campo esbarra em outra coisa.
Hoje eu quero te levar a três endereços que desmontam o pessimismo de preguiçoso. Depois a gente conversa sobre o que essa preguiça custa.
Vamos passear.
O pessimismo brasileiro tem um problema de método sério: ele é feito de longe. A pessoa olha o noticiário, vê a bagunça política, sente o bolso apertado, e conclui que o país inteiro é incapaz. É desânimo emocional fantasiado de análise. Só que país não se lê pelo humor de quem está cansado. Se lê indo ver o que é produzido, onde, e pra quem. Quando a gente faz isso, o mapa vira do avesso.
Deixa eu te mostrar os três endereços.
Começa por Jaraguá do Sul, em Santa Catarina. Ali está a WEG, uma empresa que fabrica motor elétrico, transformador e equipamento industrial vendido pro mundo inteiro. Não é uma empresa que “dá pro gasto”. É uma das líderes globais no que faz, num setor de engenharia pesada onde competir exige décadas de acúmulo técnico.
Pensa no que isso significa. Enquanto o pessimista repete que o brasileiro não sabe fazer nada complexo, tem uma empresa brasileira exportando motor industrial justamente pros países que, dizem, fazem tudo melhor que a gente. A WEG não é sorte. É prova de que a capacidade está aqui.
Agora vai pro Rio, na Fiocruz. Na pandemia, foi ali que o Brasil produziu vacina em escala nacional, num momento em que meio mundo brigava por dose. E a Fiocruz não improvisou isso do nada. É uma instituição de mais de cem anos, com uma estrutura de biotecnologia que pouquíssimo país em desenvolvimento tem.
Isso é complexidade econômica em estado puro. Fabricar vacina não é encher vidrinho. É dominar biologia, química, engenharia de processo e controle de qualidade ao mesmo tempo. O pessimista que diz que “aqui não se faz ciência” nunca pisou num laboratório da Fiocruz. Se pisasse, ia ter que reescrever a frase na hora.
Termina o passeio num hangar da Embraer, em São José dos Campos. A Embraer é uma das maiores fabricantes de avião do planeta. E avião talvez seja o produto industrial mais complexo que existe: junta milhares de fornecedores, engenharia de altíssima precisão e uma certificação internacional de deixar qualquer um de cabelo em pé. E o Brasil faz.
Eu sempre lembro de uma conta que diz tudo: 22 aviões da Embraer valem, em exportação, o mesmo que 1 milhão de toneladas de soja. É a diferença entre vender o grão e vender o bem complexo. A Embraer é a prova viva de que o Brasil consegue jogar na fronteira tecnológica quando decide jogar.
Agora a conversa fica séria. O pessimismo preguiçoso não é só chato. Ele é caro. Quando um país inteiro acredita que não é capaz, ele para de exigir o que seria capaz de construir. Aceita ser só fornecedor de commodity. Bate palma quando vende uma empresa de tecnologia. Trata WEG, Fiocruz e Embraer como exceção milagrosa, em vez de tratar como amostra do que dá pra fazer em escala.
E é bem aí que mora o ponto que me interessa de verdade. O problema do Brasil nunca foi incapacidade. O problema é que a gente construiu pouquíssimos casos desses. A Coreia do Sul pegou a mesma capacidade que a WEG mostra e multiplicou por centenas de empresas, com política industrial, câmbio competitivo e crédito de longo prazo. A gente produziu as nossas joias quase apesar do ambiente, não por causa dele.
Depois que você entende por que WEG, Fiocruz e Embraer existem, e por que existem tão poucas, não dá mais pra ler o Brasil como antes. Você para de repetir o pessimismo automático e começa a enxergar capacidade onde a maioria só vê bagunça. É uma lente que não desliga.
Então o pessimismo se engana duas vezes. Primeiro quando diz que o brasileiro não sabe fazer: a WEG, a Fiocruz e a Embraer provam que sabe. Depois quando desiste, porque desistir é exatamente o que garante que a gente vai continuar com três exemplos no lugar de trezentos.
A pergunta certa não é “o Brasil é capaz?”. Essa já foi respondida, e a resposta está em Jaraguá do Sul, no Rio e em São José dos Campos. A pergunta certa é: por que a gente produz tão pouco caso assim? E essa resposta não está no caráter do brasileiro. Está nas escolhas de política econômica que a gente fez e continua fazendo.
Otimismo de gente séria não é achar que está tudo bem. É saber que a capacidade existe e cobrar que ela seja usada. Antes de repetir que aqui não se faz nada que presta, faz a pesquisa de campo. Ela contradiz o pessimismo em cada linha de produção.
P.S.: Se essa pesquisa de campo te animou, eu faço um mergulho inteiro nisso no meu curso gratuito A Lente da Complexidade. Na Aula 1, “A China nos copiou e foi embora”, eu desmonto o mito de que o Brasil sempre foi atrasado e mostro o que a gente já sabia produzir antes de decidir esquecer. São 10 aulas com mergulhos profundos, uma por dia no seu e-mail, de graça. Mais de 6.000 alunos já estão enxergando o país com outra lente. Começa aqui: http://leiaobrasilcerto.com
Abraços,
Paulo Gala
Graduado em Economia pela FEA-USP | Mestre e Doutor em Economia pela Fundação Getúlio Vargas em São Paulo | Foi pesquisador visitante nas Universidades de Cambridge UK e Columbia NY | Autor com +10,000 cópias de livros vendidas | Geriu carteiras de +R$ 3,000,000,000 | Professor na FGV/SP há 20 anos.
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