Nuvens escuras e carregadas são, tantas vezes, uma metáfora para coisas terríveis no horizonte. Mas já repararam como são bonitas? E, neste mundo ao contrário, trazem boas notícias: chuva, chuvinha da boa, que não só trava a seca mas também nos oferece auto-lavagem colectiva de que precisamos para nos livrarmos da camada de poeira que cobriu tudo a semana passada. (E ainda bem que não fui lavar o carro, diz que vem aí mais.)
A Primavera chegou e eu, que tanto gosto de recomeços, queria muito que este equinócio chuvoso significasse também um lavar da alma, já que continuo meio empoeirada por dentro. Enevoada. Desinspirada.
Este ano começa a parecer-se muito com um combóio desgovernado, de repente estamos quase em Abril e eu, nada. Faltam-me as palavras. Ou por outra, falta-me a capacidade de as ordenar decentemente. Palavras tenho muitas, na verdade. Sobretudo palavrões.
Por isso segue assim o quarto Etc. Ilustrado, no Dia Mundial da Água. Curto e algo tardio, mas segue. Hoje não vos trago doces, seus gulosos. Trago-vos uma receita vegetariana e muito primaveril. Acreditam? Conto-vos o resultado do leilão dos papa-moscas de que vos falei no último email, algumas notícias aqui do estaminé e uma chuvinha de sugestões.
Tomatitos assados
(com tagliatelle, burrata e manjericão)
Enquanto o pessoal não se decide a dizer tomate cereja em vez de tomate chéri, que não faz sentido nenhum, já que é cherry (inglês) ou cerise (francês), eu escolho inspirar-me nos italianos que gostam de lhes chamar pomodorini e trato-os carinhosamente por tomatitos. E o que eu gosto de tomatitos. Em saladas, em tartes, em salteados… e claro, com massa.
Isto não chega bem a ser uma receita, apenas uma recomendação: Peguem num monte de tomatitos, com ou sem rama, e metam-nos no forno. É só isso.
Desta vez, pousei-os numa caminha de cebola doce cortada em meias-luas. Muito azeite — não sejam forretas aqui. Um bocadinho de sal grosso.
Se não tiverem pressa, podem deixá-los no forno durante uma eternidade, a baixa temperatura: verão que compensa. Mas também podem pôr o forno no máximo e ficar de olho. O ideal é deixá-los um pouco esturricados.
Agora, que fazer com eles? Podem servir de guarnição a um hambúrguer, por exemplo. Ou ir directos para cima de uma fatia de pão torrado, juntamente com o seu azeite. E um bocadinho de pesto, por exemplo. Deixá-los arrefecer e fazer uma salada caprese, com manjericão e mozzarella fresca. Ou triturar tudo e misturar na mayonnaise para fazer um excelente molho para o fondue.
Neste caso, juntei-os a uma porção de massa fresca — tagliatelle —, juntei-lhes uma mão cheia de folhas de manjericão e meia burrata, aquela prima da mozzarella que agora começa a estar disponível por todo o lado. É perfeita para as massas, porque o seu interior é tão líquido que faz um molho instantâneo.
Bom apetite!
Notícias
A primavera começou com uma série de boas novas em termos profissionais, mas muitas delas ainda não posso partilhar convosco.
Dia 2 de Abril comemora-se o Dia Internacional do Livro Infantil e, nesse fim de semana, a Biblioteca Nacional organiza nos seus jardins a Festa dos Pequenos Leitores, uma feira dedicada ao livro infanto-juvenil. Vou estar presente na banca da Penguin Random House para dar autógrafos a partir das 16h e às 16h30, estarei a orientar uma Oficina de Criaturas Fantásticas. Apareçam! Podem ver aqui o programa.
Cartas de Magic — Artist Proofs
Chegaram finalmente cá a casa as Artist Proofs das cartas de Magic The Gathering desenhadas pelo Pedro. São cartas especiais, com as costas em branco, que estão à venda com desenhos originais ou com assinaturas. E ainda temos alguns prints de edição limitada. Se quiserem saber preços ou outras informações, entrem em contacto com ele.
Papa-moscas pela paz
Assim que a guerra rebentou e os pedidos de ajuda começaram a aparecer nas redes sociais, enchi uns sacos com roupa quente, nossa e do Artur, e fui entregá-los ao Palácio Baldaya. A sala da biblioteca estava cheia até ao tecto e vim a saber que a Junta de Freguesia de Benfica conseguiu recolher 60 toneladas de bens para enviar. Naquele momento, percebi que queria fazer mais. Peguei nos guaches e fiz uma pequena ilustração para leiloar nas redes sociais. Perguntei ao Rui, da Pigmento Coolectivo, se alinhava em oferecer uma edição limitada de prints para juntar ao original, e a resposta entusiasta não se fez tardar. Pedi ajuda a alguns instagrammers com muitos seguidores e logo partilharam o meu post para que chegasse mais longe. Assim que o leilão chegou ao fim, todos os que licitaram se apressaram a fazer os donativos prometidos à Unicef, UNHCR, Cruz Vermelha, Médicos sem Fronteiras e World Central Kitchen. Chegámos aos 1130€. Obrigada a todos.
Começaram esta semana as emissões desta estação de rádio online, que, para além de uma playlist variada com alguma música Ucrâniana à mistura, tem um serviço noticioso bilingue que tenta levar informação importante à comunidade Ucrâniana em Portugal. Acho bonito ver cada entidade ajudar com aquilo que sabe melhor fazer. A Rádio Comercial ajuda com um canal de rádio, por exemplo. Uma editora, com livros — e esta história conto para a próxima. Parabéns.
Chuvinha de sugestões
Ontem foi o Dia Mundial da Poesia, por isso deixo-vos aqui o meu livro de poesia preferido. Sou fã da Alice Vieira desde os dez anos, e tenho a sorte de, passados tantos anos, ilustrar as capas dos seus livros para crianças — livros que releio por trabalho com a mesma emoção e admiração de quando era pequena, livros que não envelhecem ainda que sejam um espelho tão nítido da época em que foram escritos, livros com uma voz tão própria, que quase a consigo ouvir quando os leio.
“Olha-me como quem chove” é uma pequena jóia ternurenta. Não se trata de um livro para crianças, mas consigo ouvir a mesma voz em cada poema.
Ainda a poesia, mas agora com música também. Estava a contar os dias para o novo álbum do Miguel Araújo desde que ouvi a Dança de um dia normal na rádio, a jeito de teaser. Cada canção dele daria um livro, tão bons são os personagens, tão cativantes as histórias. O disco é todo uma maravilha, e muitos dos singles já estavam cá fora há algum tempo, mas esta música em particular deixa-me tão curiosa. Gostava mesmo de saber o que aconteceu para chegarem ali e o que vai acontecer depois. Miguel, pega nisso e escreve um romance, sim? Por favor?
Embora o titulo pareça dramático, isto não se trata de um documentário sobre a guerra, mas sim de uma série hilariante, uma comédia um pouco pateta mas surpreendentemente fofinha, sobre um pirata-cavalheiro, o impagável Rhys Darby (do Flight of the Conchords). De resto, o elenco é todo muito bom, mas deixo uma menção especial para o Taika Waititi como Black Beard. É a série perfeita para desanuviar. Está na HBOMax.
That’s all, folks! Já sabem, podem responder, partilhar, mandar sugestões e até reclamar do meu pobre português.
Até Abril!
Um beijinho,
Pat
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