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O Pensador · Aug 1, 2026

A inteligência artificial pode substituir um escritor?

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Gustavo Siqueira, Guto Cidreira · O Pensador

Esses dias um amigo me entregou um livro novinho para eu conferir. Lançamento.

Folheei o livro.

Instantes depois, falei:

— É tudo IA.

Ele ficou pasmo.

— Como assim? IA? — arregalou os olhos.

— Sim. Olha esse trecho aqui e depois esse parágrafo aqui.

Ele leu bem devagar, como se estivesse procurando algo, e depois balançou a cabeça.

— Não percebi. Parece normal.

Não acreditei.

— Tá de brincadeira. Olha essa página aqui, então.

— Nada…

Não me dei por vencido e fui procurar outra pessoa.

Depois outra.

E outra…

Tudo a mesma coisa.

Corri num canto e enviei uma foto para minha esposa, que na mesma hora me mandou um belíssimo: “tá na cara que é IA!”.

Fiquei até aliviado com a resposta dela, por um lado, mas, por outro, achei a situação assustadora.

Nunca tinha visto isso até então. Um livro físico escrito por IA. Sendo vendido. Numa livraria. Isso me causou um estranhamento muito grande.

Eu jamais imaginei ver algo assim na minha vida. Desde que me entendo por gente eu visitava livrarias e me perdia em meio aos livros. As livrarias carregam uma atmosfera sagrada para mim.

Eu me sentia cercado por grandes escritores. Cada livro que eu segurava era um convite para uma nova história. Abrir o livro era como abrir a porta que me levava para outro mundo.

Ver um livro de papel escrito totalmente por uma inteligência artificial soou como um insulto às minhas memórias. Para mim, foi como uma profanação.

Parece que minha ficha caiu naquele momento — vamos viver uma nova era daqui para frente.

E o pior de tudo é que muitas pessoas nem perceberam. Elas compram o livro acreditando que foi o autor que realmente escreveu.

Eu não quero entrar na questão aqui sobre isso ser fraudulento ou desonesto com o leitor — embora seja um ponto interessante para discussão. O que me chamou a atenção de verdade foi como as pessoas não conseguiram perceber o óbvio.

Esse tipo de situação também está presente aqui nessa rede. Para tentar controlar isso, o Substack agora tem um detector de IA.

Esses dias eu li um texto da Ana Joquebede sobre esse assunto e compartilho da mesma opinião: detectores de IA deveriam ser irrelevantes para bons leitores.

O bom leitor, na maioria das vezes, vai perceber os usos de IA. Principalmente os abusos, que são mais comuns.

Isso porque a IA replica padrões de escrita com um estilo específico: frases de efeito, ritmo característico, muitos paralelismos, texto muito direto e “limpinho”… geralmente o leitor detecta isso de imediato.

Imagino que agora pode surgir uma nova fase no Substack composta por dois grupos: pessoas que não leem textos auxiliados por IA e pessoas que não se importam se o texto tem IA ou não.

Quero aprofundar nessa questão e não apenas escolher um lado. Para isso, vou precisar contar uma breve história.

Uma vez eu estava lendo um texto de um autor pré-IA (acho que vamos ter que usar algum termo desse tipo daqui em diante).

O autor usou uma longuíssima sequência de correlações adversativas, o famoso “não isso, mas aquilo” ou “Isso não é apenas x, é y” que é tão característico da IA.

Na mesma hora eu pensei: “Nossa! Isso aqui é IA!’, mas, quando fui conferir o autor, vi que, naquela época, ninguém sonhava com a existência do GPT.

Isso me fez pensar o seguinte: A IA “roubou” um estilo de escrita que nós usávamos. Isso não é escrita de chat gpt, é uma escrita humana. Alguns escritores tinham um estilo parecido com esse antigamente.

Afinal, a IA precisa se basear em algo. Como ela vai espelhar um estilo de escrita que não existe e que ninguém usa?

Parece que já perdemos uma batalha para a IA, e com ela se foram alguns recursos de estilo. Agora, não podemos mais escrever de uma forma que pareça IA.

Há semanas fiz uma note na qual usei o famigerado “não porque, mas porque”. E eu curiosamente falava sobre IA, o que rendeu um comentário ressaltando essa ironia.

Isso já é uma derrota para quem escreve. Vejo muitos autores talentosos e esforçados no Substack contando que já foram acusados de usar IA. Por quê? Porque o texto estava bem escrito ou porque usaram alguma palavra proibida – lembram da história do travessão?

Isso é outro problema. Pessoas que não possuem muito contato com leitura e escrita tendem a achar que qualquer texto bem escrito é feito por IA.

Mas será mesmo que a inteligência artificial pode substituir um escritor?

A inteligência é uma característica exclusivamente humana.

É a capacidade de apreender a realidade e reconhecer algo como verdadeiro. A IA não tem inteligência porque não consegue abstrair conceitos nem julgar algo como verdadeiro ou falso.

Isso porque ela foi programada para trabalhar com os dados que são inseridos nela. Se ninguém disser para ela qual é o certo e o errado, ela não vai saber.

Ou seja, se você treinar uma IA para responder que 2 + 2 = 5, ela assim fará. Só um humano consegue perceber que isso está errado.

Saindo das definições filosóficas e partindo para a parte prática, o que me preocupa é que as pessoas estão delegando o ato de pensar para algo que nem possui inteligência.

Elas estão se desresponsabilizando de seus pensamentos e preferindo confiar na máquina ao invés de assumir seu papel como ser capaz de exercer sua inteligência.

Esse tipo de comportamento já foi explorado em livros e filmes da nossa cultura, desde Eu, Robô e Admirável Mundo Novo até Blade Runner e Matrix.

Talvez o cerne disso esteja em ser seduzido pelo poder das máquinas. A velocidade de raciocínio, capacidade de armazenamento e integração de dados etc. tudo isso faz parecer que a IA é superior a você.

Eu creio que Deus te criou com essa capacidade única chamada inteligência e não foi à toa. Colocá-la em prática significa tornar-se humano. Isso mesmo. Exercitar sua inteligência te torna cada vez mais humano.

Isso porque ser inteligente não significa ter um raciocínio rápido ou se sair bem em provas, mas saber captar a realidade ao seu redor e encarnar a busca pela verdade com uma força pungente, incessante, incansável.

Isso é feito com toda sua alma. Nenhuma IA pode fazer isso.

Mas você pode.

E é disso que é feito um escritor.

Em minha perspectiva, toda a discussão sobre IA pode ser resumida em única fórmula:

Ideation > Escrita

Deixe-me explicar…

Eu passei os últimos 7 anos da minha vida estudando os maiores redatores publicitários do mundo. Coloco nessa lista nomes como: Gary Halbert, Eugene Schwartz, Gary Bencivenga, Mark Ford, David Ogilvy e muitos outros.

Provavelmente, você nunca ouviu esses nomes. Motivo? Eles não são os tipos de autores que aparecem na lista de livros best-seller.

Eles atuaram por “debaixo dos panos”. Nos bastidores da atenção humana.

Enquanto alguns escritores buscavam prestígio literário, eles trabalhavam por uma coisa mais difícil: fazer alguém parar, ler, desejar, acreditar e agir.

Uma página. Uma promessa. Uma oferta. Um produto. Uma ideia.

E depois de estudar esse jogo por anos, percebi que existe algo que fica cada vez mais claro para mim: O texto nunca foi o ativo principal. A ideia sempre foi.

Daí surge o termo em inglês chamado “ideation”, em tradução é algo como “ideação” a qual não faz muito sentido. Então vamos manter a palavra original: Ideation.

O que é isso?

Ideation é a capacidade de encontrar a ideia antes do texto. Antes de escrever a primeira linha.

Como assim?

É você olhar para uma dor comum, do dia a dia, daquelas que passam despercebidas aos olhos da maioria e a explicar de uma forma que faz a pessoa pensar: “Nossa, era isso que eu sentia, mas nunca tinha conseguido colocar em palavras.”

Memorize essa frase: “olhar para uma dor comum”...ela será importante para o seu entendimento mais adiante…

Continuando…

Esse tipo de ideia, ou melhor, “Big Idea” como é chamado pelos norte-americanos são aqueles “insights” que inspiram, impactam, geram um click na mente das pessoas que de outra maneira não teriam ocorrido. Vamos a um exemplo…

Recentemente, eu acertei algumas “big ideas” aqui no Substack. Veja o note abaixo e repare nos números de engajamento:

Foram 6600 likes e 1100 compartilhamentos e trouxe aproximadamente 200 assinantes para minha newsletter.

Para os padrões aqui da plataforma isso é uma explosão. Um “viral” como dizem por aí.

No entanto, nesse cenário, a questão deixa de ser apenas os números e se torna por que esse texto funcionou.

Bom, se você é uma pessoa comum, é provável que você esteja agora se sentindo com pressa. Cansado do celular. Saturado de Instagram. Sem paciência para conversa rasa. Com dificuldade de terminar um livro. Abrindo aba, fechando aba, pulando vídeo, acelerando áudio e chamando isso de “vida moderna”.

Além disso, não é muito difícil você perceber esse padrão de comportamento nas pessoas a sua volta. Você entra no ônibus e lá está todo mundo com a cabeça baixa. No restaurante, casais dividem a mesa com o celular. No trabalho, ninguém aguenta cinco minutos sem checar uma notificação. No domingo, a pessoa descansa com a mão cansada de rolar tela.

Lembra que eu te pedi agora pouco para você memorizar uma frase? É aqui que ela retorna: olhar para uma dor comum.

Esse processo que eu acabei de descrever da pessoa no ônibus, do restaurante, da “vida moderna”...nada mais é do que eu observando uma dor comum do dia a dia. Entende?

Mas não basta observá-la, é preciso transformar essa dor em contraste. Em nova perspectiva.

Porque a dor sozinha é confusa. Todo mundo sente, mas pouca gente entende.

O trabalho de quem cria boas ideias é pegar esse incômodo bruto e dar forma.

No caso da frase “Profundidade é o novo luxo” presente no viral, o contraste é simples:

Antes, luxo era excesso. Hoje, luxo é presença.

Antes, luxo era mostrar. Hoje, luxo é conseguir ficar.

Antes, luxo era consumir mais. Hoje, luxo é não ser consumido. Por bet, por redes socias, por relações tóxicas, por vida sem…presença.

Percebe? A força da ideia não está na escrita bonita. Está no deslocamento mental que ela provoca.

Por isso, quando vejo tanta gente discutindo IA. Pode ou não pode? É certo ou errado? Moral ou imoral?

Penso: NÃO IMPORTA!

Hoje, a IA já escreve. Legal!

Ela escreve rápido. Escreve bonito. Escreve limpo. Escreve com vírgula no lugar certo.

Porém, isso não significa que ela saiba o que precisa ser dito.

Porque antes da escrita existe algo mais raro: A percepção. O bom gosto. O pensamento. A empatia.

Tô falando da capacidade de olhar para o mundo e enxergar uma tensão que ninguém nomeou ainda. A dor escondida atrás de uma frase comum. O desejo que a pessoa não sabe confessar. O medo que ela disfarça de opinião. A contradição que sustenta um mercado inteiro.

Isso é ideation.

Lembre-se da fórmula:

Ideation > Escrita

É isso. Mas não só isso…

Ainda tenho 3 pontos importantes nesse texto.

Primeiro, acredito que no médio-longo prazo as pessoas desenvolverão um sexto sentido para o que é um texto feito por IA. Todavia, elas não se importarão. Motivo? Elas irão querer saber se o texto é útil ou não para a vida delas. Se as faz rir, chorar, amar, sonhar, qualquer coisa que facilite a vida suportar.

Segundo, se você chegou até aqui no texto significa que sua atenção foi capturada, minhas palavras te entreteram de alguma forma, você foi fisgado pelo poder do ideation.

Terceiro, lembra quando eu te pedi para memorizar a frase? Pois é, aquilo nada mais é do que um recurso de captura de atenção ensinado pelos maiores redatores publicitários do mundo. Esse é o jogo. Não importa se é ou não IA.

Aqui finalizo e agradeço a oportunidade que me foi oferecida pelo Gustavo Siqueira. Muito obrigado. Muito obrigado mesmo.

Com amor,

Guto Cidreira

Nenhuma publicação

Read the original on opensador.substack.com

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