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Pamela’s Substack · Aug 9, 2024

#7 O rosa como cor na arte

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Pamela Araújo · Pamela’s Substack

Que eu tenho uma certa obsessão pelo azul, é certo! O que ninguém ainda entendeu, e nem eu, foi o surgimento de um interesse pelo rosa. De um tempo para cá, me bateu uma curiosidade e interesse por essa cor que durante tantos anos e agora ouso dizer décadas, eu refutei. O meu interesse é pela cor e o que tanto neguei ao longo desse tempo foi a simbologia que essa cor me traz.  

Há um ano atrás, quem não viu a onda rosa Barbie invadindo as redes sociais não estava no planeta terra e eu confesso que morri de preguiça 😬, de novo, não pela cor, mas pelo que ela representava ali ~para mim~. 

Escrevi Barbie no Google e só apareceu uma boneca vestida de azul

Não tem como não dizer que a cor rosa, no contexto da sociedade ocidental latinoamericana em que vivemos, nos remeta à um feminino inocente, fútil, infantil e frágil. E eu, que nunca me identifiquei com esse tipo de simbologia, neguei o rosa da minha paleta de cores preferida, do meu guarda-roupa, da decoração etc, com exceção do batom rosa, sempre adorei.

O girly não me interessa, nem a Barbie, nem esse mundo feminino rosa princesa (tá de boas quem goste, cada um ama o que quer) mas a cor rosa sim e fiquei curiosa em como essa cor foi representada ao longo da história da arte, suas simbologias, significados, nuances e lugares na sociedade.

Segundo a ciência, a cor rosa não existe. Na realidade não existe pigmento rosa, ele é obtido através da mistura de dois pigmentos muito conhecidos: vermelho e branco. O que inicialmente fez com que o rosa fosse visto como uma cor inferior, geralmente subordinada ao vermelho. O rosa no têxtil, por exemplo, só foi possível devido ao uso do Pau Brasil, que chegou na Europa durante o renascimento. Ao deixar as lascas da casca da árvore em água alcalina durante muitas horas, obtinha-se um vermelho mais ‘fraco’, esse efeito alcalinizante deixava a madeira rosada. O Pau Brasil, era conhecido na França como ‘bois du Brésil’ (madeira do Brasil). 

A ambiciosa (mulher política), James Tissot, 1883-1885
A textura desse tecido dá pra sentir daqui!

Durante a idade média  até o renascimento, o rosa era um vermelho pálido. Sua presença na pintura aparecia principalmente na representação da carne, dos corpos representados (num contexto europeu branco), mas também na vestimenta e histórias de personagens bíblicos. No catolicismo, esta cor simboliza alegria e promete a luz após as trevas da noite. Na pintura "Saint François renonce à son père terrestre" (São Francisco renega seu pai terrestre), do pintor italiano Sassetta, é possível observar um contexto predominantemente rosa, representando essa "alegria" após a renúncia de São Francisco ao mundo material. A arquitetura do local atua separando os personagens entre a "terra e o céu" por meio dos pilares do edifício, que protegem o mundo celestial do lado de dentro. Além disso, a verticalidade dos pilares sugere a elevação dos personagens em direção ao céu. 

Saint François renonce à son père terrestre’ (São Francisco renega seu pai terrestre), 1437-1444
Esse contraste com o azul ultramar e verde são maravilhosos

No livro “A psicologia das cores”, da autora Eva Heller, eu descubro que durante o renascimento a cor rosa era uma cor de tradição masculina. O rosa, sendo uma derivação da cor vermelha, era visto como uma cor que representa força, poder e virilidade. Na pintura abaixo Portrait d’Henri IV en Mars (Retrato de Henri IV em Marte), (1605-1606), o artista Jacob Bunel representa o rei da França Henri IV como um herói vestindo uma armadura num rosa vivo. Esse tom de ‘rosa político’ vem para apaziguar a autoridade do vermelho, dando um tom diplomático, ao mesmo tempo que o rei mostra sua força, mas respeitando seus semelhantes. 

Portrait d’Henri IV en Mars (Retrato de Henri IV em Marte), Jacob Bunel, 1605-1606

Na pintura (obra prima, minha musa) ‘O nascimento de vênus’ de Botticelli,  uma figura feminina, em terra firme  (alegoria à primavera) tenta alcançar a deusa Vênus que acabou de nascer com um manto florido cor-de-rosa. Ao mesmo tempo, flores de murta, flor sagrada para Afrodite, segundo a mitologia grega, aparecem esvoaçando após terem sido sopradas pelo deus do vento Zéfiro. Aqui, o rosa começa a aparecer na representação do feminino, mas especialmente ligada à primavera, à fertilidade.

 O nascimento de vênus, Botticelli, 1483

O rosa ‘pastel’ tomou conta das cortes européias durante o período do Rococó. Dessa vez trazendo um tom de libertinagem, fantasia e prazer. A literatura mitológica serve de pretexto para as cenas voluptuosas que vão decorar os interiores da aristocracia, principalmente de Versailles. As cenas bucólicas, pastorais que inicialmente aparentam ser inocentes e fantasiosas, apresenta corpos nus femininos trocando olhares e carícias. O rosa geralmente aparece como um ‘ponto de central’ na composição das pinturas, principalmente nos tecidos, nas flores, no tom da pele, nos seios, bochechas e lábios. Entre os artistas do rococó os mais conhecidos são François Boucher e Fragonard (abaixo). 

1-Callisto, séduite par Jupter sous les traits de Diane, François Boucher, 1759
2-Les hasards heureux de l’escarpolette, Jean-Honoré Fragonard, 1767-1769

Não vou me aprofundar na história, mas mas queria comentar sobre o ‘Rosa Pompadour’. Um rosa pastel claro com um fundo quente, recebeu o nome da marquesa que popularizou a cor na corte de Versailles, Madame Pompadour. O rosa já estava bombando nessa época e era visto nas roupas, nas obras de arte (como vimos acima), na decoração e aqui aparece na porcelana. Esse tom foi criado pelo pintor de porcelana Philippe Xhouret e o químico Jean Hellot, e é a mistura de um pigmento violeta (pourpre de Cassius) com o acréscimo de colloides de ouro, por isso o fundo ‘quente’. A Manufatura de Sèvres comercializou com muito sucesso os vasos, tendo como cliente Louis XIV e tudo.

Prato da Manufacture de Sèvres, 1775. Petit Palais, Paris

Baseei essa pesquisa principalmente na história da arte ocidental.. o que, obviamente me faz passar ao lado de muita coisa que se foi feita em outras culturas. Continuarei a pesquisa por esse sentido depois. Apesar de não tem aprofundado muito, encontrei algumas pinturas que eu gostaria de compartilhar aqui.

O kushi (o pente), é uma estampa japonesa do artista Kitagawa Utamaro da época do Edo (Idade da Paz Ininterrupta, 1603 e 1868). Essa pintura me impressionou bastante, tanto pela precisão dos traços, mas também pela textura e vivacidade das cores e sua transparência. Um pouco dessa textura se deve à utilização do mineral ‘mica’ usado como fundo da pintura, técnica inventada pelo mesmo artista no movimento ‘ukiyo-e, imagens do mundo flutuante’.

Em seguida, duas pinturas de Chitarman, um artista hindu convocado pelo imperador muçulmano Shah Jahan (rei do mundo) para retratar sua glória como imperador mogol, evidenciam a coexistência pacífica de diferentes religiões durante seu reinado. Na obra de 1627-1628, é possível observar símbolos religiosos hindus, islâmicos e cristãos, como os querubins no alto do céu, refletindo a paz e a tolerância religiosa que marcaram essa época.

O imperador, ao centro da pintura está vestido de rosa, que segundo a tradição hindu é uma cor associada ao casamento. A pintura em aquarela e ouro, tem apenas 20cm e faz parte de um album de 50 páginas ilustradas, iniciado pelo seu pai antes de transmitir ao seu filho Shah Jahan. Este album foi totalmente finalizado em 1820. Por curiosidade, este é o imperador que construiu o Taj Mahal em mémoria de sua esposa.

1-Kushi, Utamaro,  1795–96
2-Shah Jahan on a Terrace, Holding a Pendant Set With His Portrait, Chitarman, 1627-1628

Acabei me prolongando um pouco mais do que imaginei, mas achei interessante compartilhar o contexto da cor na história e entender seu caminho até aqui. Na próxima parte compartilharei um pouco mais sobre como essa cor ocupou espaço na arte modernista e contemporânea.

Fontes:

Rose, de Botticceli à Christo, Hayley-Jane Edwards-Dujardin, 2021

Psychologie de la couleur, Eva Heller, 2009

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Read the original on pamelararajo.substack.com

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