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Radar do Desenvolvimento - Paulo Gala · Aug 3, 2026

O agro não foi o mercado

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Paulo Gala · Radar do Desenvolvimento - Paulo Gala

Bem-vindo(a) ao Radar do Desenvolvimento, o boletim semanal para se destacar em políticas públicas, complexidade e desenvolvimento produtivo. Já somos quase 10 mil leitores. Se é sua primeira vez aqui, tenho um presente para você — clique aqui para acessar.

Olá!

Tem uma coisa que todo mundo repete no Brasil e ninguém para pra checar. A ideia de que o agronegócio brasileiro é o grande monumento ao livre mercado. O setor pujante, privado, eficiente, que deu certo apesar do Estado. E, olha, nada poderia estar mais longe da realidade.

Porque o cerrado, esse celeiro global que o Brasil hoje exibe pro mundo, não brotou de gravidade. Não foi a mão invisível que corrigiu o solo ácido. Foi uma decisão política, tomada pelo Estado brasileiro em 1973, quando a gente criou a Embrapa.

A gente esquece disso, mas o cerrado já foi sinônimo de terra imprestável. Solo ácido, pobre em nutriente, alumínio demais. Nenhum país rico ia olhar pra aquilo e enxergar celeiro. O mercado, sozinho, tinha desistido daquela terra havia séculos.

O que mudou não foi o preço da soja. Foi a decisão de botar o Estado pra construir uma capacidade que não existia. A Embrapa formou pesquisador, financiou ciência, adaptou tecnologia estrangeira que tinha sido pensada pra clima temperado e não servia pro trópico. Corrigiu o solo, desenvolveu variedade nova, ensinou o país a plantar onde ninguém plantava.

Isso não é mercado. Isso é política pública de longo prazo, cara, paciente, que só o Estado tem fôlego pra bancar.

Presta atenção nesse ponto, porque é ele que muda tudo. O Estado brasileiro não virou fazendeiro. Ele fez uma coisa muito mais difícil que distribuir dinheiro. Ele construiu capacidade que não existia.

Qualquer governo consegue dar subsídio. Poucos conseguem criar do zero o conhecimento pra transformar meio continente de terra ácida em lavoura. E capacidade é o que fica. O pesquisador que a Embrapa formou, a ciência de corrigir solo tropical, a variedade de soja adaptada, nada disso some no governo seguinte. Isso acumula. Isso compõe.

Complexidade econômica é exatamente isso. Não é sorte, não é vocação natural, não é bênção de geografia. É capacidade produtiva acumulada com o tempo, tijolo sobre tijolo. E quase sempre tem o Estado assentando os primeiros tijolos.

Quando a gente olha pra Coreia do Sul, ninguém tem dúvida. A Hyundai, a Samsung, os chips, tudo aquilo saiu de um Estado que escolheu setor, subsidiou empresa, financiou pesquisa e protegeu a indústria nascente até ela aguentar competir. A Coreia construiu complexidade com o Estado na frente.

O Brasil fez exatamente a mesma coisa. Só que com o cerrado. A diferença é que a Coreia tem orgulho da estratégia, e o Brasil finge que foi o mercado. A gente construiu um campeão internacional com dinheiro público e ciência pública, e depois entregou a narrativa de graça pra quem passa o dia batendo no Estado.

A maioria olha pro agro e vê mercado. Quem tem a lente certa olha pro mesmo agro e vê Estado, ciência e política de longo prazo. É a mesma foto, duas histórias completamente diferentes.

Não é discussão de quem leva o crédito. O problema é o que a gente aprende com a história errada.

Se o agro deu certo “por causa do mercado”, então a receita pro resto da economia é menos Estado, menos política industrial, menos ciência pública. Mas se o agro deu certo por causa da Embrapa, a lição é o contrário. O Brasil sabe, sim, construir setor de classe mundial quando decide fazer política pública séria. A gente já fez. Está ali, no cerrado, na nossa cara.

O que faltou foi repetir a dose na indústria, na tecnologia, nos serviços complexos. Foi escolha. E toda vez que a gente engole a narrativa de que o agro é filho do livre mercado, a gente joga fora o próprio manual que funcionou.

O mais irônico é o presente. O Brasil celebra a safra recorde e, ao mesmo tempo, trata a ciência pública como gasto dispensável. Corta orçamento de pesquisa, sucateia instituição, olha pra Embrapa da vida como peso no caixa.

É como comemorar a fruta enquanto serra o pé da árvore que deu a fruta. A colheita que enche o navio hoje é filha de uma decisão tomada lá em 1973. E a colheita que a gente vai ter daqui a trinta anos depende de decisão que estamos deixando de tomar agora.

Da próxima vez que alguém te disser que o agro é a prova de que o Estado atrapalha, devolve a pergunta. Quem criou a Embrapa? Quem transformou solo ácido em terra fértil? Quem formou o pesquisador que adaptou a soja pro trópico?

A resposta é sempre a mesma. E ela não cabe na história bonitinha do mercado que se resolve sozinho. O agro não é o argumento contra o Estado. É a maior prova a favor dele que o Brasil tem.

P.S.: Se o cerrado te fez repensar o papel do Estado, tem um mergulho que vai fundo nisso. Criei um curso gratuito, “A Lente da Complexidade”, com 10 aulas de mergulho profundo, uma por dia no seu e-mail. Na Aula 7 eu mostro por que a briga entre Estado grande e Estado pequeno é uma distração que impede a gente de ver o que realmente importa, que é o que o Estado escolhe construir. Mais de 6.000 pessoas já trocaram os mantras liberais por essa lente. Não custa nada começar: http://leiaobrasilcerto.com

Abraços,

Paulo Gala

Graduado em Economia pela FEA-USP | Mestre e Doutor em Economia pela Fundação Getúlio Vargas em São Paulo | Foi pesquisador visitante nas Universidades de Cambridge UK e Columbia NY | Autor com +10,000 cópias de livros vendidas | Geriu carteiras de +R$ 3,000,000,000 | Professor na FGV/SP há 20 anos.

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Read the original on paulogala.substack.com

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