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Pamela’s Substack · Jun 25, 2025

#8 O verso da casa

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Pamela Araújo · Pamela’s Substack

Durante quatro semanas, participei do workshop “O Verso da Casa”, proposto pelo Coletivo Amarelo (Lisboa), com mediação da artista e pesquisadora Luiza Baldan. O tema, como o título sugere, era um mergulho nesse lugar chamado "casa" — não apenas em um sentido literal, mas a partir de um olhar fenomenológico, que já venho apreciando e explorando há algum tempo.

A leitura coletiva de escritos de Bachelard e de poemas de autores e autoras lusófonos abriu espaço para os exercícios que nós mesmos desenvolveríamos em relação às nossas próprias casas e à relação que construímos com elas.

O primeiro exercício de escrita era sobre a nossa casa da infância; o segundo, sobre a casa em que vivemos atualmente; e o terceiro propunha uma colagem desses dois textos — um contato entre passado e futuro. Por fim, o quarto exercício consistia na criação de uma imagem a partir desse último texto.

Mais do que me alongar aqui sobre os exercícios, deixo abaixo os três textos e as imagens que resultaram deste projeto. Lembrando que são textos íntimos, que saem de lugares profundos, memórias longíquas e sinceras.

Ex 1 - A cama cor-de-rosa

Na cama cor-de-rosa eu dormia

Ou pelo menos tentava dormir

Todas as noites havia, embaixo da cama um leão

Houve uma época em que um circo se instalou na cidade

Isso é verdade de fato

Neste circo tinha um leão, que já não sei se foi fato ou apenas uma verdade da minha cabeça

Um dia o leão escapou, transpassou os portões de minha casa, adentrou por dentro do quarto e se instalou embaixo da minha casa cor-de-rosa.

Essa é uma verdade só minha, mas é verdade, eu me lembro até hoje, ele me impedia de dormir.

Eu tinha medo. Metia a cabeça pra dentro da coberta e acreditava que ali estaria protegida. Ficava dura que nem pedra nessa cama de ferro cor-de-rosa, com desenho de arcos que meus pais compraram de segunda mão.

Haviam duas camas de ferro cor-de-rosa, a minha e a da minha irmã mais nova, que cedo dormia sempre muito rápido e não percebia a chegada do leão e o medo que eu tinha dele.

Eu apelava para as orações, pedia para Deus fazer com que ele fosse embora. Vencida pelo cansaço, ele desaparecia quando eu adormecia.

Houve um natal em que a luz do bairro acabou. Não havia mais luz que não fosse a luz das velas. Tudo era penumbra. Do lado de fora viam-se apenas as pequenas luzes tremulando dentro das casas. Ouviam-se os risos e conversas das famílias e o vizinho carioca não pôde colocar o som alto como de hábito.

Eu e minha irmã estávamos brincando na casa da vizinha quando fomos chamadas pelo nosso pai.Ele disse que haviam dois bebês nos esperando. Num sobressalto de curiosidade e excitação voltamos correndo para casa. Quem seriam esses bebês que desconhecemos?

Ao chegar no quarto iluminado por uma pequena vela, descobrimos duas bonecas bem aconchegadas nas duas camas cor-de-rosa. Eram nossos presentes de natal.

Dali em diante, eu dormia agarrada nessa boneca, ela sem saber, me fazia companhia no medo do leão.

Ex 2 - Onde é minha casa?

A casa que hoje habito não é minha casa. Não porque todo mês envio uma soma de dinheiro para em troca poder estar dentro dela, mas porque ela ainda não possui por inteiro a minha alma.

Essa casa, que derivou de um canto de uma casa bem maior, foi transformada num pequeno apartamento. Na mesma rua em que Auguste Comte morou, na mesma rua do grande cipreste, na mesma rua que se chega ao arco do triunfo. Por essa rua, também entro e saio de um mundo que aos poucos vou tecendo, a casa que vou construindo.

Essa casa que não é minha, está dentro de uma pátria que também não é minha. Fala-se aqui outra língua, outra linguagem. Para quem não a fala, é a língua do romântico, para mim é o que denuncia meu estrangeirismo. Nesta casa, que tem mais de quatro paredes, há grandes janelas, o sol bate pela manhã, lembrando que há vida lá fora. As janelas se dão para a rua, no nível do chão, faz uma conexão direta com o outro lado. Se ouve os vários idiomas que ali transitam, a poeira entra sem convite e se repousa nos móveis que não são meus. Estas janelas, são quase como um convite para os de fora se adentrarem para o lado de cá. Fecho as cortinas, me isolo em um mundo só meu, alí dentro, estou onde eu quero estar. Para esta casa virar casa, há de se viver um pouco mais, sorrir, chorar e se reinventar mais.

Plantei bougainville na janela, no verão elas dão flores rosas, como na casa dos meus pais.

Entre ruelas medievais preservadas com perfeição, eu transito sem me reconhecer nas pedras. De vez em quando, na transição de uma estação para outra há uma pausa no tempo em que eu sinto meu corpo vibrar como se assim estivesse completamente do outro lado. Uma brisa familiar, brisa do inverno cerradense: completude. Tudo está onde deveria estar. Dou voltas buscando reencontrar algo em que eu possa me reconhecer, nada me olha de volta senão minha própria história. Afinal, se cá estou há quase 10 anos, tem história minha circulando por aqui. Talvez seja mais casa do que eu gostaria de aceitar.

Talvez já tenha me instalado aqui de jeito que já nem perceba mais, que o céu azul mediterrâneo já seja tão familiar que não me assalta mais, que a língua estranha também seja em partes minha e que a casa de mais de quatro paredes também seja meu canto no mundo.

Ex 3 - Entre dois

Talvez seja mais casa do que eu gostaria de aceitar. Aquela casa da infância, aquela primeira casa que virou lar em um novo país, aquela casa que hoje me abriga.

Deitada na cama que não é minha, eu sinto a forma da história moldada na espuma do colchão. Não sou o primeiro corpo à habitar este lugar. Cansada, fecho os olhos e me sinto em algum lugar, qualquer lugar. Entre ruelas medievais preservadas com perfeição, ou nas lembranças distantes de uma infância onde as memórias já me fundiram com a fantasia e ninguém sabe distinguir o que foi fato ou invenção.

A casa que hoje habito não é minha casa. Não porque todo mês envio uma soma de dinheiro para em troca poder estar dentro dela, mas porque ela ainda não possui por inteiro a minha alma. Eu penso na casa que tinha a cama cor-de-rosa em forma de arcos, aquela cama que minha irmã tinha uma igual e que eu me alongava horas sem dormir. Adormecia vencida pelo cansaço do medo. O medo era do leão do circo que havia fugido e se instalado embaixo da cama. Até hoje durmo tarde, será que o leão ainda existe?

À luz de velas, tivemos um natal completamente na penumbra. Era véspera de natal e não havia luz no bairro. Cada casa com suas velinhas, suas famílias, suas risadas, suas camas. Uma pequena vela iluminava as camas cor-de-rosa, nela repousavam nossos presentes de natal, que por sua vez, descobrimos com pouca luz. O inverno deste lado, são como meses de penumbra, evidencia nossa fragilidade, mas também nossa capacidade de sobreviver no escuro.

Plantei bougainville na janela, no verão elas dão flores rosas, como na casa dos meus pais.

De vez em quando, na transição de uma estação para outra há uma pausa no tempo em que eu sinto meu corpo vibrar como se assim estivesse completamente do outro lado. Uma brisa familiar, brisa do inverno cerradense: completude. Tudo está onde deveria estar.

Entre esses dois tempos, entre esses dois mundos, a vida presente persiste, continua e cria outros entres.

Espaço do sonho | acrílica e pastel sobre papel | 29x42cm (Imagem escolhida para a exposição)
Entre o tempo | acrílica e pastel sobre papel | 29x42cm
No canto da memória | acrílica e pastel sobre papel | 29x42cm

Abraços!

Pamela

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