Ainda não sei com que coragem vou publicar isso aqui, mas às vezes um pouco de verdade é a única coisa que ajuda, então vamo lá!
Na última semana, eu dormi chorando todas as noites. Tenho passado por desafios que há tempos não passava, mas dessa vez tem sido muito difícil voltar a acreditar em mim. Sou autônoma, não tenho suporte financeiro de ninguém e nenhuma renda fixa há uns 13 anos. No entanto, a vida tem me confrontado com a realidade de que eu não fui educada para ser uma mulher independente, mas sim para encontrar um homem que me sustentasse. Eu cresci sem ter qualquer referência de mulheres próximas que tivessem uma conta bancária em seu nome e que bancavam sua própria vida. Ainda que eu não compreendesse a estrutura social que me cercava, eu sempre dei um jeito de fugir dela. Construí minha independência da forma que deu, mas não é nada fácil romper com padrões estruturais que parecem estar incrustados na nossa história. Eu não quero me vitimizar aqui porque tive inúmeros privilégios na minha vida que certamente me abriram muitas portas, mas tem certas cicatrizes que não deixam de doer com o tempo.
Eu amo muito o que eu faço, mas a realidade por trás de um propósito não é nada fácil. Tenho um trabalho consolidado que já impactou a vida de muita gente e isso é algo que me nutre profundamente. De forma orgânica e despretensiosa, eu construí um público bastante fiel que acompanha meu trabalho há muito tempo. Entre altos e baixos, sempre consegui dar um jeito de monetizar com meus projetos autorais e assim fui criando um nome. De certa forma, acho que isso criou um estigma em mim e sou sempre vista como a mulher que dá conta de tudo sozinha. A vida nômade que levei por mais de uma década não veio de um planejamento bem estruturado e nem da falta de vontade de ter um lugar para voltar. Era apenas porque eu tinha que fazer uma escolha, e eu preferia sustentar meus sonhos do que uma falsa estabilidade que só me distanciava deles.
Eu mudei, minhas prioridades mudaram e uma vida mais estável é tudo que eu tenho tentado construir nos últimos anos. Por mais que eu receba muitas mensagens de carinho me lembrando como eu sou forte, tem sido difícil demais encontrar motivação pra vir aqui criar mais um conteúdo gratuito quando vejo minha conta entrando no vermelho. A equação de lidar com as renúncias das minhas escolhas e ter contas pra pagar todo mês simplesmente não fecha. Há 5 anos venho tentando escrever meu livro, mas parece que nunca terei segurança financeira para conseguir mergulhar nesse processo. Pra minha sorte, eu tenho uma tendência natural a ser muito positiva. Tem dias que consigo me olhar no espelho e dizer pra mim mesma que vou conseguir, mas tem horas que a exaustão é tanta que eu só penso em desistir de tudo.
Cheguei ao ponto de ter que deixar o orgulho de lado e aceitar dinheiro emprestado de uma amiga porque não tenho como pagar meu aluguel (sim, amizades também podem servir pra isso). Me senti abraçada por ela, mas aquilo me afundou de vez. Tinha incontáveis conteúdos por fazer e possíveis projetos pra seguir divulgando, mas não conseguia fazer nada além de chorar em posição fetal porque me sentia um fracasso. Era como se todos os anos que passei investindo na construção de uma carreira que é admirada por tantos tivessem sido em vão. Admiração pode gerar curiosidade, engajamento e elogios, mas nada disso ajuda a sustentar meu trabalho pra que ele siga sendo possível.
Abrir isso de forma tão explícita pode ser visto como um ato de coragem por uns e um motivo de vergonha para outros, mas eu não me importo. Afinal, ninguém para minhas contas (literalmente). Sinto um certo alívio em escrever e sempre lutei contra um mundo onde as aparências precisam prevalecer acima de tudo.
Com a cara inchada, tentando ressurgir dessa crise toda e encontrar uma forma de permanecer ativa sem ter que aparecer, eu decidi postar um story qualquer caminhando com a minha cachorra nas belíssimas montanhas que me cercam e que são meu refúgio de paz nos momentos difíceis. Eu só estava tentando respirar fundo e seguir em frente pra mais um dia, mas fui atravessada por um comentário que nem soube como responder (talvez minha resposta seja a coragem de publicar esse texto).
Claro que não é a primeira vez que alguém me pergunta qual é a receita mágica da minha paz de espírito, mas esse combo de questionamentos me deixou um tanto perplexa.
Me lembrei de um tempo atrás que fiz um ensaio fotográfico de construção de imagem para uma mulher que me procurou. Ela deixou bem claro que queria passar a impressão de ser rica, para atrair um público que tivesse recursos financeiros. Eu até entendo a lógica, considerando o mundo que a gente vive, mas será que não estamos adoecendo ao tentar bancar uma imagem que é tão distante da realidade? Será que de certa forma eu também estou passando essa mensagem, mesmo sem querer?
Apesar da vulnerabilidade ter se tornado mais uma moda performática pra gerar engajamento, eu sempre soube o poder que ela tem. Desde a época que eu tinha coragem de me aventurar por milhares de quilômetros, cruzando fronteiras na base da carona sem um único centavo no bolso. Desde quando eu vendia cartões postais ou brigadeiros pra seguir viagem. Eu tenho certeza que não foram os cartões postais que me fizeram conquistar meus objetivos, nem tampouco a qualidade do meu brigadeiro. Era minha vulnerabilidade em contar aquela história e acreditar que teriam pessoas dispostas a sonhar comigo. De fato, muita gente impulsionou e investiu naquele sonho, que hoje se transformou em algo muito maior.
Jamais me esquecerei do primeiro cartão postal que tentei vender. Eu estava insegura e beirando o arrependimento de ter embarcado naquela loucura. O cara que estava me dando carona parou pra abastecer em um posto de estrada abarrotado de gente e eu estava com muita fome. Entrei no restaurante do posto com o coração acelerado, mirei em uma família que parecia simpática, respirei fundo e fui. Contei minha história e ofereci os cartões, mas a reação deles foi bem diferente do que eu imaginei. Eles deram uma boa gargalhada com tom de deboche e disseram: “imagina se todo mundo inventasse de vender cartão pra viajar… vai trabalhar, menina!”
Fiquei muito mal. Naquele dia, o máximo que consegui foi trocar um par de cartões por um pão de queijo direto com o atendente do balcão, que sorriu pra mim. A vontade de desistir era enorme (e de certa forma, segue sendo até hoje), mas eu já tinha ido longe demais pra voltar atrás. Naquele dia eu aprendi uma grande lição que carrego pra vida: não bastava eu contar a minha história, eu precisava acreditar nela. Depois desse episódio, teve gente que me deu R$300 por um único cartão. Teve quem ofereceu um café da manhã, uma caixa de leite ou um sofá pra passar a noite. Assim como teve gente que levou cartões de graça porque estava sem dinheiro, mas me deu tanto incentivo que acabou ganhando eles de lembrança. Eu ficava feliz de qualquer maneira, porque tudo era uma forma de dizer: SIGA, eu também acredito em você!
Sinto saudade daquela época. Não pela flor da idade ou pela disposição que eu tinha pra realizar qualquer maluquice, mas porque os olhos brilhavam com mais verdade. Hoje é raridade encontrar alguém que sonha com as próprias nuvens, porque se tornou mais fácil furtar sonhos da vida alheia ou achar que paz de espírito é fruto de boa sorte.
O que mais me frustra nas redes sociais hoje em dia nem é o tal do algoritmo ou as adaptações de formato que mudam numa velocidade assustadora. É o fenômeno do individualismo que cresceu na mesma proporção das redes, onde ninguém mais se interessa em sonhar junto ou saber como você está para além daquele pequeno recorte de vida que já satisfaz. É o quanto a gente se acostumou com um excesso de conteúdos descartáveis chegando de graça nas nossas mãos ou imagens que sequer são reais, e paramos de valorizar aquilo que a gente realmente acredita e que gostaria de apoiar.
Será que finalmente chegou o dia em que todo mundo inventou de vender seus cartões postais? Ou estamos tão saturados de informações que nos tornamos insensíveis ao que nos toca de verdade?
No meio deste grande desabafo (que poderia ir longe), eu tenho tentado dizer pra mim mesma o que aprendi com aquela família que riu da minha cara: não basta eu contar a minha história, eu preciso voltar a acreditar nela.
Agora de coração aberto e sem expectativas de “vender” algo, eu queria te oferecer algo que pode me ajudar a atravessar essa fase - assim como eu já fiz com meus cartões postais lá trás. Se meu relato por acaso te fez chegar até o final desse texto e você acredita genuinamente no meu trabalho, você pode me apoiar (e muito) através dos planos de assinatura paga das minhas newsletters. A assinatura também inclui encontros mensais online onde abro espaço para conversas abertas voltadas para o desenvolvimento criativo da vida. É um valor bem simbólico, mas que faz uma diferença enorme do lado de cá em todos os aspectos possíveis. ♡
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Com coragem, Patchi.
PS: postei e saí correndo.

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