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O Etc. Ilustrado · Mar 14, 2025

Etc. Ilustrado n.º08

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Patrícia Furtado · O Etc. Ilustrado

É um eufemismo chamar época baixa a este início de 2025, mas quero convencer-me de que isto — tudo isto — é só uma fase. Mais uns dias, começa a Primavera e acaba o Inverno real. Já o metafórico, este arrepio na espinha, nó na garganta, sensação gelada de que o mundo está a correr mesmo muito mal, pode não acabar tão cedo, mas acredito que também terá fim. Agasalhemo-nos.

Este manual de sobrevivência que aqui partilho é uma nota para mim mesma. Vou tentar dar-me ouvidos, eu que sou normalmente tão má a seguir os meus próprios conselhos.

A época baixa pede um reforço na imunidade e as cenouras estão cheias de vitamina A, vitamina C, beta-carotenos e outros perlimpimpins. É abusar.

Vale tudo, mas a minha maneira preferida de as consumir é em pauzinhos, mergulhados em hummus (Do Mercadona, claro. A sério que ainda não provaram?)

E, inverno oblige, há que fazer aconchegantes panelões de sopa.

A avó Lena ensinou-me a receita da sua Sopa de Cenoura e, por não ser feita a olho, fica sempre igual. (1kg de cenoura, 1kg de batata, uma cebola grande, 3 dentes de alho, 1dl de azeite, sal grosso, cobrir com água, ferver até estar tudo bem cozido e triturar. Não têm de quê)

Levo isto tão a sério que até ando disfarçada de cenoura, cortesia deste impermeável do Lidl que confundi com um saco de cenouras bio.

Nunca me apanharão a beber suminhos de relva (nunca digas nunca, mas… blhec!), mas agora não estou a falar de comida. É um detox dos olhos, que os ecrãs nos fazem mal à vista e ao coração.

Quero continuar informada, mas preciso de absorver menos, muito menos. Cada noticiário faz mirrar a minha esperança na humanidade, o scroll infinito rouba-me anos de vida, ando com a cabeça numa névoa e não me sobra atenção para o que interessa. É um vício, uma droga.

Para fugir do digital, corro para o analógico. Quando houver tempo para matar, saco de um caderno em vez do telemóvel. Escrevo num diário, faço listas, desenho em papel. Faço cadernos à mão. Cuido das plantas.

Nunca consigo manter o hábito de desenhar diariamente, mas encher um pequeno caderno por mês funciona para mim. Os dias produtivos compensam os outros.
Fomos desenhar para o Zoo. Diz ali Urso Pardo mas eu li Urso Parvo e agora quero fazer um livro com esse título.
Desenhar bichos irrequietos é toda uma camada extra de dificuldade, mas não deixa de ser divertido andar a perseguir galinhas pelo parque.

Há que aproveitar as maravilhas de sair de casa na época baixa: não derreter do calor, evitar filas e multidões e pagar menos pelas estadias. E, claro, céus deslumbrantes, cloud porn diária, tanto arco-íris que até enjoa (mentira, nunca são demais).

Sim, às vezes a meteorologia pode exigir programas mais abrigados, como museus e salas de cinema. Mas se estiver só assim-assim, é vestir roupa quentinha e andar na rua. E em podendo, é ir à praia.

No inverno, só lá estão gaivotas e surfistas, e, tal como as cenouras, o mar faz-nos tão bem à vista e ao sistema imunitário. Encher os pulmões de iodo e os bolsos de pedrinhas bonitas que nos lembrem desses dias quando estivermos fechados a trabalhar. Campo também serve. Tudo o que tenha ar puro e vistas desafogadas.

E compensa sempre olhar para cima. Até porque andar cabisbaixo causa dores no pescoço.

Dizer que sim. Aceitar convites. Convidar. Marcar aquele cafezinho adiado, aquele almoço prometido. Os a-ver-se-vamos que ficam por ir.

Sempre fui caseira, introvertida. Baldar-me a eventos sociais e colecionar festas a que não fui é o meu hobby de eleição. E é sintomático ter o telemóvel cheio de céu mas ter de andar muito para trás para encontrar fotos de saídas com os amigos.

No entanto, sempre que olho para trás lembro-me melhor dos dias em que estive com outras pessoas, dos jantares, das festas, das viagens. Os restantes são um borrão.

Por isso, alguém para um cafezinho?

A Casa da Democracia, da Carla Maia de Almeida, é um livro sobre o Palácio de São Bento que vale pelas incríveis ilustrações do Tiago Albuquerque.

A Casa da Democracia, Carla Maia de Almeida e Tiago Albuquerque - Edições Assembleia da Republica
A Casa da Democracia, Carla Maia de Almeida e Tiago Albuquerque - Edições Assembleia da Republica

Fomos ver o Flow e saí de lá encantada. Vem da Letónia, mas tem muito de Miyasaki. Os miúdos gostaram, os adultos ainda mais.

A Catarina, a Diana e a Rita estão de volta de volta, yupi!

Coisa rara: um podcast com histórias em português para despertar a criatividade dos mais novos. Escritas e contadas pela Rosário Alçada Araújo, têm o selo de aprovação do Artur!

Os Monstros de Estimação estão até dia 13 de Abril na Biblioteca Arquitecto Cosmelli Sant’Anna (Rua Alexandre Herculano 46). Esta exposição coletiva organizada pelo Pedro Ribeiro Ferreira reuniu uma quantidade impressionante de ilustradores portugueses e conta com um mostrengo ilustrado por mim (que me valeu uma menção honrosa!) e também com um monstrinho do Artur.

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Read the original on patrciafurtado.substack.com

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