A solicitação excessiva de exames complementares (overtesting/overuse) está associada a danos significativos ao paciente, cascatas de cuidado e custos elevados, com evidência demonstrada em revisões sistemáticas, estudos de coorte e posicionamentos de sociedades médicas. Só para se ter uma noção, estima-se que de 10% a 70% dos exames laboratoriais possam ser desnecessários, dependendo do teste e do contexto clínico.
Um pouco de opinião:
Nos tempos atuais, é visto como moderno o ato de prescrever uma “bateria de exames” para o paciente. Em muitos casos, tal conduta se confunde com o cuidado, trazendo a justificativa de que é melhor pecar pelo excesso do que pela falta. De fato, negligenciar a solicitação de exames quando necessários também repercute em desfechos negativos para o paciente/população. No entanto, isso se trata de uma falsa equivalência: um ato falho não legitima nem torna mais tolerável uma outra falha.
Uma revisão de 2025 (10.1016/j.amjmed.2025.10.013) aponta determinantes cognitivos (desconforto com ambiguidade, viés de comissão, perfil de "maximizador médico"), medicina defensiva por receio de repercussões judiciais, expectativas do paciente, pressões profissionais, normas culturais, restrições de tempo, incentivos do modelo fee-for-service e fácil acesso a recursos diagnósticos como fatores que perpetuam o over-investigation.
A grande questão é que resultados falso-positivos podem levar a procedimentos invasivos com riscos próprios, além de achados incidentais que geram acompanhamento sem benefício clínico real. É importante lembrar que o foco de todo bom acompanhamento é causar impacto clínico satisfatório no paciente. Acompanhamento com foco exclusivo em exame é um dos maiores equívocos da medicina moderna.
Por fim, Uma conduta adequada para a solicitação de exames deve ser guiada por indicação clínica, probabilidade pré-teste bem definida e decisão compartilhada, e não por rotina, medicina defensiva ou pressão. Em síntese, a conduta ideal integra: pedir exame apenas quando o resultado for capaz de alterar manejo, evidenciar a hipótese diagnóstica e o raciocínio pré-teste pensado.

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