Queridos amigos, espero que tenham tido uma santa Páscoa, ainda que, para alguns, tenha sido apenas um fim-de-semana prolongado, que o descanso também é santo.
No meu caso, posso dizer que descansei. Esta gazeta deveria ter seguido na sexta-feira, como eu tinha anunciado, mas demorei-me um bocadinho demais na escrita, fiz gazeta no fim-de-semana e, por via das dúvidas, acrescentei mais um par de dias às férias. Mas aqui vai ela, por fim. Estou certa que não se empataram muito à sua espera.
Para mim, a Páscoa estará sempre ligada às férias que eu passava em casa dos meus avós, na Lourinhã e, para continuar a tradição, empacotei o Artur e despachei-o durante uns dias para casa dos meus pais — a mesmíssima para onde eu ia em pequena.
Aproveitei um par de dias, sossegada, no cantinho da sala, com os barulhinhos da cidade e a luz do sol a entrar pela janela. Lá longe, o pirralhinho foi gastando o nome a outra mãe: a minha. Teté! Teté! (Obrigada por esta folga, santa Teté.)
Dou por mim a pensar se os meus pais também ansiariam por estes momentos de paz quando eu era pequena. Dias que não eram certamente tão pacíficos, porque tinham dois filhos e, regra geral, ficava sempre um em Lisboa, para não darmos cabo do juízo à avó Lena.
Na Páscoa, fazíamos sempre um jogo antigo, um contrato com os nossos pais e avós. De mindinhos entrelaçados, repetíamos a lenga-lenga: «Contratar, contratar, mandar rezar, três vezes ao dia, de manhã, à noite e ao meio-dia. Reza!» (Alguém desse lado reconhece este ritual?) Depois, na quinta-feira antes da Páscoa, a partir do meio-dia, quem visse primeiro o outro, tinha de gritar «Reza!» e receberia uma prenda. Na verdade, ganhasse quem ganhasse, a prenda era sempre para nós.
Ganhar aos meus avós era sempre fácil. Escondíamo-nos na despensa ou atrás de uma porta e estava armada a emboscada. Eu chegava a ir esperar o avô Ildo à rua, só para o apanhar. Era também esse o dia em que os meus pais costumavam chegar de Lisboa — lembro-me de passar o dia a espreitar à janela, para os apanhar — mas ganhar-lhes não eram favas contadas. Houve um ano em que o meu pai chegou a saltar um muro altíssimo para nos surpreender pelo terraço. Perdemos e o Miguel até chorou de raiva.
Agora, a minha sobrinha manda-me rezar por telefone. Já não acho a mesma graça.
Cá por casa, decidimos adoptar outra tradição (americana?), a da caça ao ovo. É sempre um sucesso. O Artur é viciado em ovos de chocolate, de preferência os que têm brinquedo lá dentro. Volto a acusar a idade: ainda me lembro de quando não havia ovos Kinder. Já as amêndoas do tipo francês eram (e ainda são, rasparia!) omnipresentes.
— Ora toma lá um saquinho de amêndoas, minha menina. Tens mesmo ar de quem gosta destes decorativos calhaus de açúcar duro com uma amêndoa infeliz perdida lá no meio. Vê, são cor-de-rosa mas não sabem a nada. Só a açúcar. Mas que são bonitas, são!
— Obrigada, tia. — Era sempre uma tia, não era?
Não sei quem é o tal “tipo Francês”, mas devia arder no inferno.
Bem vindos ao Etc. Ilustrado de Abril, que era para sair na Sexta-feira mas acabou empurrado para o Domingo Quarta-feira. Perdoem-me o tom nostálgico deste número. A culpa é da Páscoa, que me traz sempre saudades dos meus avós e das férias em que passava os dias a ler.
A propósito disso, lembro-me dos meus passeios com a avó Lena à Biblioteca Municipal, dos longos minutos passados a percorrer as estantes para escolher os que ia levar nessa semana. Ainda me lembro bem da bibliotecária, uma velhota magra e curvada, de cabelo e roupa cinzentos e óculos grossos e pesados. Mostrava-se sempre feliz por me ver. Lia tantos livros nesses dias de férias, muitos de que já nem me lembro. Mas os livros da Alice Vieira ficaram sempre comigo.
Ser adulta também tem algumas vantagens. Ainda leio os livros da Alice Vieira com o mesmo prazer, mas agora em trabalho, porque ilustro as suas capas. Melhor que isso, posso pegar no carro e ir visitá-la à Ericeira, tomar um cafezinho com ela e passar a manhã a conversar.
Foi isso mesmo que fiz este mês e partilho essa conversa convosco neste número da minha gazeta. Também vos trago notícias fresquinhas, e algumas sugestões. E vingo-me das amêndoas do «tipo Francês». Espero que gostem.
Alice Vieira
Algures durante o ensino secundário, ali naquela altura de tomar decisões sobre o que vamos ser, considerei seguir jornalismo. Escrevia muito e até pertencia à equipa do jornal da escola, mas era mais designer do que repórter. À minha timidez crónica, que só consegui domar muitos anos depois, juntava-se a minha total incapacidade de fazer perguntas em tempo útil. Não era falta de curiosidade, mas uma enorme falta de timing, de que, aliás, ainda hoje padeço.
Mas agora que tenho esta minha revista a fingir e que já consegui trancar a timidez numa gaveta da secretária, decidi entrevistar algumas das pessoas brilhantes com quem tenho trabalhado e perguntar de uma vez o que realmente me deixa curiosa.
Comecei com a pessoa que mais me inspirou desde que aprendi a ler, a escritora e jornalista Alice Vieira. A Alice tem uma vida cheia de histórias fantásticas, que nunca me canso de ouvir (para quem não as conhece, recomendo esta entrevista ao programa Primeira Pessoa, na RTP, e esta outra, na Visão), mas escolhi antes tentar perceber como escreve, descobrir de onde vêm as suas personagens, falar dos ossos do ofício, para ver se aprendo mais sobre isto de escrever livros. Como bónus, passei uma bela manhã com uma das pessoas mais adoráveis e divertidas que conheço. Chamem-me egoísta.
— Alice, como começa um livro? Tem algum planeamento?
— Nenhum. É muito difícil de explicar. Tenho um livro para escrever, escrevo a primeira frase, não gosto, deito fora. Escrevo a segunda frase, também não gosto, deito fora. Depois a partir da terceira ou quarta, aquilo vai-se encaminhando. Não sei o que vou escrever, nunca. Vejo uma pessoa a subir uma escada, depois ao cimo há uma porta, abro a porta e o que é que ela vê? Pronto. Quando enfim paro, nunca sei o que é que vem a seguir.
— Mas tem alguma ideia da direcção que a história está a levar?
— Não, não, não. Só quando recomeço, no dia seguinte, e leio o que está para trás. Então continuo. Às vezes até mudo tudo a meio do livro. Depois tenho de mudar tudo o que está para trás, claro.
Tenho, sim, uma leve ideia de quando vai acabar. Estou a escrever e penso: “Isto mais um capítulo e está pronto”. Sinto que vai acabar — mas não sei como.
— Tira os seus personagens da vida real, de pessoas conhecidas?
— Tudo.
— Tudo? Não há nada inventado?
— Mudo-lhes os nomes, claro. Mas são sempre pessoas que conheço. Por isso, na «Rosa, minha irmã Rosa», quem nos conhece, ou nos conhecia há quarenta anos, conhece toda a gente. Era tudo de lá, a família, as tias, a professora, e portanto, se me conhecem, conhecem tudo aquilo. Agora, claro que mudo os nomes. Só houve uma que eu não mudei o nome, no «Se perguntarem por mim digam que voei», porque aquela personagem (uma tia minha) estava tão ligada àquele nome — tinha aquele nome estranhíssimo de Joana Ofélia. Ficou Joana Ofélia, porque não consegui por-lhe outro nome.
— Tem um amor especial pelo processo de dar nomes aos personagens, não tem? Os nomes fazem parte da personalidade delas?
— Sim. Eu digo sempre: diz-me o nome que a pessoa tem e eu digo-te quem é, de onde vem, o que faz. Para já, tem a ver com a idade das pessoas. Não posso chamar — quer dizer, poder, podia — mas não era muito normal chamar Inocência ou Maria da Piedade a uma criança de sete ou oito anos. Ou então havia qualquer história aí. Portanto, tenho de ver a idade, o enquadramento… Há outra coisa em relação aos nomes, uma mania minha: as pessoas muito más nos livros têm nomes muito feios. As pessoas muito boazinhas têm nomes muito bonitos.
— No entanto, as personagens não têm quase descrições nenhumas.
— A descrição das personagens, eu deixo a quem lê.
— Mas visualiza essas personagens? Têm descrições na sua cabeça?
— Às vezes. Mas nem sempre as visualizo — se é loira ou é morena —isso não. E quando as visualizo assim, normalmente é porque se reflecte na história. Gosto muito de deixar isso a quem lê. E eu isso depois até falo com eles e é muito engraçado as maneiras diferentes com que os leitores encaram as personagens, não é? Dou essa liberdade de as pessoas terem a forma que eles querem e imaginarem como é que eles são. Depois há coisas que eu só deixo no ar. Há um livro meu, o «Flor de Mel», em que a mãe só aparece no fim, e eu não digo de onde veio. Era muito engraçado, porque se eu ia às escolas do Norte, o que é que tinha acontecido à mãe antes de voltar? Tinha estado emigrada. Se eu vinha cá para baixo, o que é que tinha acontecido à mãe? Tinha estado presa. Gosto realmente que as pessoas imaginem o que aconteceu.
A entrevista continua aqui.
Madrinhas
Já vos disse o quanto eu desprezo as amêndoas do tipo francês, agora vou contar-vos o que faço com as que vêm, inevitavelmente, cá parar a casa. Comê-las assim, está fora de questão. Deitar fora é pecado. Podia oferecê-las a alguém, mas, honestamente, não conheço ninguém que goste delas, a não ser, talvez, a pessoa que mas ofereceu, Mas não é educado devolvê-las, ou será que é?
Decidi usá-las como ingrediente. Aquilo é só açúcar com um bocadinho de amêndoa, porque não fazer uma sobremesa? Ou um bolo? Melhor ainda, uns biscoitos — que posso oferecer, caso eu não queira mesmo comer doces (as if). Podemos até juntar-lhes alguns dos ovos, pintos e coelhos de chocolate, se sobrarem alguns. As opções são infinitas, usem a vossa imaginação.
Deixo-vos aqui estas bolachinhas que inventei e baptizei de “Madrinhas”. São perfeitas para a Páscoa, porque é uma época de ressurreição, de renovação… e de reciclagem, é disso que se trata! E assim até podemos devolver as amêndoas a quem as ofereceu, sem que ninguém venha a saber!
Ingredientes
1 pacote de amêndoas “tipo francês” (180g)
130g de manteiga
1 ovo
160g de farinha
Coelhos de chocolate q.b.
Aquecer o forno a 180º. Forrar um tabuleiro com papel vegetal.
No copo da trituradora (ou da varinha mágica), reduzir um pacote de amêndoas a pó. Juntar-lhe um ovo e a manteiga aos pedaços e triturar de novo até obter uma massa uniforme.
Despejá-la numa tigela maior e usar o mesmo copo para triturar grosseiramente uns quantos coelhos ou ovos de chocolate a gosto e juntar ao preparado.
Adicionar a farinha e misturar tudo com as mãos até que esteja toda incorporada.
Fazer bolinhas, dispô-las em intervalos regulares pelo tabuleiro, e achatá-las com os dentes de um garfo.
Levar ao forno por cerca de 15 minutos, ou até ganharem alguma cor.
Notícias
O Camião das Histórias em Ucraniano
Foi com muita alegria que recebi a notícia de que a LeYa tinha escolhido «O Camião das Histórias» para fazer uma edição bilingue em Português e Ucraniano, para ser inteiramente oferecida às crianças refugiadas que vão chegando ao nosso país. Assim que a ideia surgiu, o nosso editor Vitor Mota pôs-se em campo, pediu à Olesia Volodya que traduzisse a bonita história da Rosário Alçada Araújo em tempo recorde, desenharam-se novas páginas com os textos lado a lado e, num instante, os livros estavam cá fora. Foi comovente ter esta edição tão especial nas mãos e poder distribuir, em pessoa, alguns exemplares a estas crianças que deixaram tudo para trás… incluindo os seus livros.
Segundas edições da Matilde
Os dois primeiros volumes da Matilde vão ser reeditados e nem sabem como isso me enche de felicidade. No dia Mundial do Livro Infantil, dia 22 de Abril, estive na Festa dos Pequenos Leitores a dar autógrafos e a orientar um pequeno workshop ao ar livre e foi uma alegria perceber que o livro está a chegar a tanta gente. Nos próximos meses já estão agendadas algumas visitas a escolas. Depois de tanto tempo fechada em casa, vai ser muito engraçado conviver com os leitores desta colecção.
Tantos festivais
Os próximos meses vão ser ricos em eventos à roda dos livros, e conto estar presente em alguns deles. A seu tempo publicarei as datas, mas podem contar comigo no festival literário Palavras ao Vento, no Redondo, no Livros a Oeste, na Lourinhã e na Festa do Livro em Belém, em Lisboa.
Ventania de sugestões
O livro vencedor do Prémio Bissaya Barreto de Literatura para a Infância deste ano merece todos os prémios. Nasceu da combinação perfeita de três pessoas de quem gosto muito: a autora, a Susana Cardoso Ferreira, a ilustradora, a Raquel Costa, a.k.a. Little Black Spot, e a editora, a Ana Lúcia Felgueira Maduro, da Oficina do Livro. Juntas cozinharam esta delícia de livro, que é para todas as idades e roça a perfeição.
Fascinam-me as histórias de pessoas que atingiram o sucesso já tarde na sua vida, e Julia Child é uma dessas personagens maiores do que a vida que nunca deixou que a idade (ou o género, ou o aspecto físico) fosse um obstáculo às suas ambições. Esta nova série na HBO Max foca-se na sua fulgurante carreira televisiva, numa altura em que os programas de culinária ainda estavam por inventar. Está muito bem escrita e filmada, tem um leque de actores impressionante e todo aquele ambiente dos anos sessenta, do cenário ao guarda-roupa, me fala ao coração.
Quando é que a moda dos restaurantes tailandeses se vai espalhar por Lisboa como se espalharam os japoneses? Pad thai é dos meus pratos preferidos, e devia ser muito mais fácil de encontrar. O do Ori, no Colombo, é bem bom (aliás, o menu todo é), mas raramente me apetece comer num food-court de um centro comercial. Já abriam um restaurante de rua, não era? Enquanto esperamos por isso, descobri esta pequena jóia de restaurante ao pé da Av. de Roma. Tem um jardinzinho coberto nas traseiras, um menu variado e um preço que não nos leva à bancarrota. Vá, agora um em Benfica, por favor!
Antes de vos deixar ir à vossa vida sossegados, tenho um pedido a fazer-vos. O IPO de Lisboa está a precisar muito de dádivas de sangue, essenciais para o tratamento de crianças, jovens e adultos com doenças oncológicas. Se puderem, façam a marcação online e passem por lá. Não custa nada e ficam com aquele quentinho de saber que estão a salvar vidas. Eu andava há muito tempo para fazer isto e marquei hoje.
Agora sim, podem ir às vossas vidas que já devem estar fartos de mim. Regresso às vossas caixas de email daqui a um mês, mais coisa, menos coisa. Partilhem esta newsletter, se puderem, respondam, se vos apetecer e perdoem-me, por favor, uma ou outra gralhita.
Beijinhos, abraços e passou-bens (à vossa escolha),
Patrícia
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