Essa edição sinaliza uma transição (em curso). Volto para falar mais disso nos textos futuros, mas já deixo aqui a sinalização. Um recado antes de seguirmos para o assunto de hoje: o Clube Quem Quer Escrever se reúne no dia 18/07 para seu terceiro encontro e contaremos com a presença especial de Aline Valek para falar de Ursula K. Le Guin. Mais informações no post lá do Instagram:
Um abraço,
paulamaria.
Durante o último mês, abri diversos arquivos de texto para escrever a edição de hoje. Larguei, excluí e esqueci de todos eles. Sinto que estou perdida em meio às palavras, tento culpar a greve na Usp, a minha cabeça que envelhece, o mercado editorial, as panelinhas literárias, a minha falta de atenção, as horas intermináveis rolando o Instagram… Tudo e nada disso resolve o problema, que continua pulando na minha frente dia sim & outro também: preciso escrever e não consigo.
Gostaria de ter enviado uma edição lindíssima e emoldurável sobre os meus quarenta anos, recém-completos no dia 27 de junho. O plano era enviar dias antes do meu aniversário, para deixar a caixa de comentários convidativa (mais do que tem sido) e receber um enxame de mensagens bonitas e atenciosas de vocês, meu público querido. Porém, falhei repetidas vezes. Mesmo abrindo o editor de texto na insistência cheia de boas intenções, me faltou vontade de potência. De que me serve ainda lembrar um conceito que aprendi antes dos vinte e cinco anos se aos quarenta não tenho capacidade de juntar lé-com-cré e para ser aplaudida? Uma coisa que aprendi sobre mim no último mês é que a visita à Coitadolândia às vezes se estende mais do que o previsto. Então passou da hora de pegar o trem de volta e sair daqui. Será que consigo?
Reflito sobre os porquês de estar há tantas semanas no município da Coitadolândia e muitos deles são consistentes. A maioria, contudo, faz parte do rol de coisas que me deixei levar pela comparação, pela inadequação produzida pelas redes sociais e principalmente pelo cansaço. Confesso que estou reclamona e que posso ranhetar por mais tempo do que seria saudável - e infelizmente estar numa fase de <pena de mim mesma> piora a situação, porém também preciso ser justa. Dos muitos defeitos que cultivo - uns consciente, outros nem tanto - a teimosia é dos que mais tenho orgulho. No meio da reclamação também tem indignação justificada. Ser teimosa é o valor que provavelmente me levou mais longe na vida, seja geograficamente seja metaforicamente. Persevero na chatice de não conseguir parar de querer coisas e ser capaz de, mesmo sem saber como, acreditar profundamente que consigo. Por isso, analiso com auto indulgência as sensações recentes de fracasso. Respiro, sei que consigo, só preciso me recuperar mais uma vez.
Teimosia, que também pode ser popularmente conhecida como “meter o louco” é um modo de fazer bastante eficiente. Ao contrário de uma primeira impressão preconceituosa, que pode levar à interpretação que meter o louco é fazer de qualquer jeito, o modo de sobrevivência <faça você mesma> é o que melhor define essa gíria tão paulistana. Longe de mim reduzir uma expressão à uma localidade ou significado, uso aqui com a força da licença poética para argumentação própria. Me agarro ao gosto rebelde da expressão, que inspira a fugir à regra e construir o próprio caminho como forma de afirmação de liberdade. Muitas vezes a vontade de potência só é possível metendo o louco. Faça você mesma ou não faça nunca. Um coração rebelde nunca desiste, ainda que se canse.
Uma semana depois de completar quarenta, esse texto saiu. Não é o ideal, como vários que envio nessa newsletter. Mas chegará até você com o desejo sincero de cultivar a rebeldia, a teimosia e a liberdade que me trouxe até a quarta década da minha vida. Entre trancos, barrancos e vistas para o mar, agradeço a sua leitura e companhia nessa jornada. Que venha a próxima metade da vida!
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