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Email do Nigel! · Aug 13, 2026

Email do Nigel! Fantasma parte 2

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Nigel Goodman · Email do Nigel!

Olá, como você está?

Tenho escrito todo mês um conto para a Miaugazine, então tomei vergonha na cara e vim aqui terminar o conto que eu tinha começado no email que eu enviei em fevereiro (!!!). Terminei? Ainda não. Está crescendo como um belo bolo. Mas, pelo menos, agora estamos mais perto do fim.

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(…)

— Beni, tá tudo bem com você? Vem cá, meu amor. Vamos deitar — disse Elisa, preocupada. Preocupada e um pouco assustada.

Por mais que seja preocupante quando alguém que você ama tenha enlouquecido de uma hora para a outra — era o que ela estava entendendo daquela interação até ali, que Benício estava delirando —, é sempre muito assustador se perceber sozinha com um louco. Por mais que seja um louco que você conhecia muito bem. Ficou louco, já era. Se desse pra confiar em um louco, nas suas atitudes e decisões, não seria bem um louco. Seria apenas uma pessoa excêntrica. Benício não estava agindo como pessoa excêntrica. Estava agindo como doidinho de pedra.

Com muito cuidado, Elisa foi tentando se aproximar dele. Quem sabe se ela o conduzisse até o quarto ele voltasse a dormir e acordasse lúcido, sem vontade de comprar cigarro para os mortos que não fumavam. Elisa encostou sua mão no braço de Benício e, com uma leve pressão, sugeriu o caminho da cama. Só que Benício estava completamente consciente e pessoas conscientes não costumam se deixar conduzir para a cama como se fossem criancinhas com muito sono.

— Eu não posso. Eu tenho que sair.

— Você não precisa sair, meu amor. São duas da manhã.

— De novo essa merda de duas da manhã! Ninguém dorme duas da manhã! — gritou Rogério.

Sem um corpo físico, sem um cenho para franzir, um coração para acelerar ou uma pálpebra para ficar se repuxando de forma muito incômoda, a raiva de um fantasma não tem uma forma óbvia de se manifestar. A energia emocional gerada fica como a eletricidade de uma tempestade, que procura sempre o caminho mais fácil até o solo. Sem o corpo, a energia da raiva de Rogério acaba indo para o ar, criando rajadas de vento que surgem do nada e gelam aqueles que a sentem; ela vai para os objetos mais próximos, fazendo eles rangerem e racharem espontaneamente; e corre pelas fiações piscando lâmpadas e queimando aparelhos. É por isso que não se irritam os espíritos. Os antigos sabiam muito bem disso, mas esse conhecimento ou se perdeu, ou foi dado como coisa de doido, porque normalmente quem entendia o que estava acontecendo agia de forma bem estranha, como Benício estava agindo até então.

E Rogério estava ficando mais e mais irritado com a demora.

Tudo na sala estava chacoalhando. Lufadas de vento vindas do absoluto nada jogavam os cabelos de Elisa de um lado para o outro. Uma mesinha de canto tombou, derrubou um vaso que se quebrou em uma explosão de pequenos caquinhos de cerâmica que rasgavam a pele de Benício e Elisa. Ela gritava desesperada. Benício sabia que precisava sair dali o mais rápido o possível.

— Eu vou comprar cigarro — ele disse, enquanto as fibras da madeira da porta da frente se dilatavam, fazendo ela se partir em duas.

Benício saiu, deixando sua esposa ferida e assustada para trás — era o melhor que poderia fazer por ela. Ele entrou no carro que estava na garagem, ajustou o espelhinho, abriu a garagem e saiu pela noite. Do seu lado e sem cinto de segurança — não por já estar morto, mas por falta de hábito mesmo —, seu tio, Rogério.

— Mulher é um atraso mesmo. Todo esse escândalo só por causa de um cigarrinho.

Não querendo arriscar deixar o tio de mau humor novamente, mas sem poder deixar passar, Benício comentou:

— Tio, você destruiu a sala da minha casa e cortou o meu rosto e o rosto da minha esposa.

— Mas você viu que foi ela que começou. A gente estava de saída e ela insistindo que estava tarde, como se a gente fosse criança. Não dá pra deixar mulher falar assim com você não senão ela monta em cima.

Benício não falou mais nada no caminho até o primeiro posto de conveniência que encontrou aberto. Infelizmente seu tio não se tocou e seguiu falando com entusiasmo. Pra falar a verdade, ele sempre preferiu assim, quando só ele falava e os outros ouviam. Só gostava de ser interrompido se fossem por risadas ou elogios, de resto podia manter uma conversa animadíssima sem que a outra pessoa abrisse a boca. Benício tentou ligar o rádio para que o som abafasse a voz do tio e ele não precisasse mais ouvir nenhum comentário sobre como seu carro era uma porcaria e como os carros elétricos não podem ser levados a sério. Só que logo ele percebeu que ele não ouvia o tio da mesma forma que ouvia os outros sons. As palavras do tio chegavam diretamente no seu cérebro. Era como uma música presa na sua cabeça, agora que estava ouvindo o tio falar, não conseguia convencer seu cérebro a parar de captar aquela sintonia do além.

— Encosta ali. Encosta ali — disse o tio apontando uma casa velha no meio de uma rua residencial.

E foi isso que aconteceu. O carro parou ali sem que qualquer pergunta fosse feita, mas a resposta veio de qualquer forma.

— Eu conhecia o camarada que morava aqui — disse para o sobrinho e então saiu do carro e começou a gritar. — Bueno! Bueno!

O tio começou a gritar cada vez mais alto. Apesar dos pássaros que dormiam em ninhos nas árvores e debaixo dos telhados terem voado para longe, Benício desconfiava que ele era o único capaz de ouvir o tio. E os gritos pelo “Bueno” martelavam sua cabeça. Estavam tão altos que, se se propagassem como ondas sonoras, Benício provavelmente perderia parte da sua capacidade auditiva.

— Bueno! — continuava Rogério.

Já era impossível ter qualquer outro pensamento. Cada novo grito, era como se “Bueno” estivesse sendo marcado a fogo na consciência de Benício. Ele aguentou muito antes de, por instinto, enfiar a mão na buzina e gritar, com todo o seu fôlego:

— Bueno!

Rogério só tirou a mão da buzina quando a luz da casa se acendeu. Não só da casa de Bueno, mas a de várias outras casas da rua.

(continua…)

Bom, se você gosta de ler contos na sua newsletter, vai ficar feliz em saber que eu tenho postado todo mês uma zine/revista/newsletter chamada Miaugazine. Não sou só eu. Tem mais gente envolvida e com isso mais estilos e formatos pra você. A publicação é liberada no primeiro mês para todos os assinantes e depois fica disponível apenas para os assinantes pagos — que também podem baixar uma versão em áudio onde eu leio a revista inteira pra você ouvir por aí se ler for uma questão.

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Ela é uma newsletter mais levada a sério, o que me libera pra levar essa aqui menos a sério ainda. O que eu acho ótimo. Então se inscreve lá, mas segue por aqui também.

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