Olá!
Me diz se você já ouviu isso nas últimas semanas.
“A inflação argentina despencou, então o plano funcionou. Está provado.”
Eu entendo de onde vem. E vou começar a aula de amanhã dando o crédito por escrito, porque os números são reais.
A inflação argentina saiu de 211,4% em 2023 para 31,5% em 2025. O país teve o primeiro superávit, primário e financeiro, em cerca de quatorze anos. O risco-país despencou. A pobreza recuou dos 52,9% do primeiro semestre de 2024 para algo em torno de 31%. O PIB cresceu perto de 5%, depois de cair 1,7% no ano anterior.
Isso é um plano de estabilização competente. Ponto final.
Agora o pedaço que quase não circula.
No mesmo ano do superávit, a dívida externa argentina bateu o recorde histórico: US$ 320,3 bilhões. São US$ 44,2 bilhões a mais que em 2024, dois terços disso dívida pública, US$ 57,2 bilhões só com o FMI.
Superávit no orçamento e recorde no balanço externo. Mesmo país, mesmo ano.
Como é que as duas coisas convivem? Porque elas medem coisas diferentes. Milei está consertando a macroeconomia argentina, e a microeconomia da produção continua exatamente onde estava: presa em commodities agrícolas e energéticas, de baixa complexidade, com um governo avesso por princípio à política industrial.
Eu costumo brincar que a Argentina consertou o termômetro e deixou a doença onde estava. Baixar a febre é bom, ninguém discute. Mas febre baixa não transforma commodity em semicondutor.
Quem transformou de verdade fez outra coisa. Coreia do Sul, Taiwan, China: câmbio competitivo, política industrial com contrapartida de desempenho, subida deliberada na escada tecnológica. Estabilizar preço foi a condição de partida. Nunca foi o projeto.
É isso que a gente abre amanhã, quarta, às 16h, na Aula 1.
Ativa o lembrete: https://youtube.com/live/RKv-qDakjTc?feature=share
Um abraço,
Paulo Gala
Economista | Professor na FGV-SP | Doutor em Economia pela FGV | Pesquisador em Cambridge e Columbia | Autor de 3 livros | Fundador da Escola de Complexidade Econômica.
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