Nesse texto quero te indicar, de forma direta e sem enrolação, os cinco melhores livros de literatura para quem está começando.
Existem inúmeros tipos de escritores com as mais diversas particularidades, mas quero seguir apenas três critérios aqui na nossa lista:
Boa escrita.
Bem acessível e curto — para não ter desculpas!
Capacidade de prender o leitor que ainda não tem o hábito de ler.
Vou começar com alguns contos para motivar a leitura, pois são curtos e envolventes.
A ideia é aumentar um pouco o número de páginas e o grau de profundidade a cada indicação — ainda sem perder de vista os critérios mencionados acima.
Sem mais delongas, vamos à lista!
📘 Apenas 6 páginas
Um banqueiro e um estudante de direito discutem sobre pena de morte e prisão perpétua.
O jovem estudante diz que, se tivesse que escolher, optaria, sem dúvidas, pela prisão perpétua.
O banqueiro, que defende a pena de morte, perde a paciência e lança uma aposta:
— É falso! Aposto dois milhões como o senhor não aguentaria cinco anos encerrado num cárcere.
O jovem, também acalorado pela discussão, aceita a aposta, mas triplica o tempo. Quinze anos na prisão em troca de dois milhões.
O que esse estudante de direito não imaginava é como sua vida mudaria ao longo desses anos encarcerado.
Esse conto, além de uma ode à vida intelectual, é também uma forma de mostrar como a vida de estudos dá frutos visíveis na vida prática.
Por isso eu gosto tanto desse conto. Ele representa a ideia central dessa newsletter e do meu canal Vida Refletida:
Não existe separação entre vida intelectual e vida prática. Uma boa vida de estudos certamente fará você viver melhor.
Tchekhov demonstra isso perfeitamente quando narra o contraste entre as atitudes do banqueiro e do estudante ao longo dos anos:
Um é ansioso, ganancioso, arrogante e vaidoso, enquanto o outro é calmo, satisfeito, gentil e desapegado materialmente.
Link do conto (domínio público) 🔗
📘 Apenas 4 páginas
Parece uma heresia colocar Machado em quarto lugar nesse pódio. Vou aproveitar para explicar uma coisa — antes que vocês me joguem na fogueira!
Machado é um dos melhores. Um gênio. Se eu citasse seus contos e romances individualmente, eles poderiam acabar ocupando a lista inteira.
Preciso seguir os critérios, mas não se preocupe, vou fazer menções honrosas a outros contos.
O conto indicado é A Carteira 🔗.
Curto, fácil e dá um gostinho de “quero mais”. Ótimo começo.
O “Bruxo do Cosme Velho”, como é conhecido, lança seu feitiço mais envolvente no conto A Missa do Galo🔗, em que o leitor é fisgado pelas sutilezas simbólicas, contrastes e uma variedade de insinuações que pairam no ar como névoa.
A literatura de verdade não admite nada explícito. O mais importante fica nas entrelinhas, no não dito. É sutil. É sugestivo.
E isso é altamente elegante. Nisso, o nosso bruxo é mestre.
Outras recomendações de contos:
📘 96 páginas
“Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso.”
Assim começa a novela que marcaria a literatura ocidental para sempre. Sem explicações ou rodeios, somos jogados na cena grotesca sem aviso prévio.
Lembra que eu disse que cada escritor tem sua peculiaridade? Esse é o estilo kafkiano: situações absurdas, complexas, sem saída, incompreensíveis e extremamente agoniantes.
Kafka trabalhou numa seguradora. Seu emprego era burocrático e sua jornada de trabalho opressiva não lhe dava tempo para escrever.
Inclusive, ele soube descrever isso muito bem em sua obra O Processo🔗 — livro no qual o protagonista é processado e preso por um crime que ele não sabe qual é.
Essa é a sensação que Kafka queria passar através das palavras; e ele sabia fazer isso com uma crueza sem igual.
Já A Metamorfose🔗 é uma grande metáfora para relações de trabalho e vínculos familiares que são marcados por expectativas meramente sociais e utilitaristas.
O sujeito acorda transformado num inseto gigante e sua preocupação é… pensar no trabalho. Depois pensa o que será que sua família vai achar disso tudo, já que ele não poderá mais trabalhar.
Parece surreal. Mas já vi pessoas que se acidentaram dizerem coisas do tipo:
E agora? Como vai ficar meu trabalho? Será que o gerente vai ficar com raiva? Ainda bem que não quebrou nada da empresa. Posso ser demitido depois…
Já vi pessoas se gabando por trabalharem doentes.
Você também já deve ter visto pessoas priorizarem os interesses da empresa acima da própria vida.
Isso é doentio.
E Kafka é mestre em expor nossa sociedade doente. Muitas vezes deixamos nossa identidade de lado quando colocamos a máscara da profissão e das relações sociais.
Franz Kafka parecia nutrir um profundo sentimento de inadequação em relação a esse jogo de aparências do mundo.
Uma frase famosa é atribuída a ele. Embora seja apócrifa, representa bem o autor:
"Tive vergonha de mim mesmo quando percebi que a vida era um baile de máscaras, e participei com meu rosto verdadeiro"
📘 120 páginas
Macbeth🔗 é uma das melhores portas de entrada para Shakespeare e para a literatura clássica.
Essa peça de teatro aborda temas profundamente humanos: poder, ambição, corrupção e culpa.
Demonstra como uma consciência pode ser cauterizada em prol de uma forte ambição, mesmo que depois ela se torne um pesadelo assombroso.
Shakespeare toca num ponto crucial de toda tragédia da literatura mundial: o antes e o depois de um ato abominável. O desejo ambicioso e a realização cega.
Em Júlio César🔗, antes de Brutus manchar suas mãos de sangue para sempre, ele diz algo que resume bem isso:
“O intervalo entre a ação de um ato macabro e o primeiro impulso é como um fantasma ou um sonho terrível.”
— Ato II, Cena I
Leia essa frase devagar e entenda o significado profundo disso.
Os assassinatos, na literatura, geralmente são cometidos por personagens que tiveram que anestesiar a consciência e embotar a sensibilidade.
Eles foram entorpecidos pela sede de poder e, agora, cegos de inveja, cedem a essa tentação fantasmagórica num impulso único — para não hesitar diante do mal que será cometido.
Depois de feito, o homem é atormentado.
Impossível não se lembrar de Raskólnikov, protagonista de Crime e Castigo de Dostoiévski.
Ele racionaliza um assassinato e, depois de executá-lo, sente o peso da culpa. E ela o persegue constantemente.
O sentimento de responsabilidade e pessoalidade num ato maligno é um pesadelo. Não foi outra pessoa que fez isso, fui eu. É assustador.
Geralmente livros e filmes retratam isso assim: o personagem tenta lavar as mãos para se limpar do sangue, mas não consegue. Ele continua manchado.
Escrevi um e-book sobre como ler melhor. Se chama Guia do leitor Inteligente: Como ler com profundidade, reter conhecimento e formar pensamento próprio.
Não é um livro de “truques” para ler mais rápido. É um guia para você aprender a ler com profundidade e formar seu pensamento.
Isso não é exclusivo de Macbeth, Brutus ou Raskólnikov.
O senso de certo e errado está gravado em todo ser humano.
O homem não é livre para fazer o que deseja sem apostar algo dentro de si.
📘 76 páginas
Tolstói é um dos melhores escritores de todos os tempos, de longe.
Essa novela é curta e profunda. Um clássico. A Morte de Ivan Ilitch🔗 foi meu primeiro livro de literatura quando despertei para a vida de estudos há seis anos.
Ivan Ilitch vivia sua vida normal, repleta de pompa e status como promotor, quando descobriu, de repente, uma doença fatal.
Um detalhe que acho perfeito nessa novela é como a morte se aproxima de forma inabalável. Tolstói faz isso com maestria.
Ivan Ilitch paga um médico, depois outro e outro. Médicos famosos e especialistas, ninguém consegue descobrir qual é a causa do seu problema. Todo esforço humano é inútil.
Nenhum dinheiro do mundo poderia salvar Ivan Ilitch. Ele não consegue comprar sua cura.
Ele começa a perceber como sua vida gira em torno de futilidades e como suas relações são artificiais.
Depois de uma cascata de eventos, ele vê que as pessoas ao seu redor só estão interessadas em dinheiro e favores.
Essa obra-prima de Tolstói nos questiona sobre o sentido da vida. É um convite para pensar além do material.
Esse é o livro mais profundo e reflexivo da lista.
O protagonista precisou encarar a morte para poder refletir sobre sua vida. Vida e morte estão ligadas. Só conseguimos dar sentido à vida porque a morte existe — e é inevitável.
Sócrates uma vez disse que “uma vida não refletida não merece ser vivida”.
Ivan Ilitch poderia ter vivido cem anos, mas, se não examinasse sua vida, nunca poderia dizer que viveu uma vida digna.
A qualidade da nossa vida não está baseada em tempo, mas em sentido.
E se você morresse daqui a um mês? Você teria orgulho do que viveu? O que tentaria consertar no tempo restante?
Obrigado por ler até aqui!
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