Nas últimas semanas, inspirado pelo que rolava na Copa do Mundo, falei algumas vezes sobre a literatura espanhola contemporânea. Um nome se repetiu tanto nas indicações que fiz na coluna do Uol quanto na seleção que montei aqui na newsletter: Juan Gómez Bárcena.
“Nem Mesmo os Mortos”, publicado aqui no Brasil pela DBA com tradução de Silvia Massimini Felix, é um dos romances mais impressionantes que li nos últimos anos. É de um tipo precioso: livro pretensioso que consegue bancar a pretensão. Bom ver autores apostarem alto, se arriscarem e, coisa rara, entregarem para o leitor um trabalho notável. O normal é lamentarmos a ambição que se espatifa em mãos pouco talentosas.
O romance de Bárcena parte do século 16. Antigo soldado da Coroa Espanhola, Juan recebe a missão de caçar Juan, seu xará, indígena que desafiava autoridades naquele território que mais tarde se transformaria no estado mexicano. “Nem Mesmo os Mortos” começa com ares de aventura histórica, promessa que se cumpre, mas é bem mais do que isso.
A principal pretensão bancada por Bárcena é construir uma trama que conduz o protagonista numa busca que se estende por mais de quatro séculos e acompanha grandes mudanças na porção mais ao norte da América. Causa boa surpresa ver como o autor consegue percorrer um período tão longo de forma coesa, sem grandes rupturas.
Cabe ao leitor perceber as paulatinas mudanças. Jamais deixamos de acompanhar aquele Juan que persegue o outro Juan, mas isso não quer dizer que eles sejam sempre os mesmos. São personagens que ganham dimensões mitológicas na forma como vivem e representam enrascadas de nosso continente.

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