Com esta primeira edição, eu te dou as boas vindas a este espaço. As paredes ainda estão sem reboco, os tijolos à mostra, e só o tempo dirá qual a forma que isso vai tomar.
Entre 1823 e 1832, Johann Eckermann, secretário particular do poeta Goethe, reuniu anotações e observações da convivência com o mestre durante os últimos anos da sua vida, depois publicadas em livro. Uma das frases desse volume me fez rir:
na juventude, quando não possuímos nada, ou não sabemos dar valor à posse pacífica, somos democratas. Mas se depois de uma longa vida conquistamos uma propriedade, não só a queremos bem assegurada, como também desejamos que nossos filhos e netos possam desfrutar com tranquilidade daquilo que conquistamos. Por isso, na velhice somos sempre aristocratas, sem exceção, mesmo que na juventude tenhamos pendido para convicções opostas.
O comentário pode suscitar mil discussões, mas me interessa menos, aqui, debater a relação entre democracia e aristocracia no século 19 do que o motivo por trás do meu riso. Goethe me fez rir pelo seu tom pedestre, mundano e algo ranzinza, mas também porque, em certa medida, eu me reconheço nele. E isso é estranho.
Em 1827, quando Eckermann registrou a anotação acima, a democracia moderna engatinhava sob a sombra da Revolução Francesa, ocorrida menos de 30 anos antes. Para investigar a minha estranheza, tento trazer a dicotomia ‘aristocracia / democracia’ para algo mais atual, mas esbarro em um problema: os primeiros pares que vêm à mente seguem na linha ‘conservador / liberal’ ou ‘direita / esquerda’, o que me faz não só perceber a sua insuficiência como também reconhecer o quanto o exercício ilustra um dos nossos maiores vícios: o de reduzir a política, a história, a vida ao embate entre dois únicos polos, diametralmente opostos. Isso é algo tão fácil quanto perigoso.
Na tentativa de me desvencilhar do binarismo, lembro-me de uma imagem que já usei muito, inclusive na minha dissertação de mestrado, uma leitura do romance Noite dentro da noite, do Joca Terron (que, aliás, recomendo). A imagem é a do palimpsesto.
Um palimpsesto é um tipo de pergaminho que foi reutilizado para servir de base a um novo texto após a lavagem ou raspagem do texto anterior. A prática era comum na Idade Média, por causa do custo do pergaminho, e a eliminação do texto original acabava deixando rastros sob as novas inscrições. Esses rastros podem hoje ser recuperados por meio da tecnologia.
Enquanto metáfora, o palimpsesto costuma representar um fluxo de escritas, apagamentos e reescritas que faz com que diversas narrativas, por vezes contraditórias, convivam na mesma superfície. O geógrafo Milton Santos, por exemplo, utiliza o termo para se referir à sobreposição de camadas de tempo na paisagem e no espaço. O espaço é “presente, porque passado e futuro”, e a geografia, uma forma de ver o tempo como simultaneidade.
A vida, o mundo, o indivíduo, portanto, como imensos palimpsestos.
A partir do meu riso torto, o que o velho Goethe me faz pensar é que nos tornamos mais medrosos à medida em que envelhecemos pois a cada dia temos mais (muito mais) a perder. E não só no sentido material (como quis dizer Goethe), mas também, e principalmente, no sentido de tudo aquilo que construímos de simbólico e de afetivo.
Aos 42 anos, já fiz e desfiz relacionamentos, negócios, amigos; já entrei e saí de casas, escolas, países; já ganhei e perdi dinheiro; já me distanciei e me reaproximei da família; ainda não tive filhos, mas já perdi pessoas para a estrada, para a doença, para um temporal e para si mesmos.
Vamos nos tornando mais aristocráticos em relação ao nosso próprio palimpsesto, mas muitas vezes deixamos de lembrar que a condição da sua existência é a contradição. A arte e a literatura só existem no diálogo. Ainda que levantar uma grande bandeira entre mim e o outro possa render mais curtidas no curto prazo, não há como viver, como criar, sem abraçar o contraditório, sem chafurdar as próprias incoerências, sem procurar nelas uma utopia que nos mova.
Uma frase para começar: “gostamos de listas porque não queremos morrer”, diz Umberto Eco em entrevista à revista alemã Der Spiegel
O último livro que terminei de ler: O que é meu, de José Henrique Bortoluci (2023)
Um filme: Saltburn (2023) — sim, eu gostei
Uma música que você talvez não conheça: El show del perro salchicha — María Elena Walsh
Um episódio de podcast: Além do hype: IA generativa é revolucionária e perigosa (Tecnocracia, com Guilherme Felitti)
Um prato na lembrança: galinha à cabidela que comi em 2012 no Recife, em alguma esquina próxima ao Jornal do Commercio
Há alguns dias, pedi para o Dall-E criar imagens a partir de trechos do Extremo Oeste. O resultado (que publiquei no Instagram) ficou interessante, mas o que me chamou a atenção foi o filtro “good vibes” da plataforma, que não me permitiu criar imagens a partir de prompts supostamente negativos, como uma descrição nem tão distópica assim do centro de São Paulo.
Onde encontrar o Extremo Oeste
Por hoje é só! Se você chegou até aqui, muito obrigado mesmo pela sua atenção. Sinta-se à vontade para compartilhar esse texto.

Comments
Nothing yet. Say the first thing.
Sign in to join the conversation.