Em 1989 chegou aqui uma caixa com dez medidas dentro. Disciplina fiscal, abertura comercial, privatização, desregulamentação, liberalização financeira. Veio com bula, com o selo do FMI e do Banco Mundial, e com uma palavra na frente que encerrava a discussão antes dela começar: consenso.
O Brasil tomou. O México tomou. A Argentina tomou dose dupla.
E aqui está a parte que quase ninguém conta direito: a China também abriu. A Coreia também abriu. Os quatro engoliram algum tipo de abertura entre os anos 80 e 90, e o resultado foi tão diferente que parece que tomaram remédios diferentes.
Não tomaram. O que mudou foi quem escreveu a receita de cada um.
Quando a gente olha o setor automotivo, dá pra ver a coisa acontecendo em câmera lenta, país por país.
O México abriu a economia pra se integrar às cadeias globais e se inseriu montando maquilas, que importam componentes do Leste da Ásia e vendem o produto acabado nos Estados Unidos. Funcionou como integração. As exportações explodiram. Eu brinco que o México virou a oficina dos Estados Unidos, com endereço em Monterrey e ferramenta importada.
A China abriu o mesmo mercado e cobrou pedágio na porta. Até 2018, a montadora estrangeira que quisesse vender lá dentro era obrigada a entrar numa joint venture com empresa nacional, com no máximo 50% de participação estrangeira. E tinha requisito de conteúdo local: normalmente 70% em três anos. Os americanos chamaram isso de transferência forçada de tecnologia. É um nome bem escolhido, porque é exatamente o que era.
Agora repara no que aconteceu depois. Quando a obrigatoriedade de conteúdo local caiu, por conformidade com as regras da OMC, as montadoras estrangeiras continuaram comprando dos fornecedores chineses. Não porque eram obrigadas. Porque a essa altura o fornecedor local já era melhor em custo e em qualidade do que a alternativa importada. A regra criou a competência, e a competência sobreviveu à regra.
Tem um número que mede isso melhor do que qualquer discurso. É o coeficiente importado da indústria automobilística, ou seja, quanto do carro vem de fora. Em 2013 e 2014, ficou assim:
China: 5%
Japão: 10%
Brasil: 22%
Estados Unidos: 27%
México: 56%
Os dois países mais abertos da lista estão nos dois extremos. Está claríssimo que abrir não é o verbo que decide nada. O verbo que decide é exigir.
A Coreia fez a versão mais dura disso, e vale contar sem romantismo, porque a versão romântica é inútil.
Nos primeiros anos, o carro da Hyundai era ruim. Peça soltava, freio falhava, pintura enfraquecia em semanas. O primeiro motor próprio só apareceu em 1991, e mesmo ali a produtividade da empresa não chegava à metade da Honda e da Toyota. Foram anos de prejuízo bancados por subsídio, por proteção, pelo caixa das outras empresas do grupo e por uma restrição direta à concorrência: só Hyundai e Daewoo podiam vender.
Qualquer economista brasileiro olharia esses vinte anos e diria que era desperdício de dinheiro público. Hoje a Hyundai é a terceira maior produtora de carros do mundo.
Mas o ponto que eu faço não é que a Coreia protegeu. Protecionismo sozinho produz empresa ruim e eterna, e o Brasil tem exemplos disso de sobra. O ponto é que o Estado coreano deu incentivo, subsídio e crédito, e cobrou resultado. Concedeu à Hyundai o monopólio de plataformas offshore e do transporte de petróleo, financiou os navios, e exigiu desempenho no mercado internacional. A política pesada de indústria química e pesada é de 1973, o primeiro navio saiu em 1974, e o lucro veio mais de dez anos depois.
Isso não é um país que ficou rico porque abriu ou porque fechou. É um país que tratou a abertura como uma moeda de troca, e nunca entregou o mercado de graça.
A Argentina não dolarizou, e isso importa porque o erro real dela foi mais sutil e mais grave. Ela fez um plano de conversibilidade, amarrando o peso ao dólar, e com isso abriu mão do câmbio como instrumento de política econômica.
Vinte anos antes, o Chile tinha feito algo parecido e quebrado em 1982. A sequência é sempre a mesma: aprecia o câmbio, sobe o salário real, sobe o consumo, sobe a dívida externa, e um dia o balanço de pagamentos não fecha mais. A conversibilidade argentina sucumbiu no começo dos anos 2000.
Câmbio é o preço mais importante de uma economia em desenvolvimento. Quem trava esse preço fica sem volante.
O Brasil não foi o México e não foi a China. O Brasil atraiu montadora estrangeira pra construir cadeia de fornecimento, e conseguiu criar alguma ligação com a economia local. Só que os outros dois desafios de quem depende de investimento externo, convencer a multinacional a fazer P&D aqui e a exportar a partir daqui, a gente não venceu.
Olha o Inovar-Auto, de 2011. O programa até promoveu alguma internalização de tecnologia. Mas no projeto não constavam regras rígidas exigindo que os próprios parâmetros dele fossem cumpridos. Foi política emergencial de curto prazo, não transformação estrutural. A gente abriu a carteira e não cobrou a conta.
Esse é o padrão brasileiro, e ele é mais constrangedor do que ter seguido a cartilha. A gente fez política industrial e ainda assim ficou com 22% de coeficiente importado, porque copiou o gasto sem copiar a exigência.
A cartilha de 1989 tinha dez medidas e nenhuma delas dizia o que fazer no dia seguinte à abertura. Não tinha uma linha sobre conteúdo local, sobre joint venture obrigatória, sobre exigir P&D, sobre cobrar exportação de quem entra. Como o Ha-Joon Chang gosta de lembrar, nenhum país rico chegou lá fazendo o que manda os outros fazerem.
O remédio não era genérico. Era tarja preta. E quem receitou nunca tomou.
P.S.: Se você chegou até aqui pensando “então por que a gente nunca cobrou nada em troca?”, a resposta é uma ideia, e ela tem nome. É a teoria das vantagens comparativas, que ensinou o Brasil inteiro que cada país deve produzir aquilo que já sabe produzir e que o resto vem sozinho. Eu mergulho nela na Aula 5 de A Lente da Complexidade, meu curso gratuito de 10 aulas, uma por dia, no seu e-mail. Mais de 6.000 pessoas já fizeram. Começa aqui: http://leiaobrasilcerto.com
Abraços,
Paulo Gala
Graduado em Economia pela FEA-USP | Mestre e Doutor em Economia pela Fundação Getúlio Vargas em São Paulo | Foi pesquisador visitante nas Universidades de Cambridge UK e Columbia NY | Autor com +10,000 cópias de livros vendidas | Geriu carteiras de +R$ 3,000,000,000 | Professor na FGV/SP há 20 anos.
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