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te escrevo cartas · May 3, 2026

O luto é um corpo que cai

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Paula Maria · te escrevo cartas

Finalmente… It’s gonna be May!

Abril terminou e agradeço a todo mundo que se inscreveu no canal do Youtube: passei dos 100 inscritos! Era um dos objetivos que tracei nessa fase inicial do projeto e estou muito feliz de ter conquistado. Semana que vem tem vídeo novo, provavelmente sobre amizades na vida adulta. Quem assina a versão paga da newsletter ou está no apoia.se recebe o vídeo dias antes :)

Em maio teremos edição especial com o Newsletteraço Amantes & Latinos, muito trabalho, eventos para comparecer e o segundo encontro do ano do Clube Quem Quer Escrever.

O texto de hoje é introspectivo e emocional. Não peço desculpas e agradeço sua leitura.

Um abraço,

paulamaria.

a luz do outono na sala de casa. abril/2026, acervo pessoal.

A morte de Clara transtornou absolutamente a vida do casarão da esquina. Os tempos mudaram. Com ela, foram-se os espíritos, os hóspedes e aquela luminosa alegria sempre presente, porque ela não acreditava que o mundo fosse um vale de lágrimas, mas, ao contrário, uma pilhéria de Deus, e, por isso, seria estupidez levá-lo a sério, se Ele próprio não o fazia. (A Casa dos Espíritos, p.306)

Abril foi um longuíssimo mês, desses raros com cinco semanas, em que sobram dias e faltam dinheiros. Num mês tão longo, dá tempo de passear entre o céu e o inferno, entre o deleite e a maior das amarguras. Do cheiro intenso e precioso da maresia seguido do barulho odioso e brutal dos escapamentos de motos. Tempo de sangrar duas vezes. De perder as pontas dos dentes, de acabar com as cartelas dos remédios, de enrolar para fazer a declaração do imposto de renda, de viver dois feriados. Também foi o mês em que começou e terminou o primeiro bloco do Curso Livre de Preparação para Escritores da Casa das Rosas, que participo na modalidade Poesia. Acompanhou nosso grupo de entusiastas a poeta, slammer e performer Luiza Romão, pessoa que admiro, acompanho e me inspiro. Numa das propostas dos exercícios poéticos, cada participante sorteou dentre papeizinhos recortados, um gênero textual e, a partir dele, deveria compor um poema. Como a serendipidade da vida me persegue de maneira curiosa e irônica, o gênero que sorteei foi… Um testamento.

Meu humor anda pior do que o usual. Sim, os remédios acabaram. Eu sei que não é só isso, outras pessoas sabem também. É que o tempo passa e querem que o sofrimento se aplaque, que diminua o volume e só apareça em momentos rituais, onde receberá o suporte mínimo, onde poderá ser validado e onde, por apenas alguns segundos, todo mundo se lembre o que aconteceu. Todo mundo é um evidente exagero meu, uma passada de marca texto no livro do tempo, minha tentativa de chamar atenção para o meu sofrimento… Porque muitas vezes parece que é só o que resta quando alguém morre: o sofrimento de quem perdeu a pessoa amada. O mau humor é uma reação a isso: o jeito possível de não sucumbir à tristeza infinita de uma perda. Já que preciso seguir, não seguirei incólume ao que aconteceu. Não seria possível, não seria justo.

O luto é um corpo que cai muitas infinitas vezes. E você acha que pode se salvar da queda se voltar exatamente ao último segundo antes do tombo... Só que ele cai de novo e de novo e de novo e a sensação recomeça. O corpo cai em cima das minhas costas e exige que eu siga caminhando. Que eu siga acordando, tomando café, sorrindo para o motorista do ônibus, faça provas de literatura, pague a conta de internet, interaja com desconhecidos, escove os dentes, regue as plantas, tome água, mande mensagens. Enquanto o meu corpo, ao carregar o que cai incessantemente nas minhas costas, só quer deitar. E ficar deitada. E, quem sabe assim, o corpo pare de cair e descanse ao meu lado. Só que não é possível, a vida não é justa.

E o que me salva da injustiça da perda, da pena de mim mesma, da raiva sem bordas? A miríade de delicadezas da serendipidade da vida, que consegue ser preciosa, quase na mesma medida em que é irônica: a floração da pata-de-vaca que perfuma a calçada do ponto de ônibus, a trilha sonora do restaurante que escolho pra comer batata frita e tomar café com leite no refil, a blusa cor-de-rosa com botões por dez reais no bazar da casa espírita, a peruana cover da Shakira esperando pelo show nas areias de Copacabana, a criança que se espanta e se maravilha com os pêlos do meu braço, todos os cachorros que encontro pelo caminho quando resolvo sair de casa. Confesso que me debati até os últimos minutos antes da aula seguinte à proposta de escrever um testamento. Com o celular nas mãos, digitei no bloco de notas enquanto aguardava os colegas entrarem na Casa das Rosas:

Eu, Paula Maria, brasileira; divorciada, juntada com fé; psicóloga, artista e poeta; portadora de documentos que nada mais importam; ex residente de muitas casas que nem sempre foram lares; domiciliada agora se deus assim quiser nas marés de Vila Velha; declaro por este instrumento, que esta é minha última vontade, achando-me em pleno gozo das possíveis faculdades mentais de uma brasileira nos anos 2020:

- todos os meus livros, a quem quiser

- todas as minhas tralhas, assim também

- meu parco dinheiro, para abrigos de cães e gatos

Não deixo herdeiros e nomeio Minha irmã Maria como testamenteira.

Assino este documento em quantas vias me mandarem, com as testemunhas que ainda pedirei o favor.

São Paulo, SP. Abril de 2026

O luto não me ensinou nada sobre a morte, nem mesmo sobre outras coisas úteis. Claro, me jogou na cara coisas difíceis e que já estavam por aqui, me arrodeando de vez em quando. O luto me tirou saúde, paz, sorrisos e um tanto de colágeno. Eu, que nunca fugi do assunto, vejo que a morte não é um fantasma, ela é mais viva do que quase tudo - por vezes, mais vida do que nós. Outro abril se passou e não acabou comigo, o que parece absurdo e beira o impossível. É que a vida, essa força mambembe, criativa e safada, costura meus pedaços sem que eu perceba. Tal qual uma boneca de pano, uso o corpo macio para fazer cama pra incessante queda do luto em minhas costas. Como uma boneca, preciso me permitir a brincar mais, ainda que muitas vezes sem vontade. Brincar é inventar outras vidas possíveis e na ficção o luto encontra outras histórias, infinitas histórias, desde o começo do mundo, desde quando ainda não se cantavam poemas, nem se escreviam testamentos ou se tomavam remédios. O luto é silêncio e luz.

  1. Influenciada por crisdias, retomei a série Falando a real e ó ❤️

  2. Tenho assistido muita coisa no Youtube:

  3. Coisas que salvei lá no Instagram:

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