Este texto faz parte de uma série (assim espero) na qual apresentarei o Espírito Santo através de histórias peculiares, personalidades importantes, eventos e movimentos culturais. Faz bastante tempo que pretendo começar essa série, mas confesso que não estava encontrando o tom certo. Ainda não sei se encontrei, porém consegui concatenar as ideias para o texto de hoje, então sinto que venci uma importante barreira.
Aproveito a introdução da news para agradecer aos esbarros e encontros pela Flip afora. Foi uma honra trocar ideias com vocês e contar com a presença de tanta gente no lançamento da coletânea Mulheres em travessia. Para quem é de São Paulo, aguarde! Em breve teremos uma data de lançamento aqui na capital, informarei tudo a vocês. Se não der tempo para uma edição de news nova, fique de olho lá no notes ou no meu Instagram. Para quem quiser comprar online, deixo o link. Comprem livros físicos, toda a cadeia da literatura precisa dos livros físicos para existir!
Que seja uma leitura divertida!
Um abraço,
paulamaria.
Faço questão de começar todas as minhas bios localizando minha origem: capixaba. Nasci no ano da graça de 1986 na capital do estado, Vitória. Antigamente, o termo capixaba era disputado entre os nascidos na capital e os demais conterrâneos em detrimento de espiritossantense, o gentílico gramaticalmente correto ou oficial para quem nasce no ES, mas fora da capital. Como a língua não existe sem seus falantes e é a partir deles que as regras se estabelecem, a forma mais usada capixaba se fortaleceu diante de espiritossantense e hoje são equivalentes. A cidade de Vitória, muito provinciana e cheia de manias como toda capital, perdeu a disputa. E apesar de ter nascido do lado de lá da ponte, cresci em Vila Velha, cidade que aparece minhas bios logo após a alcunha de <capixaba>. Esta escolha não é arbitrária: de onde vim fala muito de quem eu sou.
Ainda que sudestina, percebo que minha capixabisse é um dos fatores que me diferencia radicalmente do restante da região, mas em especial do eixo Rio-São Paulo. Descrito pejorativamente como o estado que ninguém se lembra ou conhece, o Espírito Santo é antigo, tão antigo quanto a tal <formação do Brasil>, a partir da divisão das capitanias hereditárias. Usei esse argumento besta noutro dia, numa discussão amigável com um mineiro, que chamou provocativamente o ES de litoral de Minas. Só que viemos antes, né? Na linha do tempo da formação do que chamamos de país hoje, o ES se estabeleceu antes de Minas. Não sou historiadora e não quero arrumar confusão, só não mexa com meu lado bairrista. Minas é lindo, só não tem praia, ok?
É difícil explicar pra quem é de fora como é o ES ou até mesmo como funciona a dinâmica entre as cidades da Grande Vitória. É uma mistura de lugares muito parecidos e que ao mesmo tempo batem o pé com força para competir quem é melhor. E nessa corrida onde ninguém ganha, em tempos de redesocial as cidades de norte ao sul do ES se juntaram para defender que o estado é lindo, mas que não queremos receber visita não. Estamos ao lado dos mineiros, mas a hospitalidade não é a característica que melhor nos descreveria. Contudo, devo dizer que essa mistura de Minas com Bahia dá um caldo interessante no final das contas. Umas pitadas cariocas são encontradas mais ao Sul: lá pelas bandas da terra do Rei Roberto Carlos, o pessoal até fala o ésse chiado. Você veja só…
Quero escrever mais sobre minha origem, tem muita coisa que organizada em texto poderia explicar um pouco meu bairrismo ou mesmo inspirar outras pessoas a se interessarem pela cultura capixaba. Na edição de hoje, faço um recorte: rolês aleatórios internacionais por Vitória. Escrevo já percebendo lacunas, que ficarão anotadas para outras edições. Espero que gostem das minhas escolhas.
O Espírito Santo já recebeu visitas internacionais notabilíssimas, por vezes inacreditáveis. Ressalto algumas que estão dentro do meu radar por terem acontecido durante a minha existência. Uma das mais inacreditáveis pra mim foi a do grande Nelson Mandela. No dia 04 de agosto de 1991, Mandela chegava à Vitória para passar três dias em terras capixabas. À época, ainda era presidente da África do Sul e foi acompanhado de sua esposa Winnie Mandela. Discursou no estádio Engenheiro Araripe, localizado em Cariacica, uma das cidades que compõe a Grande Vitória. Este evento também contou com a participação de bandas de congo e shows de Alcione e Neguinho da Beija Flor, além do público animado e participativo. Um fato histórico importante a ser colocado sobre esta visita é que o governador capixaba em 1991 era Albuíno Azeredo, um dos primeiros governadores negros do Brasil.
“Nascido em Vila Velha, antes de ingressar no ensino superior, Albuíno Cunha de Azeredo trabalhou como vendedor ambulante, comerciante, peão de pedreira e jogador do Atlético de Vitória. Depois, conseguiu ingressar no curso de Engenharia pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Durante o curso, estagiou na Companhia Vale do Rio Doce, trabalhou no local após a graduação e fundou a ENEFER, empresa de consultoria no ramo do transporte ferroviário. Dividindo as atividades empresariais com a política, foi eleito governador do Espírito Santo no segundo turno das eleições de 1990.” (Daqui)
Ainda em 1991, em outubro o Espírito Santo recebeu o Papa João Paulo II, que em visita ao Brasil fez uma parada na capital do estado. A agenda do pontífice incluiu visita e ato litúrgico em uma comunidade na Grande São Pedro (Vitória), além de rezar uma missa para fiéis numa grande praça na capital, hoje conhecida como Praça do Papa - local privilegiado com vista para a entrada da baía de Vitória e para a cidade de Vila Velha. Na ocasião da visita, foi inaugurada a Cruz Reverente, uma escultura em homenagem ao Papa e ao Espírito Santo. A obra foi concebida por um imigrante grego, o escultor grego Iannis Zavoudakis, radicado em Vila Velha desde os anos 1950 (e que foi meu tio por uns anos, papo para outro dia). Aliás, cabe dizer que a Grande Vitória possui uma comunidade helênica considerável, provavelmente por ser uma cidade portuária importante e de grande fluxo no Brasil.
1991 foi um ano agitado para as terras capixabas. Peço aqui uma licença poética de não ter começado pela ordem cronológica e bagunçar a cabeça de vocês, mas dentre as três visitas internacionais daquele ano, a que agora relato teria que ficar por último porque aqui não damos valor para monarquias. Na relevância, o príncipe (agora rei) Charles ficou em terceiro lugar. Em abril daquele badaladíssimo ano, Charles passou cerca de cinco horas em minha terra natal. A visita teve motivos diplomáticos, “já que o fundador da companhia de celulose, o empresário norueguês radicado no Brasil Erling Sven Lorentzen, era casado com a princesa Ragnhild da Noruega”. A companhia de celulose a qual se refere a reportagem é a antiga Aracruz Celulose, que foi sendo adquirida e engolida por outras empresas e atualmente é da gigante do setor, a Suzano. A princesa Diana não esteve no Espírito Santo, estava cumprindo outros compromissos em São Paulo. A curiosidade que eu destacaria dessa visita é a vestimenta de Charles, claramente não apropriada para a ocasião. Aracruz, cidade onde se localiza a empresa, é terra indígena (como grande parte do território capixaba). Charles estava trajando uma roupa estilo safari e plantou uma muda de pau-brasil. Uma piada pronta, tudo tragicômico demais… Ou seja, nada mais característico que os anos 1990 no Brasil, né?
A última visita irreverente deste texto é mais recente e tem o selo <eu fui, eu tava lá!>. Em uma das dezenas de turnês brasileiras do Beatle Paul McCartney nos anos 2010, é em 2014 que o Espírito Santo entrou no mapa de shows do inglês. Eu havia operado de vesícula e começado um trabalho novo. Minha família animou de alugar uma van e irmos todos juntos. Não consigo me lembrar de eventos não católicos em que tínhamos reunido tantos de nós - afora aniversários e casamentos. Era algo imperdível, incalculável, irreplicável. Mandei e-mail <avisando> ao RH que sairia mais cedo naquela data e arrisquei tomar uma advertência ou desconto no olerite. Não importa, parecia demais valer a pena. Sou fã de Beatles? Nem de longe. Mas ouvir <boa noitchy, Cariacica!> na voz de um inglês idoso e rockeiro era de se considerar, vai. O show foi realizado no então recém-inaugurado-e-não-acabado estádio Kleber Andrade, que havia recebido uma reforma pesada para a Copa que aconteceu naquele mesmo (fatídico) ano. Este estádio serviu de centro de treinamento para a equipe de Camarões durante aquela Copa. De volta ao show, foram 33 mil fãs capixabas numa noite de segunda-feira calorenta de novembro, que prometia chuva, mas pelo que me lembro, não caiu.
Finalmente o primeiro texto dessa série saiu. Espero conseguir continuar, tem muitas coisas das quais sinto vontade de comentar, de apresentar para vocês. Conta pra mim se você sabia de alguma dessas visitas?
///
Para saber mais:
Uma das maiores celebridades capixabas de hoje é a Lara Santana
Minha banda capixaba preferida ainda está na ativa e é das mais antigas do hardcore no Brasil, o Dead Fish
Essa viagem econômica para Vila Velha saindo de Minas tá o OURO
Para quem não sabe, sou psicóloga clínica e estou com agendamento aberto para o segundo semestre de 2026. Se interessar, favor preencher este formulário de contato ou encaminhar para alguém :)
Se gosta do que eu escrevo, você também pode:
📺assinar o canal no youtube
💰contribuir no apoiase
💳considerar a assinatura paga
🛍️usar meu link na amazon
📸me acompanhar no instagram
No posts

Comments
Nothing yet. Say the first thing.
Sign in to join the conversation.