RSS Amplifier

O Coelho Branco – por Junior Magalhães · Apr 30, 2026

🐇🇧🇷 O Coelho Branco #038: A próxima interface a ser enterrada pode ser o touchscreen. Ou talvez, o chat. LoveFrom+Ferrari, YCombinator.

0
Sign in to vote or save

Junior Magalhães · O Coelho Branco – por Junior Magalhães

Junior Magalhães,
Abril 29, 2026

👋 Olá de novo ;)

Faz tempo que toda interface importante virou a mesma coisa: uma tela retangular gigante deslizando notificações e pedidos de atenção.

Carros viraram iPads com rodas. E apesar de acreditar que muitas coisas não valem o esforço de serem reinventadas, parece que essa é a coisa que esse momento mais tem me dado o prazer de fazer. Atualmente, por conta da técnica muitos produtos tem se parecido cada vez mais, paradigmas de interface, dashs iguais, estruturas iguais, muitas baseadas em campos de texto. Chat virou o iPad do carro elétrico, o atalho de menor resistência que toda empresa copia porque é o que existe pra copiar.


Nessas últimas semanas, no entanto, vi alguns lançamentos sugeriram que existe outro caminho. A Ferrari soltou o vídeo do Luce com interior assinado pelo Jony Ive, pelo Marc Newson e pela LoveFrom. Controles físicos em alumínio, chave física. A Y Combinator publicou o Requests for Startups Summer 2026, uma lista pública das próximas empresas AI-native que os partners querem ver fundadores construindo. E o Keith Rabois soltou um episódio no Lenny’s Podcast falando que o triad de produto está se desfazendo na frente da gente.

Os três se conectam. E a tese não para no touchscreen.

A próxima década de AI não vai ser ganha por quem treinar o melhor modelo somente. Vai ser ganha por quem tiver coragem de enfrentar os paradigmas de interface atuais. Voz pode ser parte do caminho, visão outra, tem gente trabalhando a anos em direção a ter sucesso na passagem de contexto para nosso cérebro haha Por mais curioso que pareça, o que vem depois disso ninguém sabe descrever ainda, e é exatamente aí que está o trabalho mais interessante dos próximos cinco anos.

Os itens dessa edição são pistas de como o terreno está sendo preparado.

Agradecimentos da semana para Marina Lemos, Erica Hirose, Rodrigo, Humberto, Erick Mazer, Alexandre Maluli, Bruno assis, Thiago, Paulo, Fran, Johnes, Caio Jacintho, Ana, Thiago Penha, Wagner Muller, Eduardo Duccigne.

Hoje falo brevemente também, sobre meus últimos testes com Freepik, Nano Banana & ChatGPT Images 2.0.

Antes de qualquer coisa, vale explicar o nome. Luce significa luz, ou iluminação, em italiano. É o primeiro carro 100% elétrico da Ferrari e marca uma nova estratégia de naming na marca: em vez de seguir a tradição de números e códigos (F40, 488, 296), Ferrari escolheu uma palavra que carrega filosofia. O Benedetto Vigna, CEO da Ferrari, descreve o Luce como “um projeto que vai iluminar o futuro e o caminho à frente”. Soa como marketing italiano até você lembrar que dirigir à noite é literalmente uma questão de luz, de quanta atenção a tela rouba dos seus olhos, e de como uma interface bem desenhada devolve essa atenção pra estrada.

A LoveFrom trabalha no Luce há cinco anos. O coletivo foi fundado em 2019 pelo Jony Ive (ex-chief design officer da Apple, responsável por iMac, iPod, iPhone, iPad e Apple Watch, todos aq devem conhecer ;) ) e pelo Marc Newson, que talvez seja o nome menos óbvio dessa parceria pra quem só acompanha tech.

Newson é um designer industrial australiano e está entre os mais influentes do mundo nas últimas três décadas. Ele assinou o Ford 021C concept em 1999, um carro que parecia um brinquedo de criança e antecipou várias decisões que viraram padrão na indústria duas décadas depois (luzes LED frontais em barra, formas suaves substituindo linhas agressivas). Newson também desenha móveis, relógios, câmeras, espingardas e até espaçonaves. Em 2018 já tinha colaborado com a Ferrari, designando um case de motor em alumínio que servia de capa pra um livro sobre a marca. A Luce é a primeira vez que ele e o Ive trabalham juntos em um carro de produção.

Pelo lado da Ferrari, o projeto é coordenado por Flavio Manzoni, que dirige o Ferrari Styling Centre e é o responsável pela linguagem visual da marca há mais de uma década. O Manzoni explicou em entrevista ao Top Gear que a Ferrari “compartilhou alguns pensamentos iniciais, depois deixou a LoveFrom em autonomia total por seis meses. Eles voltaram com uma proposta holística com todos os aspectos perfeitamente conectados, exterior, interior e interface.”

O lançamento foi dividido em três fases. Em outubro de 2025, em Maranello, a Ferrari mostrou a plataforma técnica do EV. Em 9 de fevereiro de 2026, no Transamerica Pyramid em San Francisco (perto do estúdio da LoveFrom, em um espaço redesenhado pelo Norman Foster), revelaram o nome, o interior e a interface. A terceira fase, com o exterior, sai em maio na Itália.

O que o Ive disse no walkthrough explica melhor que qualquer release o motivo de tudo isso ter acontecido:

“Na prática e em termos de funcionalidade, uma tela sensível ao toque grande não funciona em um carro. Isso é indiscutível. Acho fácil e preguiçoso. Entrar em um carro e ver uma tela enorme... bem, isso me desanima completamente.”

E ainda:

“Tudo é baseado na funcionalidade. Não é estilizado, não é ornamentado, porque isso é uma distração e não dura muito.”

A Tesla popularizou o touchscreen central no carro em 2012. O resto da indústria copiou nos anos seguintes por dois motivos pouco nobres: cortar custo de peças mecânicas, e parecer um smartphone. Treze anos depois, com motor elétrico já commodity, a Ferrari foi a primeira marca grande a olhar pra essa decisão e dizer em alto e bom som que ela nunca foi sobre design, foi sobre preguiça.

Não é nostalgia, é uma escolha sobre onde a atenção do motorista deve estar. E é a primeira vez em uma década que alguém com poder de pauta e sem medo de soar fora de moda diz isso publicamente.

Ferrari Luce, site oficial Walkthrough do Jony Ive na Top Gear Cobertura da Wallpaper sobre o lançamento em SF

O Keith Rabois passou por PayPal, Square, LinkedIn e Khosla Ventures, e investiu cedo em Stripe, DoorDash, Airbnb, YouTube, Ramp e Palantir. Ele não toca em computador desde setembro de 2010, só usa iPad, e essa decisão sozinha já vale muito do que ele tem a dizer sobre interface.

Em aproximadamento 30min, ele fala sobre o futuro do triad de produto. O modelo clássico (PM, Designer, Engenheiro) está se desfazendo porque AI absorveu a parte mais mecânica de cada papel. O que sobra é o que cada um sabe fazer melhor, e o triad vira mais um time de especialistas se reorganizando em torno de bom gosto e velocidade de entrega.

Em 41', ele fala sobre por que design e código estão se fundindo. Designer que não codifica perde fronteira de entrega. Engenheiro que não desenha perde fronteira de craft e bom gosto. O profissional que ocupa as duas camadas ganha um leverage que nem a melhor pessoa de produto consegue superar.

As duas observações do Rabois são a versão americana, em linguagem de venture capital, do mesmo movimento que a Ferrari está fazendo em hardware. Os papéis estão recolapsando em torno de quem tem bom gosto, decide aproveitar as novas possibilidade e cria algo que antes teoricamente não fazia sentido para algumas pessoas.

Tenho a sensação que aqui no Brasil, ainda contratamos produto como se fosse 2020, e ainda separamos design de engenharia como se um precisasse traduzir ou reportar para o outro sua atuação via documentos. Quem entender que o triad mudou agora, vai construir os próximos produtos que faltam aparecer aqui. Com alto nível de maturidade e experiência.

A entrevista tem outras falas polêmicas, mas na intenção de condensar sempre o que é mais importante para vocês decidi focar somente na mensagem principal sem focar em uma área ou outra da tríade de produto.

Lenny’s Podcast com Keith Rabois, Hard truths about building in the AI era

Toda vez que eu publico uma curadoria como essa, recebo a mesma mensagem de algum leitor: “tudo isso é incrível, mas não sei o que fazer para aprender. O que eu faço com essa informação?”

A Y Combinator publicou essa semana o Requests for Startups Summer 2026, escrito por Garry Tan, Tom Blomfield, Jared Friedman, Diana Hu, Ankit Gupta e mais. A função do documento é exatamente reduzir paralisia. É uma lista pública de teses que os partners querem ver fundadores atacando agora.

Três delas conversam diretamente com a tese dessa edição.

A primeira é Dynamic Software Interfaces, escrita pelo Ankit Gupta. O argumento é que a era do software one-size-fits-all ou agnóstico acabou. Com agentes de código bons o suficiente, todo usuário vira seu próprio forward deployed engineer. Meu cliente de email pode parecer uma task list, o de um estudante pode parecer um calendário de eventos, e os dois compartilham coisas que o time de software entrega de propósito pra serem modificados.

A segunda é Software for Agents, escrita pelo Aaron Epstein. A tese cabe numa frase: os próximos bilhões de usuários da internet não vão ser pessoas, vão ser agentes. E hoje agentes navegam, pesquisam e compram em cima de software desenhado pra dedo em botão. Em vez de formulário e dashboard, eles precisam de APIs, MCPs e CLIs. A oportunidade não é construir mais um agente, é construir o software de que os agentes vão depender.

A terceira é SaaS Challengers, escrita pelo Jared Friedman. A frase exata do RFS poderia ter saído dessa edição: software AI-native não é um chatbot encaixado em uma UI de 2010, é software que repensa o workflow do zero. AI colapsou o custo de produzir software em 10 a 100 vezes. A recomendação é não atacar o alvo fácil (mais um Trello), atacar o que parecia intocável: design de chip, ERP, supply chain, sistemas de controle industrial.

O Brasil tem todos os ingredientes pra atacar SaaS Challengers e Software for Agents agora, e pouca gente ainda está explorando. Queria que essa curadoria não fosse somente para te deixar mais informado, mais pra te deixar menos paralisado. A maioria dessas coisas parecem bem divertidas de se explorar mesmo que seja para facilitar ou melhorar seu dia a dia e como você criar seu produto hoje, dentro ou fora de uma empresa ou time.

YC Requests for Startups, Summer 2026

Antes de entrar nos outros links da semana, queria compartilhar como ando usando AI no dia a dia. Além do código ou to trabalho que faço relacionado a pensamento de produto ou design de interfaces.

Dando vida ao meu clone virtual hoje hospedado em: O Coelho Branco Clone 🇧🇷✨🐇

O Freepik de longe foi o melhor para trazer mais realismo e uma direção mais decente de iluminação e conceito.

No chatGPT 2.0, consegui bem rápido ter ótimos resultados transformando um anel novo que ganhei em fotos de estúdio.

Alguns testes que fiz para testar tipografia no ChatGPT 2.0, todos funcionaram bem quase que em 2 prompts tinha o que queria, mas ainda tem dificuldade de criar algo com essa direção sem usar uma imagem de referência.

Fiz um edit rápido só pra compilar alguns dos vídeos de todos os testes para verem, a música foi criada no suno segue o link: 🇧🇷✨🐇 Halt and Catch a Fire: Junior Magalhães on Suno.ai

A conclusão, pelo menos pra mim agora, é que tenho a melhor ferramenta de exploração que eu já tive, pra criar coisas que sempre quis e nunca pude por tempo. Seja uma música, um filme, um protótipo, ela não substitui o craft que vai pro mundo, ela substitui o sketch rápido que ninguém vai ver mas que decide o que vai ser feito pelo menos na minha opinião.

Esse link é uma redescoberta importante. O Free Game é um manual A-Z gratuito que o Virgil Abloh deixou pronto antes de morrer em novembro de 2021. Faz parte das iniciativas "community service" e "post-modern mentoring" do Virgil. O foco declarado é dar acesso a estudantes negros e pessoas que vêm das margens, mas o material é aberto e útil pra qualquer founder ou designer começando.

Nos doze tópicos do manual, muita coisa é para criadores de marcas de street fashion, mas é interessante estudar de qualquer forma:

  • Como nomear sua marca

  • Como obter um trademark

  • Conteúdos de fundamentos e princípios de Design

  • Catálogo de formas de linguagem (a tese estética do Virgil)

  • Mentores pessoais

  • Inspiração estendida

O Free Game é o lembrete de que esse trabalho começa muito antes de qualquer rodada de venture capital. O Virgil entendeu que abrir o manual era uma forma de contribuir com o valor que pensar em uma marca tem, não somente generosidade. Quem hoje constrói um produto sem pensar na marca que quer deixar para outras pessoas pode estar esquecendo o porque tem feito ou o motivo de criar algo novo.

🔗 free-game.virgilabloh.com

Retune.dev (retune.dev).
Quem leu o guia de Vibe Coding que fiz com o Vitor Amaral (designer da Intercom) sabe que o gargalo nunca foi gerar código, é comunicar com o agente o que você quer que mude na tela. A Retune resolve exatamente isso. Você abre o app no browser, seleciona qualquer elemento, ajusta espaçamento, cor, tipografia, layout direto na interface, e a Retune envia um diff estruturado pro Claude Code ou Cursor via MCP. O agente escreve o código, você revisa antes do commit. O pitch fixado no site é a frase mais honesta que apareceu em ferramenta de AI esse ano: No more prompting for pixels.” Funciona com Next.js, Vite e Remix, e é grátis pra indivíduos.

Pool (pool.day).
Startup nova de San Francisco, criada pela Random Access Memories Co. com time vindo de Stripe e Apple, captou 8,7 milhões de dólares. A tese cabe numa frase: “save anything with a screenshot.” O argumento é que a interface mais usada do iPhone hoje não é app nenhum, é a câmera e o rolo de screenshots que cresce indefinidamente sem nunca virar coisa estruturada. O manifesto é honesto sobre o tamanho da aposta: “This is a foundation-level play, not a feature. We’re rethinking the computer.” Vale acompanhar.

Roro (tryroro.com/code). Interfaces dedicadas pra gestão de agentes vão começar a surgir cada vez mais, e essa foi uma interessante que encontrei. Roro é basicamente um calendário e workspace pros agentes do Claude Code. Você abre vários projetos como workspaces paralelos, adiciona múltiplos agentes em cada um, agenda tarefas pra rodarem à noite, customiza nome e perfil de cada agente, e acompanha atividade em tempo real via hooks do Claude Code. É exatamente o tipo de produto que o RFS da YC pediu na seção “Software for Agents”, ferramentas pensadas pra orquestrar agentes como cidadãos primários, não pra humanos clicarem em botão. Esperem mais produtos parecidos surgindo nos próximos meses.

Se você tivesse que apostar no que vai substituir o chat como interface dominante de AI nos próximos cinco anos, qual seria sua aposta?

Uma marca italiana de carros, um podcast de produto, uma lista de teses publicada pela Y Combinator, um manual deixado por um designer dos mais influentes em moda dos últimos anos, e três links pra acompanhar de perto.

Todos chegam na mesma conclusão por caminhos opostos. A parte abstrata do trabalho ficou barata, e a parte tangível ficou cara. E é ai que o trabalho mais interessante e novo pode começar.

O fato de que ninguém sabe pode substituir a interface de chat em adoção é o que torna esse momento o melhor pra construir desde a chegada do iPhone.

Cada vez que uma indústria inteira começa a copiar a mesma interface, abre uma janela pra quem desenha melhor a próxima.

Até semana que vem.

Follow the white rabbit. 🐇
Junior Magalhães

Indique um amigo

Obrigado por me apoiarem por aqui. 🇧🇷✨

Primeira vez aqui? Assine grátis
O Coelho Branco é a newsletter brasileira sobre Design, AI e Produto. Toda semana, curadoria e análise para quem constrói o futuro. Para Founders, Designers, PMs & Devs.

Read the original on ocoelhobranco.substack.com

Comments

Nothing yet. Say the first thing.

    Sign in to join the conversation.