RSS Amplifier

O estrangeiro · Jul 24, 2026

Estamos apagando a nossa própria história?

0
Sign in to vote or save

O Estrangeiro · O estrangeiro

Uma criança de 10 anos dança uma música que fala sobre sexo e ostentação.

Um personagem criado há décadas é completamente reformulado para se encaixar nos valores da época atual.

Palavras que sempre tiveram um significado começam a ser questionadas.

E o mais curioso é que todas essas mudanças acontecem em nome de uma mesma palavra: evolução.

— Mas toda mudança é necessariamente uma evolução?

Porque uma sociedade não muda apenas através das suas leis ou da sua política.

Ela muda através das pequenas coisas.

Pelas músicas que escuta. Pelas histórias que conta. Pelos personagens que escolhe admirar. Pela forma como utiliza sua própria linguagem.

E a linguagem talvez seja uma das maiores provas disso.

Como dizia Confúcio:

“Se os nomes não forem corretos, a linguagem não refletirá a verdade das coisas. Se a linguagem não refletir a verdade das coisas, os assuntos não serão administrados corretamente.

Se os assuntos não forem administrados corretamente, a moral e as artes se deteriorarão. Se a moral e as artes se deteriorarem, a justiça se perderá. E se a justiça se perder, o povo ficará confuso e perdido.”

Talvez pareça apenas uma discussão sobre palavras, músicas ou filmes.

Mas por trás dessas coisas existe algo muito maior: A maneira como uma sociedade enxerga o mundo.

O que ela considera belo, o que ela ensina para as próximas gerações.

O problema não é que o mundo mudou.

Ele sempre mudou.

Mas estamos evoluindo... ou estamos perdendo algumas coisas importantes no caminho?

Existe um problema quando olhamos para o passado: nossa memória costuma ser uma editora muito generosa.

Ela corta as partes ruins, suaviza os momentos difíceis e transforma períodos comuns em épocas douradas.

Por isso é natural ouvir alguém dizer:

— Antigamente era melhor.

Mas existe uma diferença entre reconhecer que toda geração tem seus problemas e fingir que qualquer mudança representa evolução.

Porque nem tudo que é novo é necessariamente melhor.

E nem tudo que se torna comum se torna normal.

Imagine que amanhã uma nova tendência começa a surgir nas redes sociais: usar capacete em todos os lugares.

Dentro de casa. No mercado. No trabalho. Na fila do banco.

No começo, todos achariam estranho.

— Que exagero.

Mas então surgiriam os argumentos:

— Qual o problema? Não faz mal nenhum.

— É apenas uma precaução.

— Você não deveria julgar quem escolhe usar.

E aos poucos aquilo que parecia absurdo começaria a parecer razoável.

Meses depois, quem não usa capacete seria visto como irresponsável.

Anos depois, talvez como alguém que coloca os outros em risco.

O que antes parecia uma ideia absurda passou por um processo de adaptação até se tornar aceitável.

Esse é um dos fenômenos mais curiosos da sociedade, nós não percebemos as mudanças enquanto elas acontecem.

O que hoje parece estranho pode se tornar comum amanhã. E o que hoje parece comum talvez um dia seja visto como estranho.

Mas existe um limite nessa flexibilidade, porque algumas coisas não dependem da nossa vontade.

Como escreveu o psicólogo Pedro Calabrez:

“Independente da nossa vontade, dos nossos desejos e esforços, das nossas diferentes experiências de mundo... o sol nasce e se põe, as folhas caem no outono. O céu às vezes é azul. Outras vezes, cinza e nublado.”

A realidade não muda apenas porque desejamos que ela mude.

A música é uma das formas mais notáveis de influência que existem.

Você pode esquecer uma conversa que teve há 10 anos, mas uma música de poucos minutos é capaz de te transportar imediatamente para uma época antiga.

A música não é apenas som. Ela carrega valores, ideias, desejos e formas de enxergar o mundo.

Pense nas músicas que marcaram sua infância.

Talvez exista uma que lembra sua família, seus amigos, uma fase mais simples da vida.

Isso acontece porque a música não conversa apenas com a nossa razão, ela conversa com a nossa memória.

Agora imagine uma criança passando várias horas por dia consumindo músicas onde os principais temas são:

Ostentação, drogas, violência, sexo e uma busca constante por status.

Será que isso não deixa nenhuma marca?

Muita gente responde:

— Mas é só uma música. A pessoa sabe separar ficção de realidade.

E em alguns casos, realmente sabe.

Um adulto com senso crítico consegue ouvir algo, apreciar uma batida ou uma melodia e ainda assim discordar da mensagem transmitida.

O problema é que a maioria não possui esse filtro.

Principalmente os mais jovens, que ainda estão construindo sua visão de mundo.

Aquilo que consumimos repetidamente deixa de ser apenas entretenimento e começa a se tornar uma referência.

Não significa que uma música vai transformar alguém em determinada coisa, a vida é muito mais complexa que isso.

Mas também é ingenuidade acreditar que aquilo que ouvimos todos os dias não influencia absolutamente nada.

Nossos gostos, nossas referências e até nossas ambições são construídas por aquilo que deixamos entrar na nossa mente.

Você dificilmente passa anos cercado por determinadas ideias sem que elas deixem alguma marca.

Por isso a pergunta não deveria ser:

— Posso ouvir qualquer coisa?

Claro que pode.

A pergunta mais importante é:

— Eu sei o que estou deixando entrar?

Porque no fim das contas, você é influenciado por aquilo que consome.

Está gostando do conteúdo? Considere assinar a minha newsletter e receber meus textos toda semana.👇

Durante milhares de anos, uma das principais funções das histórias foi transmitir valores, conflitos e símbolos de uma geração para outra.

Heróis representavam alguma coisa.

Vilões representavam alguma coisa.

Personagens carregavam características que faziam parte da sua identidade.

Mas nos últimos anos surgiu uma nova tendência.

A ideia de que algumas histórias antigas precisam ser “corrigidas” para refletirem melhor os valores atuais.

Mas porque devemos adaptar as histórias ao mundo em que vivemos em vez preservar as mesmas justamente porque elas mostram um mundo diferente do nosso?

Por que precisamos alterar algo que já existe em vez de criar algo novo?

Ninguém se incomoda quando uma nova história apresenta um protagonista diferente, com outra origem, outra aparência ou outra visão de mundo.

O problema aparece quando pegamos uma história que já possui uma identidade própria e tentamos reconstruí-la para se encaixar em uma nova visão de sociedade.

Imagine uma pequena cidade do interior.

Durante décadas, existe uma estátua de um homem chamado Miguel na praça central.

Todos conhecem sua história.

Ele ajudou a reconstruir a cidade depois de uma grande enchente.

Criou empregos quando a região passava por dificuldades.

Doou parte de suas terras para construir uma escola.

Ele se tornou um símbolo daquela comunidade.

Anos depois, uma nova geração chega ao poder e decide que aquela história precisa ser atualizada.

Não porque Miguel não foi importante.

Não porque seus atos foram falsos.

Mas porque alguns elementos da sua identidade não combinam com os valores atuais.

Então eles mudam sua origem.

Mudam sua aparência.

Mudam partes da sua trajetória.

A intenção é criar uma representação diferente.

Mas existe uma consequência: A história original deixa de existir.

Uma obra não é apenas um conjunto de características aleatórias. A identidade de um personagem também faz parte da sua construção.

A Branca de Neve é Branca de Neve. E não a japonesa de neve. Ou a indígena de neve.

Você pode criar novos personagens, pode criar novos heróis, pode contar novas histórias.

Mas quando você altera completamente uma história antiga, você está incluindo novas pessoas apena está substituindo uma história existente por outra.

E essa diferença importa.

Porque diversidade não precisa significar apagar aquilo que já existe. Uma sociedade saudável consegue fazer duas coisas ao mesmo tempo.

Criar novos símbolos para novas gerações.
E preservar os antigos símbolos para entender de onde veio.

O problema não é uma pessoa diferente ocupar o papel de protagonista em uma nova história.

O problema é acreditar que tudo que veio antes precisa ser reconstruído para ser aceitável hoje.

Quando olhamos para o passado e mudamos tudo aquilo que nos incomoda, perdemos a capacidade de aprender com ele.

Nós não entendemos os erros de outras épocas apagando-os.

Nós entendemos justamente porque eles foram preservados.

Os erros do passado servem como aviso porque nós conseguimos enxergá-los.

A história não precisa ser perfeita.

Ela precisa ser verdadeira.

Porque é olhando para aquilo que fomos que conseguimos decidir aquilo que queremos ser.

— Por que o mundo está mudando?

Porque ele sempre mudou.

Todas as gerações olharam para o futuro com estranhamento.

Novas músicas surgiram, novas ideias apareceram, novas formas de arte nasceram.

A mudança faz parte da história humana.

O problema começa quando uma sociedade perde a capacidade de distinguir entre aquilo que precisa ser transformado e aquilo que precisa ser preservado.

Porque nem tudo que é antigo é ultrapassado.
E nem tudo que é novo é evolução.

Algumas coisas existem há séculos justamente porque carregam algo essencial sobre nós.

Nossas histórias, símbolos, linguagens e valores.

Uma árvore pode crescer infinitamente, mas ela só continua viva porque mantém suas raízes.

Nós devemos construir o futuro sem destruir tudo aquilo que nos trouxe até aqui.

Não se trata de rejeitar toda mudança.

Nem de acreditar que o passado era perfeito.

Porque uma sociedade que aceita qualquer mudança sem questionar perde suas referências.

Mas uma sociedade que se recusa a mudar também deixa de evoluir.

O equilíbrio está justamente no meio.

Na capacidade de olhar para o novo sem abandonar a sabedoria do antigo.

No fim, talvez o maior perigo não seja viver em um mundo diferente.

É viver em um mundo onde ninguém mais sabe explicar por que as coisas são como são.

💬 E você? Acha que o mundo está indo para um lugar melhor? Conte sua história, deixe um comentário. Curta ❤️restack 🔁

Seu engajamento me motiva a continuar trazendo mais textos como esse.

🎥 E se quiser ir além da leitura, no meu canal no YouTube eu aprofundo essas ideias com um toque visual que te desprende da vida real.

Canal Youtube

Também escrevi um eBook sobre como começar e crescer a sua newsletter no Substack, um guia prático para transformar o que você pensa em escrita que já ajudou dezenas de escritores. ✍️

Ebook

Read the original on oestrangeirohub.substack.com

Comments

Nothing yet. Say the first thing.

    Sign in to join the conversation.